Emanuel comenta venda da Itatiaia, fase dos clubes e faz crítica política

Comunicador não se arrepende da negociação da emissora com Rubens Menin e relembrou seu início no rádio

26/08/2021 14:51 / atualizado em 27/08/2021 08:46
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Emanuel se despediu oficialmente do rádio no dia 30 de julho de 2021
foto: Renato Weil/EM/D.A Press

Emanuel se despediu oficialmente do rádio no dia 30 de julho de 2021

Quase um mês depois de se despedir da Rádio Itatiaia, o jornalista Emanuel Carneiro conversou com o Superesportes, nesta quarta-feira, por telefone, e disse que não se arrepende de ter vendido a emissora: "Tudo tem um princípio, um meio e um fim", resumiu. O comunicador ainda analisou os momentos de AméricaAtlético Cruzeiro e fez uma crítica aos políticos do estado. "Os grandes nomes políticos de Minas Gerais não foram substituídos. Você vê senador de Roraima, do Acre, com todo respeito, com muito mais presença na mídia do que qualquer deputado ou senador de Minas", destacou.

Fundada em 1952, a Itatiaia sempre teve no comando a família Carneiro. Emanuel assumiu a presidência da rádio em 1994, depois da morte de Januário Carneiro, seu irmão e fundador da rádio. Em maio deste ano, o empresário Rubens Menin, dono de conglomerado que incluiu a MRV Engenharia, a CNN Brasil, o Banco Inter e a Log Commercial Properties, comprou a emissora e o comando passou para Diogo Gonçalves. 

Emanuel Carneiro dirigiu a rádio durante 27 anos e comentou uma das maiores críticas feitas à emissora: jornalistas que viram políticos e continuam trabalhando na rádio. "Por exemplo, o João Vitor Xavier é deputado e faz programa de esporte. Ele faz um programa como repórter, não como político. A Itatiaia nunca colocou restrição da pessoa se candidatar. A rádio tem gente que é PT, tem gente que é Bolsonaro, tem gente que é Aécio. Eu sempre contratei os funcionários jornalistas, nunca nos preocupamos com clube que torcem, em quem votam. A rádio não pode torcer na política ou no esporte, sempre tem que ter um cuidado muito grande em preservar a credibilidade".

Carneiro ainda relembrou a criação do programa Turma do Bate-Bola, que estreou em 1966. "Foi uma novidade para a época. Antes, os programas de esportes das rádios eram noticiários lidos por dois locutores. E a gente veio com uma ideia de programa mais conversado, o repórter chegava e contava o que aconteceu no treino, era um programa bem leve, bem solto, com um pouco de irreverência".

Antes de deixar a rádio, Emanuel Carneiro, de 78 anos, recebeu homenagem da nova direção. Agora, ele dá nome ao estúdio onde os programas são apresentados ao vivo. O prédio que abriga a empresa de comunicação passou a se chamar Januário Carneiro. A redação tem o nome de Osvaldo Faria, comentarista morto em 2000.



Confira a entrevista na íntegra


Superesportes - Como foi a venda da rádio? Há algum arrependimento? 

Emanuel Carneiro: "Entrei para a Itatiaia aos 13 anos de idade e trabalhei durante 65 anos na rádio. A Itatiaia vai completar 70 anos em janeiro do ano que vem. E tudo tem um princípio, um meio e um fim. Ela foi fundada por meu irmão, Januário Carneiro, trabalhamos juntos e fui o seu sucessor. E a meta foi cumprida, a rádio se tornou respeitada, foi muito aceita pela população. Surgiu uma conversa que depois virou proposta, falei com minha família, com as pessoas que me cercam. Pensei também numa pessoa que pudesse pegar o bastão, que tivesse carinho e cuidado com a rádio. Acho que com o Rubens Menin a rádio está em boas mãos".

Superesportes - Alguns funcionários da rádio foram demitidos nos últimos meses. Como o senhor viu as mudanças feitas?

Emanuel Carneiro: "A estrutura, a base, ela foi toda ela mantida. A Itatiaia tem pilares fortes, que são jornalismo e esporte. A grande maioria permanece lá, narradores, repórteres, comentaristas. A Itatiaia vive um momento muito bom, uma aceitação muito grande, grande qualidade técnica e quadro de funcionários".

Superesportes - Como a Itatiaia virou a grande emissora que é hoje?

Emanuel Carneiro: "Quando a Itatiaia chegou ao rádio mineiro, em 1952, o rádio tinha formato de programa de auditório, novelas, uma grande estrutura. A Itatiaia entrou com proposta diferente, cobertura esportiva, reportagem. Esse início e os valores da rádio foram desenvolvidos por Januário Carneiro, que era locutor esportivo e trabalhava como correspondente da rádio Continental, do Rio de Janeiro. A Itatiaia veio com repórter na rua e foi ganhando espaço com muita dificuldade no início, mas deu certo. A rádio sempre foi muito independente, nunca pertenceu a grupo politico, a igreja, e sempre viveu da sua atividade. Ela nunca teve lado no esporte e na política, sempre foi imparcial e isso foi um dos motivos para o seu sucesso".

Superesportes - Por que o programa Turma do Bate-Bola se tornou uma referência no rádio?

Emanuel Carneiro: "O programa veio com uma novidade para a época. Antes, os programas de esportes das rádios eram noticiários lidos por dois locutores. E a gente veio com uma ideia de programa mais conversado, o repórter chegava e contava o que aconteceu no treino, era um programa bem leve, bem solto, com um pouco de irreverência. Ele foi marcando presença com equipe muito grande de repórteres e aproveitando a audiência do esporte da Itatiaia. Fiz tudo com muito carinho, com muito orgulho, a resposta do público foi a audiência".

Superesportes -  Como o senhor viu o jornalista Leonardo Figueiredo assumir o programa que o senhor apresentou a vida toda? 

Emanuel Carneiro: "Ele já era o comentarista do programa, conhece bem a estrutura, não criou uma novidade, o programa permanece com a mesma linha".

Superesportes - Há uma critica de que a Itatiaia é uma rádio política, porque ela admite que seus funcionários se candidatem e continuem na empresa. Hoje, João Vitor Xavier e Mário Henrique são deputados estaduais e Álvaro Damião é vereador. No passado, houve outros.

Emanuel Carneiro: "Por exemplo, o João Vitor Xavier é deputado e faz programa de esporte. Ele faz um programa como repórter, não como político. A Itatiaia nunca colocou restrição da pessoa se candidatar. A rádio tem gente que é PT, tem gente que é Bolsonaro, tem gente que é Aécio. Eu sempre contratei os funcionários jornalistas, nunca nos preocupamos com clube que torcem, em quem votam. A rádio não pode torcer na política ou no esporte, sempre tem que ter um cuidado muito grande em preservar a credibilidade".

Superesportes - Nestes quase 70 anos, quem são os grandes nomes da Itatiaia? 

Emanuel Carneiro: "É muita gente boa que passou pela rádio, grandes locutores, grandes narradores, alguns já faleceram, todos acrescentaram muito e fizeram a rádio ser o que ela é. É muita gente, tem um que está no ar ainda que é o José Lino, tem também o Acir Antão. Não temos mais o Osvaldo Faria, que morreu, o Dirceu Pereira também, o Willy Gonser, que foi a voz dos jogos do Atlético por tanto tempo, o Januário Carneiro, que foi quem criou tudo isso..."

Superesportes - O senhor também participou da cobertura política no rádio...

Emanuel Carneiro: "A gente teve algumas dificuldades, nós passamos por planos econômicos, Plano Collor, Plano Bresser, muita coisa aconteceu no país e nós ficamos assim, isentos e conseguimos ultrapassar essa fase. Foram inúmeras dificuldades, coisa que é difícil imaginar como inflação de 80%, a gente sobreviveu. A rádio lutou sempre contra as dificuldades, e ela sempre foi independente. Hoje, a gente está vivendo dias de muita briga política, muita acusação, o Brasil não está vivendo uma época tranquila, tomara que isso passe, que o Brasil encontre o seu caminho, principalmente Belo Horizonte, que empobreceu. Minas perdeu muita relevância, e a gente está torcendo para que a história volte a acontecer em Minas Gerais, a história está acontecendo em outros espaços. Estava lendo no jornal sobre a verba para o metrô, há quanto tempo a gente não ouve esta promessa? A cidade está vivendo uma expectativa de melhora, mas há dificuldade econômica muito grande. Nos últimos cinco anos, foram cinco anos de pagamento parcelado para os funcionários públicos do governo do estado. Se não pagar, não tem como cobrar, não funciona, você tem que cumprir as coisas que promete, isso é um atraso. O Zema agora conseguiu regularizar. Quando alguém fala mal de Minas, eu não gosto, mas como nasci e vivo aqui, me sinto no direito de fazer uma crítica com a forma pela qual Minas Gerais perdeu espaço. Os grandes nomes políticos do estado não foram substituídos. Você vendo senador de Roraima, do Acre, com todo respeito, com muito mais presença na mídia do que qualquer deputado ou senador de Minas Gerais, para ser justo vejo o Rodrigo Pacheco, que é presidente do senado, mas ainda assim é diferente. As coisas estão caminhando mal em Minas Gerais".

Superesportes - O senhor acha que faltam bons políticos ao estado?

Emanuel Carneiro: "Os grandes nomes da política mineira não foram substituídos. Hoje, Minas Gerais não tem representatividade no governo, não temos grandes mineiros em postos importantes. Não sei, para mim está estranho. Minas Gerais é a terra dos políticos, da liberdade, a terra de fazer e acontecer".

Superesportes -  Tem alguma história interessante sobre política?

Emanuel Carneiro: "Tem uma história que ocorreu em 1982. Houve uma disputa para o governo de Minas Gerais entre Eliseu Resende e Tancredo Neves. A Itatiaia fazia um tipo de apuração e a Globo outro. Então, fomos para o ar depois da eleição, com voto impresso, dificuldade de apurar os votos, que demoraram dias, semanas para sair o resultado final. A Itatiaia começou a dar que o Tancredo Neves estava à frente na disputa. A Globo dava que era o Eliseu Resende quem estava ganhando. A gente ficou preocupado com o passar do tempo, com receio de perder credibilidade. Durante uma madrugada, paramos, refizemos a apuração jornalística e concluímos que estávamos certos. Veio pressão de todo lado, pressão da equipe do Eliseu Resende, que não se conformava. Resumo da ópera: a Itatiaia estava certa, Tancredo Neves ganhou a eleição. Isso impactou positivamente na credibilidade da rádio".

Superesportes - Quais os grandes jogadores de Atlético e Cruzeiro o senhor viu jogar?

Emanuel Carneiro: "Eu vi grandes jogadores, tive a sorte de ver o Pelé no auge, Garrincha, jogadores que marcaram a história do futebol mundial. Em Minas, temos dois incontestáveis: o Reinaldo, no Atlético, e o Tostão, no Cruzeiro, fora outros grandes nomes. O Tostão e o Reinaldo são e serão inesquecíveis. Vivíamos aquela fase maravilhosa do Mineiro, com 100 mil pessoas, não tinha briga, isso dá saudade, e não é ser saudosista. Hoje, é tudo muito limitado, feito de uma forma diferente".

Superesportes - Como o senhor vê os momentos de Atlético, Cruzeiro e América?

Emanuel Carneiro: O estádio é uma realidade do Atlético. O clube levantou recursos, vendendo uma parte do shopping, e quem está ajudando a tocar o projeto é quem comprou a Itatiaia. A dívida aumentou muito, mas o Atlético pode ter o retorno com a venda de jogadores, conquistando títulos. A situação mais difícil é a do Cruzeiro, que deu azar de cair para a segunda divisão. Pela grandeza do Cruzeiro, o clube tem que sair desta situação rapidamente, porque ele tem uma torcida enorme, tem uma coleção de títulos e está com uma dificuldade de jogar a segunda divisão. E isso não é bom para o futebol mineiro. Em relação ao América, a gente espera que não caia novamente, que não fique caindo e subindo. Vamos ver. Ficaremos na torcida pelo futebol mineiro". 

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