Atlético

CAMPEÃO DO GELO

Ex-Atlético relembra título de 'Campeão do Gelo', que completa 70 anos

Vavá fala das aventuras e dificuldades vividas pela equipe do Atlético no torneio europeu de 1950, imortalizado no hino do clube

postado em 18/12/2020 11:35 / atualizado em 18/12/2020 11:53

(Foto: Ivan Drummond / EM DA PRESS)

Uma aventura aos 19 anos. Hoje, aos 89, Walter José Pereira, o Vavá, ainda carrega aquela viagem dos anos 1950 na memória e no coração. O Atlético se tornaria o primeiro time profissional de Minas – e um dos primeiros do Brasil – a excursionar pela Europa, com jogos na Alemanha, Áustria e França. E a campanha no inverno europeu, repleta de histórias rocambolescas e precariedade (mas também encantamento), acabou batizada pela crônica esportiva e popularizada como “Campeão do Gelo”. Terminou com os jogadores recebidos em festa na segunda quinzena de dezembro em Belo Horizonte.
 
Vavá é o único remanescente daquela equipe. Aliás, a história começou, segundo ele, por conta do interesse dos alemães, em especial, no aprimoramento de seu futebol. A tão decantada arte sul-americana, de jogadores brasileiros, argentinos e uruguaios, já existia e o fato de o Brasil sediar a Copa do Mundo, aguçou, ainda mais, o interesse europeu. E por esse motivo que surgiu o convite para o Atlético viajar à Europa.
  
Uma comissão de alemães, comandada pelo então jornalista, empresário e dirigente do Hamburgo, Eld Kaltenecker, veio para a América do Sul dois meses antes da Copa do Mundo. Segundo Vavá, com objetivo de aprimorar a modalidade na Alemanha. “O interesse não era só o futebol brasileiro, pois eles foram também à Argentina e ao Uruguai, mas encontraram no nosso país uma melhor organização do esporte. O objetivo era iniciar um intercâmbio, o que posteriormente se confirmou.”
 
Por que esse interesse? Vavá diz que esse grupo considerava o futebol europeu muito incipiente. No Brasil, o interesse inicial era o eixo Rio-São Paulo. “E por que o Atlético foi o escolhido? Observaram Palmeiras e Corinthians. Era a opção inicial. No Rio, Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo. Mas um jornalista, Canor Simões Coelho, que era o embaixador do futebol mineiro junto à extinta CBD (Confederação Brasileira de Futebol), sugeriu que viessem a Belo Horizonte. Indicou o Atlético. Eles vieram e viram um time bom, com jogadores de nível. E que sempre endureceu jogos contra equipes de Rio e São Paulo. E escolheram nosso time.” 
 
O projeto dos alemães não se baseava apenas em uma equipe. Depois do Galo, viajaram para lá São Paulo e Bangu. “O Atlético abriu as portas para o futebol brasileiro na Europa”, afirma Vavá, um dos 19 'heróis do gelo'. A assinatura do contrato para a excursão ocorreu em 14 de julho de 1950, exatamente dois dias antes da final entre Brasil e Uruguai pela Copa do Mundo, no Maracanã, com surpreendente vitória uruguaia.

A dura viagem e muitas histórias


No fim de outubro, o Galo seguiria viagem, numa rota que durou mais de dois dias, de Belo Horizonte a Munique, onde ocorreria o primeiro jogo. BH-Rio-Recife-Dakar-Lisboa-Zurique-Frankfurt-Munique era o roteiro.
 
Vavá avalia que, por ser jovem, não sentiu o peso das quase 29 horas no ar, mas hoje qualifica como uma verdadeira aventura. “Saímos de BH para o Rio. Esse voo foi à tarde. Mas havia um detalhe que hoje seria considerado um absurdo. Jogamos contra o Cruzeiro na véspera. Ganhamos por 2 a 1. Estávamos cansados. Mas estávamos indo para a Europa, jogar lá. Não havia nada mais inspirador.”
 
No dia seguinte, depois do café no Rio, a ida para o Aeroporto de Santos Dumont. “Entramos num avião da Scandinavian Airline System. Era um quadrimotor. Seria a nossa casa nos dois dias seguintes. Embarcamos para Recife. Lá, paramos para almoçar e depois voltamos ao avião”. Dali para Dakar.
 
“O calor era insuportável. Jamais havíamos sentido algo assim, perto daquilo. Devia estar uns 40 graus. O Oswaldo, que era um gozador, tentou conversar com algumas pessoas, e depois disse: 'Eles são mais inteligentes que a gente, pois falam francês'. Foi gargalhada geral”.
 
 
(Foto: Arquivo / EM DA PRESS)
 
 
De Dakar para Lisboa. Cansados? Nada. “Era uma farra. Nem sentimos”. Da capital de Portugal para Zurique, na Suíça. Um passeio pelas lojas do aeroporto e logo um incidente. “O pessoal começou a pegar pacotes de balas aos montes, coisa que não tinha no Brasil, e punha nas sacolas. Os funcionários perceberam e, quando fomos sair, cada um com um saquinho apenas para pagar, veio uma surpresa. Um funcionário disse que ia dar uma cortesia e o presente foram as balas”.
 
E de Zurique para Frankfurt, na Alemanha, e dali para Munique. A alegria de chegar contrastou com o medo, o frio. “Não tínhamos levado blusas de frio para enfrentar aquilo tudo. Era muito frio. Tinha neve, coisa que a gente nunca tinha visto, só ouvido falar e visto em revista. Mas lá estávamos nós, na neve. O que fazer? O jeito foi comprar roupas. Blusas, luvas, gorros, camisa de manga comprida, estola, camisetas de malha para vestir por baixo das camisas. Foi essa a solução. Nem passamos direito no hotel. Deixamos a bagagem e fomos para uma loja”, relembra Vavá.

Começam os jogos


No dia seguinte à chegada a Munique, em 1º de novembro, o primeiro jogo. O adversário, Munique 1860. Vavá conta que o time sentiu o frio. “Ganhávamos por 4 a 1 e eles marcaram dois no segundo tempo. A gente parecia duro dentro de campo. Mas, enfim, ganhamos por 4 a 3, uma bela carta de apresentação”. A segunda partida, três dias depois. O adversário era mais forte, o Hamburgo. Goleada alvinegra. “Foi um de nossos melhores jogos. Ganhamos por 4 a 0. Goleada. Demos um show de bola. Não demos qualquer chance a eles. Dominamos do início ao fim”.
 
 
(Foto: Arquivo / EM DA PRESS)
 
Mas se houve uma folga do primeiro para o segundo jogo, para o terceiro, não. Um dia depois, a viagem a Bremen, onde o time chegou na hora do almoço e foi direto para o estádio, onde enfrentaria o Werden Bremen. O resultado, a primeira derrota: 3 a 1. “Era um domingo. Jogamos contra o Hamburgo no sábado. O jogo tinha sido desgastante. Corremos muito. Acordamos cedo para viajar. O time estava cansado. Ainda houve um outro problema, pois tinha nevado. O campo virou um verdadeiro lamaçal. Kafunga chegou a ficar preso no barro num dos gols”, descreve Vavá.
 
Em meio à viagem, nos jantares, havia discursos formais de dirigentes, traduzidos pela então campeã brasileira de lançamento de dardos, Teodora Breickport, que seguira com a delegação. Faltava alegria, segundo Vavá. O goleiro Kafunga mudaria aquilo tudo. “Ele chamou a tradutora e disse a ela apenas para repetir 'A Alemanha é o melhor país do mundo'. Virou o orador da excursão. Era aplaudido efusivamente”.
 
O Galo só voltaria a campo em 12 de novembro, em Gelsenkirchen, contra o Schalke 04. “Foi bom, pois deu pra treinar e passear. Foi como recarregar as baterias”, conta Vavá. O resultado, 3 a 1 para o Atlético. Nova folga, agora de três dias. Mas outra maratona esperava pelos jogadores. “O jogo seria em Viena, na Áustria. Fomos de trem. Havia um vagão só para o Atlético. Era pra ser uma viagem tranquila, mas acabou virando um martírio”, conta Vavá.
 
Os dois goleiros, Kafunga e Mão de Onça, resolveram dar uma volta pelo trem. “Houve uma parada e desengataram um vagão, justamente onde os dois estavam. Quando chegamos a Viena, cadê Kafunga e Mão de Onça?”. Horas e horas de espera, e nada. “Não tínhamos goleiro. Seria um vexame. Na hora de entrar em campo, os dois apareceram esbaforidos, colocaram o uniforme”. O resultado, porém, foi negativo: 3 a 0 para os austríacos.
 
O sexto jogo, dia 20 de novembro, contra o desconhecido Sarrebrück, numa região entre a França e a Alemanha. Segundo Vavá, uma mistura de jogadores alemães, austríacos e franceses: 2 a 0 para o Atlético. Dali para Bruxelas, na Bélgica. O adversário, o forte Anderlecht. Pela primeira vez, um jogo à noite na excursão. Um detalhe chamou a atenção de Vavá, o centroavante adversário. “Era caolho. Ficava fustigando o Kafunga. Juca era esquentadinho e numa bola alta, ele foi com um pé na bola e outro na cara do sujeito. O rival caiu apagado, teve de ir para o hospital”. No placar, triunfo por 2 a 1.
 
O oitavo jogo leva o Atlético de volta à Alemanha, para Braunschweig, contra o Eintracht. Vitória por 3 a 1. Ali, os jogadores, segundo Vavá, já sentiam saudade de casa. O sétimo compromisso, contra a Seleção de Luxemburgo, em 5 de dezembro: 3 a 3. “O time já estava cansado”, conta.
 
O Atlético viaja então para Paris. Seria o último jogo, ainda que Eld Kaltenecker quisesse estender a excursão, mas se desentenderia com a diretoria atleticana pelas condições adversas de viagem, com comida escassa, quartos sem aquecimento e falta de acerto financeiro. “Chegamos e fomos para o hotel. O Ricardo Diez (técnico) era cheio de precauções. Reuniu todos e disparou: 'Vou avisar uma vez só. Essa é uma cidade muito perigosa. Não quero que saiam sozinho e nem sem avisar. Tenho de saber onde estão indo'”.
 
O jogo era contra o Stade de Francais (o hoje Paris Saint Germain). Lá ocorreria uma situação dramática no 2 a 1 para o Galo. “Estava muito frio e o Barbatana teve hipotermia. Desmaiou em campo. Teve de ser levado para o hospital. A gente jogando e sem saber o que tinha acontecido com ele. Foi preciso colocá-lo numa banheira de água quente para recobrar os sentidos”.
 
Se dependesse de Kaltenecker, o Atlético ainda jogaria na Inglaterra (Arsenal) e Itália (Milan). “A gente queria voltar. Fizemos uma espécie de greve. Dissemos que não jogaríamos mais”. O grupo venceu, mas só viabilizou o retorno com apoio do governo de Minas, que pagou as passagens de volta, e apoio da embaixada brasileira em Paris.
 
O elenco teve de ser dividido. Foi chegando aos poucos, se concentrando no Rio de Janeiro, até que, em 18 de dezembro, todo o grupo chegou a Belo Horizonte. Desembarcou na Pampulha com direito a festa e desfile em caminhão do Corpo de Bombeiros. “A gente não tinha a dimensão do significado da excursão. O jornal dizia que os 'campeões do gelo' estavam voltando. Saímos do aeroporto e a Avenida Antônio Carlos estava lotada. Gente de um lado e do outro. Fomos até o Palácio da Liberdade. Fomos recebidos pelo governador Milton Campos. Aquilo foi o máximo, ainda mais pra mim, que tinha apenas 19 anos”.
 
Mas a maratona não acabava ali. Dois dias depois, o time já estava novamente treinando para a fase final do Campeonato Mineiro de 1950. No dia 31 de dezembro, jogo com o América. O Galo ganhou por 6 a 2. Vavá fez três gols. Em 7 de janeiro de 1951, derrota para o Villa Nova, 3 a 1, mas bastava vencer o Sete de Setembro para levantar o troféu. E uma goleada por 8 a 2 selou o bicampeonato.


A CAMPANHA DO GELO

10 jogos

6 vitórias

2 empates

2 derrotas


TODOS OS JOGOS

Munique 1860 3 x 4 Atlético
Gols: Lucas (2), Lauro e Vaguinho
Público: 30 mil

Hamburgo SV 0 x 4 Atlético
Gols: Lucas, Nívio (2) e Alvinho
Público: 20 mil

Werden Bremen 3 x 1 Atlético
Gol: Lucas
Público: 26 mil

Schalke 04 1 x 3 Atlético
Gols: Vaguinho (2) e Lucas
Público: 30 mil

Rapid Viena 3 x 0 Atlético
Púbico: 60 mil

Sarrebrück 0 x 2 Atlético
Gols: Nívio (2)
Público: 16 mil

Anderlecht 1 x 2 Atlético
Gols: Vaguinho e Alvinho
Público: 35 mil

Eintracht Braunschweig 3 x 3 Atlético
Gols: Vaguinho, Alvinho e Murilinho
Público: 30 mil

Union Luxembourg 3 x 3 Atlético
Gols: Vaguinho, Lauro e Nívio
Público: 1.800

Stade Français 1 x 2 Atlético
Gols: Nívio e Lucas
Público: 40 mil


O TIME DO ATLÉTICO DE 1950

GOLEIROS
Kafunga
Mão de Onça

DEFENSORES
Moreno
Afonso
Oswaldo
Juca
Vicente Perez

MEIO-CAMPISTAS
Zé do Monte
Barbatana
Márcio
Haroldo

ATACANTES
Lucas Miranda
Lauro
Zezinho
Alvinho
Nívio
Vavá
Murilinho
Vaguinho

TÉCNICO
Ricardo Diez