Cobrir o surfe in loco nos Jogos Olímpicos é ver o ouro de Ítalo... da TV

As posições nas tribunas de imprensa são limitadas a alguns veículos internacionais e, mesmo assim, não possuem a melhor das vistas

28/07/2021 04:00 / atualizado em 28/07/2021 09:34
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Muitos jornalistas tiveram que assistir à final do surfe pela TV
foto: João Vitor Marques/EM/D. A Press

Muitos jornalistas tiveram que assistir à final do surfe pela TV



Longe, em meio ao mar escuro e sob o céu cinza da Tsurigasaki Surfing Beach, Ítalo Ferreira fazia história ao surfar rumo à medalha de ouro. E nós, os privilegiados jornalistas com acesso às competições na única Olimpíada sem público da história, víamos tudo... na televisão.

Sair de Tóquio e chegar ao local de competição do surfe é quase uma saga em dias tão corridos de Olimpíada. Do hotel à praia - localizada em Ichinomiya, na prefeitura de Chiba -, foram mais de duas horas de táxi. O custo? Cerca de R$ 1,6 mil, segundo a conversão atual. Esse tipo de transporte é considerado de luxo por aqui. Por sorte, os valores são pagos por um voucher disponibilizado pela organização dos Jogos.

Eram raros os espaços na tribuna de imprensa, ao ar livre, com vista para o mar. Pior: os assentos em posições nada estratégicas para acompanhar as finais da modalidade estreante na Olimpíada estavam reservados a alguns veículos internacionais. Os demais tinham duas opções: ficar na praia sem uma clara visão das águas ou acompanhar tudo da sala de imprensa. Optamos pela segunda alternativa.

De lá, nós, jornalistas de vários lugares do mundo, nos permitimos quebrar o protocolo - não o de COVID-19, mas da profissão - e torcer para os representantes dos nossos respectivos países. A cada aéreo de Ítalo, era possível ouvir gritos, ainda que tímidos, de quem se emocionaria com a primeira medalha de ouro brasileira no Japão.

Medina prometeu, mas não voltou para falar com a imprensa
foto: João Vitor Marques/EM/D. A Press

Medina prometeu, mas não voltou para falar com a imprensa



Só depois do fim da bateria e das entrevistas para a televisão é que nós partimos para a praia - não para acompanhar o evento, mas para entrevistar os protagonistas. Ou ao menos tentar. Após perder a medalha de bronze, Gabriel Medina passou pela zona mista sem falar com os jornalistas. Ele explicou: "Vou beber água e já volto". Chateado com o resultado, não voltou.

Ítalo Ferreira, este sim, atendeu a imprensa. Na primeira rodada de perguntas - agendada para instantes depois da prova -, o potiguar só respondeu uma questão antes de ser arrastado pela organização para trocar de roupa e ir ao pódio. "Calma, vocês vão me ver ainda!", brincou o primeiro campeão olímpico do surfe.

"Falei para vocês que eu ia voltar", disse ele no retorno, após o pódio, para a segunda de três rodadas de conversa com os repórteres - a última foi uma entrevista coletiva na sala de imprensa. Foi quando falou, se emocionou e exibiu a bela medalha dourada conquistada minutos antes.

Depois da emoção, era a hora não de acompanhar outra modalidade, mas de voltar para as nossas mesas e terminar o trabalho. Depois, duas horas de ônibus de Ichinomiya até Tóquio para, aí sim, descansar (e assistir a outros esportes, mas também da TV).

O jornalista esportivo sai da quadra de vôlei nos últimos pontos do quinto set de uma decisão do vôlei, não vê o ippon nos últimos segundos da disputa por medalha no judô e não consegue presenciar a história sendo feita no surfe. Mas tudo vale a pena.

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