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'Vamos deixar muito melhor do que encontramos', destaca vice do Atlético

Em entrevista, José Murilo Procópio falou sobre finanças e casos jurídicos, opinou sobre possível venda do Diamond Mall e disse acreditar em ano vencedor

30/01/2022 06:00 / atualizado em 30/01/2022 12:19
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José Murilo Procópio valorizou trabalho feito pelo Galo nos bastidores
foto: Bruno Sousa/Atlético

José Murilo Procópio valorizou trabalho feito pelo Galo nos bastidores

O Atlético teve em 2021 o maior ano de sua história. Dentro de campo, resultados expressivos e títulos. Fora de campo, sanou dívidas, resolveu problemas jurídicos e melhorou as finanças. A expectativa é acabar com todas as pendências financeiras em até cinco anos, plano feito pelo órgão colegiado, formado pelo presidente, Sérgio Batista Coelho, o vice, José Murilo Procópio, e os 4 R's (mecenas que apoiam a gestão alvinegra), Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador.

Menos badalado do sexteto, José Murilo Procópio se mostra feliz com o trabalho feito no primeiro ano do grupo no Atlético. Ele afirma que está no clube mais como um colaborador e substituto eventual de Sérgio Coelho na presidência, mas também atua como consultor em assuntos jurídicos.

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Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas/Superesportes, Procópio se mostrou favorável à venda do percentual restante ao Atlético do Diamond Mall, relatou vitórias jurídicas recentes que reduziram dívidas, relatou a expectativa para a nova temporada e afirmou: "Vamos deixar muito melhor do que encontramos, não tenho dúvida nenhuma disso".

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Veja abaixo a entrevista completa


Estado de Minas/Superesportes: Logo no primeiro ano da gestão, foram campeões do Brasileirão e da Copa do Brasil. Qual foi a sensação?

José Murilo Procópio: Eu fui convidado no final de 2020 para participar dessa gestão. Já havia participado do Atlético em outras ocasiões, presidente do conselho de ética, estive na gestão do Ricardo Guimarães como vice-presidente jurídico, no início dos anos 2000, uma época muito difícil. Criamos um condomínio de credores, para dar ao Atlético uma ressuscitada, a situação era muito difícil. Fiquei um tempo longe do Atlético, mas sempre participando como conselheiro grande-benemérito que sou, mas fui convidado por um grupo de amigos abnegados que é o Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador, além do Sérgio Coelho, para integrar o grupo. Nós somos amigos, sem interesses pessoais no Atlético. Foi uma forma que encontramos de estarmos juntos e trabalhando pelo Atlético. Aceitei a vice-presidência. Estatutariamente, minha função é substituir o presidente em eventuais ausências. O Atlético vive com um passivo muito grande, desproporcional a suas possibilidades, e entrei nessa área para contribuir com soluções para os litígios, apesar de não ter sido nomeado, para ficar na parte de consultoria e estratégias. Fizemos um ano de muita unidade. Tivemos uma eleição com chapa única. Fizemos um ano de gestão, conquistas. Só aconteceu, porque encaramos o clube com muita seriedade.

Estado de Minas/Superesportes: A ideia logo no primeiro ano era iniciar uma redução das dívidas onerosas, cerca de R$ 500 milhões. Vocês conseguiram vários acordos para diminuir esse valor. O valor da dívida diminuiu?

José Murilo Procópio: Os valores atualizados da dívida serão divulgados em nosso balanço financeiro. Mas fizemos muitas coisas no último ano. Nos acertamos com a família do Ricardo Guimarães, conseguimos uma economia de R$ 70 milhões. Fizemos acordos com vários jogadores, como Carlos César, Adilson, Elias, Robinho, Patric, Maicon Bolt... com o Bolt, por exemplo, era cobrado cerca de R$ 24 milhões que transformamos em R$ 7,5 milhões. Isso onera muito o clube. Qualquer coisa que entrava, a gente contestava para diminuir. E tem outras que poderíamos fazer, mas não temos a segurança de saber se, contabilmente, é esse o valor da dívida. Às vezes devemos, mas não tanto, e não concordamos com algumas coisas, não aceitamos o que as outras partes cobram. Aí fazemos os estudos para saber o que é certo e o que é errado.

Estado de Minas/Superesportes: Foram feitos outros acordos?

José Murilo Procópio: Ainda teve acordos de outras dívidas, como o Avaí, por exemplo, que baixamos em quase R$ 1 milhão. Recentemente, fizemos um acordo com o Giuliano Bertolucci, que cobrava 16,46 milhões e baixamos no acordo para R$ 10 milhões. A dívida com a WRV era de R$ 64 milhões e fechamos em R$ 45 milhões...

Estado de Minas/Superesportes: Recentemente, se falou em bloqueio de premiação de título do Atlético a pedido do empresário André Cury, que cobra comissões de transferências dos últimos anos. A torcida deve se preocupar com essas cobranças?

José Murilo Procópio: Não existe nenhuma chance de bloqueio no Atlético. Já nos acertamos com o Bertolucci. Agora temos essa pendência com o André Cury, que sempre aparece com essas situações de bloqueio. O Atlético tem um limite, acertamos dentro do que temos documentalmente. Ele alega que tem outros documentos. Ele propõe ações. Para discutir a dívida, temos que dar alguma garantia. Ele pede o bloqueio, mas a gente oferece o seguro garantia. É uma maneira que tem dele expor o Atlético. Falam do bloqueio de dinheiro, mas passam dez dias e já não tem mais nada. Nossa premiação pelos títulos, por exemplo, recebemos integralmente da CBF. Parece que é um quadro quando se joga assim na imprensa, mas é totalmente diferente.

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Estado de Minas/Superesportes: O Atlético planeja findar as dívidas em até cinco anos. Acham que vão conseguir cumprir esse prazo? 

José Murilo Procópio: Nós temos as coisas muito bem controladas. O Rafael Menin dá uma boa cobertura muito grande na questão dos fluxos de caixa. Estamos em dificuldades? Sim. Mas precisamos de um prazo maior para resolver isso. Não vamos resolver isso neste ano, nem até o fim da nossa gestão, em 2023. Mas vamos deixar muito melhor do que encontramos, não tenho dúvida nenhuma disso. Estamos dentro de um planejamento. Planejamos sanar as dívidas em cinco anos. Acredito que vai demorar menos. Mas o Atlético vai caminhar com suas próprias pernas.

Estado de Minas/Superesportes: Na atual gestão, o Atlético deixou alguma dívida para o futuro em relação a compra de jogadores?

José Murilo Procópio: O nosso prazo é até o fim de 2023. A gente contratou alguns jogadores de forma parcelada, mas com curto prazo de pagamento. Não estamos deixando nada para a próxima gestão. Entramos para ser um modelo de gestão. Por que vamos fazer o contrário do que estamos pregando? Trabalhamos com pessoas muito sérias, os 4 R's, que dão uma contribuição até na área de gestão. A coisa é feita com muita clareza. Não tem jogo de esconde-esconde. A gente está tentando fazer como tem que ser no futebol. No futebol, vivemos de emoções. Às vezes a gente contrata um jogador, se não dá certo manda embora. E as consequências daquilo? Temos que medir muito. Não podemos trazer uma gama enorme de jogadores. Hoje, perguntam quem o Atlético vai trazer. Mas estamos fazendo o maior esforço para manter esse elenco, que fez tanto sucesso. A gente só vai vender se tiver uma proposta irrecusável. É difícil o futebol, temos necessidade de vencer. Mexer no futebol com responsabilidade é complicado, mas eu confio muito nas pessoas que estão no Atlético hoje e todas as coisas são feitas com muita responsabilidade.

Estado de Minas/Superesportes: Qual a sua opinião da venda dos 49,9% do Diamond Mall? Acha que diminuir os juros de dívidas é melhor do que a arrecadação anual com o shopping ou prefere que o clube mantenha esse ativo?

José Murilo Procópio: No meu entender, acho que temos que caminhar para a venda do Diamond, porque temos que tirar dívidas malignas, dívidas com banco. As dívidas boas são com o Profut, que temos longo prazo para pagar, uma dívida com o Rubens Menin, que é saudável, porque ele declara que quer ser o último a receber, sem juros ou correção. Essa dívida vai permanecer por algum tempo, até quando a gente puder sair com as próprias mãos. Então essa venda do Diamond, que não é a atividade do Atlético, uma administração de shopping, acho que é válida, para que nós possamos usá-la na liquidação dessas dívidas malignas. O Atlético tem hoje, uma despesa de juros com essa dívida, de R$ 50 milhões ao ano. Com os R$ 350 milhões em mãos, você negocia essas dívidas, chega em um credo e oferece um valor para tentar pagar à vista. Se a gente tiver R$ 300 milhões em mão, vamos pagar uma dívida de R$ 400 milhões, por exemplo. O importante é reduzir a dívida. Patrimônio nós temos, mas o andar dessa dívida, temos que ter cuidado. Tenho experiência de 50 anos de experiência nessa área, tenho vivência em como resolver isso. É isso que estamos fazendo. Na minha cabeça, a venda dessa parte do Diamond é altamente salutar. Primeiro, porque não é uma atividade do Atlético. E, principalmente, porque ela vai servir para diminuirmos o passivo do Galo. Mas isso depende do Conselho Deliberativo, ele é soberano. A dívida de juros de serviço ao ano é de R$ 50 milhões. Então temos que chegar a uma melhor decisão para o Atlético.

Estado de Minas/Superespotes: Agora, falando um pouco do futebol, pode explicar a parte jurídica da rescisão com o Diego Costa? O clube informou que não teve nenhuma multa para o fim do contrato, mas pode detalhar melhor essa negociação?

José Murilo Procópio: O Diego Costa tinha um contrato, que se encerraria no fim do ano, com luvas parceladas até o fim do vínculo. O Atlético fez uma composição e fez um acerto com ele. Ele tinha valores a receber de premiação e tinha uma multa grande para acertar. Fizemos um acordo. Tivemos uma desoneração, onde está incluído impostos, salários, imagem, bônus e comissões, de R$ 23 milhões. A economia que fizemos por ele sair um ano antes do fim do contrato. Foi bom enquanto durou. Ter uma pessoa no grupo que não está satisfeita não fica legal. Liquidamos dessa forma esse acordo de rescisão.

Estado de Minas/Superesportes: E o caso Fred?

José Murilo Procópio: O Fred agora está numa fase de penhora. Todos os recursos possíveis e imagináveis que ele poderia fazer, não consegue mais. Essa dívida está, dia a dia, aumentando, porque tem correção, tem juros. Está numa fase de penhora de bens. É o caminho para se chegar lá. A cada dia muda o valor, mas está numa faixa de R$ 25 milhões.

Estado de Minas/Superesportes: Um jogador que o Atlético tenta a contratação é Pavón, do Boca Juniors, que foi denunciado em 2019 por abuso sexual. Juridicamente, o Atlético já estudou esse caso para saber se a contratação é mesmo viável?

José Murilo Procópio: Quando o Atlético vai fazer uma contratação, nós examinamos a situação de todos. Uma coisa é acusação, outra coisa é denúncia, outra coisa é existir processo. Se o Ministério Público faz uma denúncia contra você, tem um processo. Acusações podem até acontecer. O Atlético, quando contrata alguém, formaliza uma contratação, examina muito bem. Não virá ninguém que tem problemas de responsabilidade criminal. Nós não podemos contratar. Isso faz parte de um sistema de ética nosso. É feito uma análise. É uma norma nossa.

Estado de Minas/Superesportes: Qual a sua opinião sobre Toni Mohamed, novo técnico do Atlético? O que mais lhe agrada no novo comandante da equipe?

José Murilo Procópio: Eu fui apresentado pessoalmente a ele, um sujeito muito simpático, o ambiente está bom, ele brinca com um, com outro, um ambiente bem saudável. Isso é meio caminho andado. Ele está circulando bem, a turma brinca, chama de Toni, Turco... Nesse primeiro contato pessoal que tive com ele, está sendo uma novidade boa. Fui ver o jogo contra o Villa Nova, estive com ele também. É uma pessoa que pode dar certo. Quando o Atlético fez entrevistas com os diversos técnicos, foram enumeradas diversas premissas, e ele foi o que mais preencheu as premissas da diretoria. Alguns queriam trazer comissão técnica completa, sendo que já temos uma comissão técnica. Ele trouxe pouca gente, teve treinador que queria trazer nove. É uma negociação muito complexa. Como vamos tirar o Éder, o Victor, que são pessoas respeitadas e conhecem tudo dentro do CT, sabem reconhecer se tem alguém insatisfeito. É muito importante que eles sigam no clube. E o Toni aceitou vir com essa comissão técnica pequena e trabalhar ao lado de nossos profissionais. Entre várias outras premissas, como utilizar a base, conhecia o futebol sul-americano... foi o que mais nos atendeu. Teve treinador que queria vir, mas a gente tinha que pagar multa. Então, com o Toni, avançou da forma que a gente quis e fechamos essa negociação. Eu acho que vai dar certo no Atlético.

Estado de Minas/Superesportes: Para finalizar, quais os próximos desafios até o fim da gestão no Atlético?

José Murilo Procópio: A expectativa para esse ano é que a gente continue como vencedores. Ficamos em segundo lugar no ranking da IFFHS no último ano. Tivemos o quarto clube mais valioso do país. Pretendemos continuar nessa toada. É claro que o futebol tem imprevisibilidade, mas vamos trabalhar para continuar no topo, buscar mais um título brasileiro, tentar a Libertadores que escapou no ano passado. Tudo isso não aconteceu por acaso no ano passado. Teve o campo, naturalmente, mas também uma estrutura montada no sentido de fazer um clube de futebol com mando, com gestão da melhor qualidade. E quero ressaltar que sou um admirador do Sérgio Coelho como gestor, eu sou apenas um colaborador. Confio muito na gestão e liderança do presidente Sérgio Coelho para que a gente continue nesse caminho. 

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