Copa América

Em busca de um recomeço em BH, refugiados ganham ingressos para ver Venezuela no Mineirão

Apesar da felicidade por ver a Seleção Venezuelana jogar, preocupação dos refugiados que estão em BH é com a situação do país e dos familiares que ficaram

postado em 22/06/2019 07:00 / atualizado em 21/06/2019 20:28

<i>(Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A. Press)</i>
Alberto Márquez ensinava boxe e atletismo para crianças em Margarita, no Norte da Venezuela, até que precisou sair do país, em junho do ano passado, por causa da escalada da crise no regime de Nicolás Maduro. A escassez de alimentos nas gôndolas dos supermercados, de combustível, a hiperinflação também impediram Eykel Arevalo de começar a faculdade de enfermagem, em São Félix; Kiowel Ocanto deixou a polícia em Cumaná; e Victor Velázquez largou o emprego de soldador para fugir com a mulher e três filhos para o Brasil.

Alberto, Eykel, Kiowel e Victor fazem parte de um grupo de 17 refugiados que desembarcou em Belo Horizonte na semana passada, depois de passar algum tempo em Boa Vista, capital de Roraima. Eles estão hospedados em uma residência mantida pela Providens, da arquidiocese de Belo Horizonte, ao lado da igreja da Boa Viagem. Eles ficam hospedados ali até conseguir emprego e, assim, recomeçar a vida. Do primeiro grupo, que chegou há quatro meses, todos os 14 estão trabalhando, boa parte deles em Tiradentes, polo gastronômico e turístico.

Neste sábado, os refugiados irão ao Mineirão para assistir ao duelo entre Venezuela e Bolívia, às 16h, pela última rodada do Grupo A. A iniciativa partiu da Minas Arena, que cedeu os ingressos. A partida traz um pouco de alento – o sorriso no rosto é o principal sinal –, mas não diminui a preocupação dos venezuelanos com a situação delicada do país. “Estou contente, mas eu ia ficar mais feliz se tivesse minha filha aqui. Na Venezuela tenho coisas materiais, mas isso não me interessa, o que me interessa é minha filha”, lamenta Alberto, que deixou para trás Ana Gabriela, filha de 27 anos.

<i>(Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A. Press)</i>
 
Kiowel deixou o filho Dylan, de apenas 4. “Só quero ter um emprego seguro aqui para trazer minha família, porque eles estão passando necessidade lá. O salário não dá para nada, não tem comida”, diz.

A Venezuela é hoje um país marcado por momentos opostos dentro e fora de campo. Enquanto a Seleção Venezuelana vive seu melhor momento, vice-campeã do Mundial Sub-20 em 2017, a situação político-social do país latino continua crítica, diante da queda de braço do regime de Nícolas Maduro com a oposição e boa parte da comunidade internacional.

EXPECTATIVA Não são apenas os recém-chegados que vivem a expectativa de ver a Vinotinto. Morador do Bairro Ipiranga, na Região Nordeste de Belo Horizonte, José Miguel Silva, de 26 anos, nasceu em Carora, no estado de Lara. Está em BH com um irmão mais novo desde março de 2018, quando precisou deixar a Venezuela pela perseguição do regime de Maduro. José era líder estudantil e fazia oposição ao governo.

Ao lado do parente, o jovem batalha a cada dia para apoiar os familiares – pai, mãe, padrasto e irmã caçula, que ficaram no país que vive a maior crise humanitária do continente. “Falo com eles pelo menos duas vezes por semana. Tenho compromissos monetários para dar a eles uma oportunidade também”, diz o rapaz que é um dos 4 milhões de imigrantes venezuelanos a deixarem o país desde o início da guerra civil, conforme levantamento da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Torcedor do Deportivo Lara, que recentemente enfrentou o Cruzeiro pela fase de grupos da Copa Libertadores, José Miguel classifica a Copa América com um sentimento misto, formado pela lembrança da vida que levava e pela tristeza diante do atual momento do país natal. “Com tudo que está acontecendo lá na Venezuela, são muitos sentimentos. Não sei o que pensar na verdade. Ao mesmo tempo que quero ir ao jogo, estou pensando em outras coisas”, explica.
 
PALAVRA DO ESPECIALISTA
Lucas Berti, jornalista dedicado à cobertura do noticiário da América Latina 

“A Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) anunciou em junho de 2019 que o Brasil é a quinta nação na lista das que mais recebem migrantes venezuelanos, com cerca de 168 mil. Seja pelo desemprego, violência ou pela grave situação hiperinflacionária, é certo que se manter na Venezuela é um desafio. Além da questão econômica, há o componente político. Desde que assumiu em 2013, o presidente Nicolás Maduro personificou uma escalada autoritária, que inviabiliza a livre atividade da imprensa e movimentos de oposição. Em sua contestada reeleição, definida em maio de 2018, movimentos de oposição, capitaneados pela coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD), se recusaram a participar, alegando fraude e falta de transparência. Nessa soma entre autoritarismo e economia em ruínas, grande parte dos venezuelanos encontra opções fora do território, ainda que muitos abram mão de suas formações profissionais de origem para faturar com o primeiro emprego que surge. Em muitos casos, há até denúncias de trabalhos análogos à escravidão.”