Gustavo Nolasco

DA ARQUIBANCADA

A festa junina dos zagueiros celestes

Enquanto Tostão e Dirceu Lopes eram cercados por repórteres e Piazza se dirigia para erguer a Taça Brasil, os cunhados Procópio e William se abraçavam

postado em 03/07/2019 08:35 / atualizado em 03/07/2019 08:48

<i>(Foto: Arquivo O Cruzeiro/EM)</i>
Festas juninas alegravam as noites frias de junho de 1960. A fogueira soltava fiapos de brasa e estalava sons alegres. Lembrava os foguetes no céu da capital mineira, dias antes, quando o Cruzeiro havia conquistado a Copa Belo Horizonte, num empate contra o time da elite, o Atlético de Lourdes, exatamente no Dia de Santo Antônio.

No alto da esquina entre as avenidas Afonso Pena e Contorno, onde Belo Horizonte “terminava” naquela época, Vivien foi à porta da casa de seus pais receber o namorado Benito, zagueiro do Cruzeiro e filho do lendário Ninão Fantoni, o primeiro ídolo da história do Palestra Itália/Cruzeiro. Ele trazia um convidado de última hora: o seu companheiro de zaga Procópio.

Dentro da residência, o irmão da moça, William, então zagueiro do time de Lourdes, aguardava os outros dois jogadores e amigos para um abraço. Mais ao fundo, uma segunda irmã, Mariam, já era admirada por um encantado Procópio.

Sob o olhar atento e duro de William, ela aceitou o convite de Procópio para a dança. Relembrando seus tempos de ponta de lança no juvenil do Renascença, ele driblou o vazio e bailou o amor que nascia nos corações dos dois naquela noite de estrelas.

Nenhum deles podia imaginar que daquela festa junina nasceria a linda história de amizade e companheirismo entre três zagueiros e suas futuras amadas. Muito menos, que dali a seis anos, dois deles formariam uma zaga capaz de parar o melhor time do mundo. O que se concretizaria graças à bênção de um ex-seminarista chamado Felício Brandi. No ano seguinte, Procópio deixaria o Cruzeiro após ser tricampeão celeste de 1959/1960/1961, sob a batuta do gênio Niginho Fantoni, o primeiro grande craque da história centenária do Cruzeiro e tio do cupido Benito.

William permaneceu no Atlético de Lourdes, mas logo se transferiu para o América do Rio de Janeiro. Benito também ganhou os gramados para além das montanhas, mas ambos tiveram uma notícia que os fez retornar a Belo Horizonte.

Quando defendia o Fluminense, em 1963, Procópio subiu a serra para selar sua paixão por Mariam. Casaram-se sob os olhares do cunhado-irmão-xerife William e do cupido Benito. Entre os padrinhos, o monstro sagrado da crônica esportiva Nelson Rodrigues, que fez questão de abençoar o matrimônio do amigo e zagueiro do seu Tricolor das Laranjeiras.

Se já integravam a mesma família, era chegado o momento de Procópio e William formarem uma só zaga em escretes de gigantes (em pequenos, já haviam atuado no de Lourdes). Ainda em 1963, começaram pela amarelinha, na disputa do Sul-Americano, e foram campeões nacionais defendendo a Seleção Mineira. Prenúncio de algo ainda mais azul e estrelado que estava por vir.

Para estar próximo à família da esposa, Procópio foi defender o Atlético de Lourdes, três anos depois. Não encontrou William, pois esse já estava na Toca da Raposa, sendo considerado um dos jogadores mais fortes fisicamente do Brasil.

Mas a chama daquela festa junina de 1960 ainda estava acesa e ela iluminaria o caminho traçado para aquela bela amizade. Na reta final da temporada de 1966, o mago Felício Brandi desceu a escadaria do prédio do Banco Nacional, no centro de Belo Horizonte, depois de acertar uma transação e anunciou: Procópio estava de volta ao Cruzeiro.

Em 9 de novembro daquele ano, no primeiro jogo das semifinais da Taça Brasil, exatamente contra o ex-Fluminense de Procópio, o time celeste vencia por 1 a 0. No Mineirão, 55.000 pessoas assistiam à estreia da dupla de cunhados William e Procópio na Academia Celeste.

Dias depois, voltaram a vencer o tricolor e se credenciaram ao impossível: derrotar o Santos, melhor time do mundo, na final. Suas amadas Mariam e Marlene sofreram, mas puderam vibrar no épico 6 a 2.

Já em São Paulo, 3 a 2 e o reinado de Pelé caiu diante do surpreendente e rápido Cruzeiro. Enquanto Tostão e Dirceu Lopes eram cercados por repórteres e Piazza se dirigia para erguer a Taça Brasil, os cunhados Procópio e William se abraçavam.

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