Cruzeiro

FARRA DOS CARTÕES

Usando cartão do Cruzeiro, Wagner Pires gastou mais de R$ 75 mil com restaurantes, clínica de estética e até delivery de chopp

Reportagem faz parte de série que escancara uso desregrado dos cartões corporativos do Cruzeiro durante a última administração

postado em 23/04/2020 17:15 / atualizado em 24/04/2020 16:12

(Foto: Superesportes)
A fama de boêmio de Wagner Pires de Sá já é conhecida pela torcida. Volta e meia o ex-presidente do Cruzeiro aparece em vídeos, inclusive publicados pelo clube, aparentando embriaguez. O que a maioria dos torcedores ainda não tinha certeza é de que boa parte dessa festa foi bancada, entre janeiro de 2018 e dezembro de 2019, com o cartão corporativo do clube. 

Documentos obtidos pelo Superesportes revelam que, só em restaurantes e bares de Belo Horizonte, Pires de Sá gastou R$ 42.734 mil no período em que foi presidente do Cruzeiro. O local preferido, de acordo com as investigações, é o D’Artagnan, bistrô localizado no coração do Lourdes, na Região Centro-Sul da capital. Só lá, ele pagou R$ 13.133 com o cartão do clube.

O segundo colocado no ‘ranking’ é o Mudesto Butiquim, onde Wagner era visto com frequência, inclusive depois que a turbulência do Cruzeiro ganhou proporção nacional, com as denúncias reveladas pelo Fantástico, da TV Globo. Em maio de 2019, Polícia Civil e Ministério Público iniciaram investigações contra ele e outros membros de sua administração por suspeitas de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e falsificação de documentos.

No bar, que fica bem próximo ao bistrô, Wagner fez compras no valor total de R$ 3.580 com o cartão corporativo do Cruzeiro entre janeiro de 2018 e dezembro de 2019. Restaurante do Hotel Fasano (R$ 3.383), A Favorita (R$ 2.813) e Armazém Medeiros (R$ 2.194) completam o top 5 dos locais em que o ex-presidente não poupou dinheiro do clube.

Ainda completam a lista restaurantes requintados da capital, casos dos renomados Glouton, do chefe global Leo Paixão, em que Wagner gastou R$ 818 e o Vecchio Sogno, de Ivo Faria (R$ 926). A culinária japonesa também foi contemplada nas escolhas do ex-presidente: estão na lista Kei Cozinha Japonesa (R$ 1.999)  e Udon Restaurante Japonês (R$441), dois dos principais restaurantes orientais de BH. 

(Foto: Instagram/Reprodução)
Fora de Belo Horizonte a farra com bares e restaurantes também não foi pequena. Wagner usou o cartão do Cruzeiro para pagar compras que totalizaram R$ 22.417 no período em que foi presidente do clube. Formam o pódio dos gastos o Restaurante Bar 14 Bis, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro (R$ 3.663), NB Steak, em Porto Alegre (R$ 2.763) e Sanduka, também na capital fluminense (R$ 1.349).

Quando não gastava com restaurantes em BH ou pelo mundo, Wagner usava o cartão corporativo do Cruzeiro para pedir chopp express. As planilhas analisadas por auditorias internas e externas mostram que o ex-presidente pagou R$ 2.002 em solicitações da bebida por delivery.  

Clínica de estética


Outra compra feita por Wagner e faturada pelo cartão de crédito corporativo chama muita atenção. O ex-presidente pagou R$ 9.943 à uma clínica cuja razão social leva o nome ‘Belvedere’, do bairro da Região Sul de Belo Horizonte. Ele também utilizou as verbas do Cruzeiro para comprar meias de compressão (R$ 355) e para pagar exames no laboratório Hermes Pardini (R$ 150).

Outro lado

(Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)

Depois de não atender aos telefonemas da reportagem na quarta e na quinta-feira, Wagner Pires de Sá enviou nota na manhã desta sexta (24) para se posicionar sobre a série "Farra dos cartões'. Na resposta (leia a íntegra abaixo), ele mencionou os R$ 75.0940,00 gastos em restaurantes de BH (R$ 42.734) e de fora da capital (R$ 22.417) na clínica de estética (R$ 9.943) e com delivery de chopp (2.002,00). O ex-presidente, contudo, ignorou outros dispêndios, que totalizaram R$ 183.895,00 em dois anos.

"O Cartão de Crédito Corporativo foi e é utilizado universalmente pelas empresas brasileiras e internacionais para cobrir eventuais despesas de seus dirigentes enquanto personalidades públicas; obrigados a frequentar e participar de encontros com empresários, autoridades públicas, chefes e diretores de entidades similares e congêneres; obrigados a comparecer em eventos festivos ou não; às vezes obrigados a presentear seus anfitriões promover encontros que indubitavelmente geram despesas.

Numa entidade como o Cruzeiro Esporte Clube, que não remunera seus dirigentes eleitos, criou-se, anteriormente por outras gestões passadas, com muita propriedade, a figura do Cartão de Crédito Corporativo, para exatamente cobrir tais despesas.

Ora, nas reportagens atuais publicadas pela imprensa, consta que em dois anos, janeiro de 2018 a dezembro de 2019, foram gastos através do cartão da presidência a importância de R$75.094,00, o que corresponde a um gasto médio de R$3.125,00 mensais.

Não vejo aí nenhum absurdo financeiro, mas sim, a eminente intenção de determinadas pessoas, que mais uma vez, fazendo uso de métodos baixos e rasteiros buscam denegrir a minha imagem pessoal com nítido intuito político e a clarividente intenção de cobrir com uma cortina de fumaça os reais problemas pelos quais vem perpassando o Cruzeiro por total incompetência em solucioná-los.

Estas atitudes não atingem somente a minha pessoa, mas a instituição maior que é o Cruzeiro Esporte Clube. Foi devido a estes ataques rasteiros, expondo documentos de interesse apenas internos da instituição, com viés de vingança e inveja cuja contenta, caso houvesse, certamente poderia ser facilmente resolvida em casa, que levou o clube a situação extrema de rebaixamento para a Série B.

O problema maior do Cruzeiro são suas dívidas acumuladas através de diversos anos passados sobrevivendo neste sistema inviável do futebol brasileiro. Portanto, mais uma vez, não me usem como “bode expiatório”.

Investigações


Não há, no Estatuto ou no código de conduta do clube - os dois únicos documentos disponíveis no site oficial -, quaisquer artigos ou parágrafos que tratem exclusivamente da ‘regulação’ do cartão de crédito corporativo. Em geral, no entanto, ele deveria ser utilizado especialmente por supervisores de futebol e por responsáveis pelo departamento financeiro para pagamentos relativos ao dia a dia do clube.  

As faturas dos cartões de crédito de Wagner já estão com a Kroll, empresa de investigação corporativa contratada pelo Cruzeiro para auditar cada passo da antiga administração do clube.

Internamente, o Cruzeiro acredita que poderá cobrar dos ex-dirigentes reembolsos pelos valores que foram gastos por meio dos cartões corporativos. Esse, no entanto, é um processo burocrático e sem prazo para desfecho. 

Esta reportagem é a segunda de uma série que revela, de forma ainda mais profunda, como os ex-dirigentes do Cruzeiro utilizaram de forma desregrada as receitas do clube, que atravessa a maior crise financeira/institucional de sua história e disputará, em 2020, aos 99 anos, sua primeira Série B do Campeonato Brasileiro.

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