Cruzeiro

ENTREVISTA

Ricardo Rocha aposta em liderança para ajudar Luxemburgo a erguer Cruzeiro

Conhecido como Xerife nos tempos de jogador pela garra e liderança, tetracampeão Ricardo Rocha, 58, será diretor técnico do Cruzeiro na 'era Luxemburgo'

postado em 04/08/2021 19:00 / atualizado em 04/08/2021 20:59

(Foto: Arquivo pessoal)
 

A chegada do ex-zagueiro Ricardo Rocha como diretor técnico do Cruzeiro é uma das apostas do treinador Vanderlei Luxemburgo para construir uma relação positiva com o elenco celeste e promover uma reação do time na Série B do Campeonato Brasileiro. Líder por onde passou e 'bom de vestiário', o Xerife, de 58 anos, terá a missão de motivar e aconselhar os atletas, apagar eventuais 'incêndios' e criar uma atmosfera agradável no dia a dia da Toca da Raposa II. 

"Da minha parte o torcedor do Cruzeiro vai ter ouvir verdades. Não vou enrolar. O que eu falar, respeitando a hierarquia, será a realidade", disse.

Em conversa com o Superesportes, o tetracampeão do mundo com a Seleção Brasileira em 1994 contou bastidores do convite de Luxemburgo e mostrou confiança em uma reação do Cruzeiro na Segundona. No momento, a equipe é a 18ª colocada, com apenas 13 pontos, e luta contra o rebaixamento à Série C. O acesso depende de um aproveitamento próximo de 70% nas 23 rodadas restantes.

Ricardo Rocha confirmou que o Cruzeiro conseguiu recursos para pagar salários atrasados do elenco e regularizar a folha. Na visão do novo diretor, esse pleito de Luxemburgo à cúpula celeste e a parceiros do clube será fundamental para dar uma injeção de ânimo nos jogadores. "Vamos trabalhar muito, falar pouco, e passar confiança aos jogadores".

Em meio e longo prazo, Rocha aposta na base para ver o Cruzeiro se reequilibrar financeiramente e voltar a ser competitivo no cenário nacional.

"O Flamengo ganhou quase R$ 300 milhões recentemente com venda de jovens jogadores. Quem está salvando o São Paulo é a base. O Cruzeiro precisa revelar jogadores de qualidade. Inclusive, o Cruzeiro sempre exportou muitos talentos para o mundo. Não vejo outro caminho", opinou.

Leia, a seguir, a entrevista com Ricardo Rocha:


Como foi sua reação ao receber o convite do Vanderlei Luxemburgo?

Foi tudo muito rápido. Ele me ligou e tive que resolver muito rápido. Estou no Recife, mas moro no Rio e tenho coisas particulares a resolver aqui. Não podia me apresentar imediatamente. Chego no domingo, vou para a Toca da Raposa II e começo a trabalhar na segunda-feira cedo.

Como você jamais foi dirigido pelo Vanderlei Luxemburgo, como nasceu essa relação profissional entre vocês?

Eu moro no Rio e me encontro muito com o Luxemburgo. Já tomamos muitos cafés juntos e construímos uma amizade. Ele sempre disse que queria trabalhar comigo, pelas coisas que falo com ele, pelo conhecimento que tenho do futebol. 

Eu lamento muito não ter trabalhado com ele no Real Madrid, em 2005. Eu joguei naquele clube (de 1991 a 1993), conhecia bem o vestiário, as pessoas, e poderia ter sido muito útil para o Vanderlei naquela passagem.

Nunca fui dirigido por ele, é verdade, mas eu sempre quis trabalhar com ele e tenho certeza que vou ajudar muito no Cruzeiro. Era um desejo dele essa parceria desde que começamos a nos encontrar mais e conversar sobre futebol.

O Cruzeiro vive um momento dramático financeiramente, está ameaçado de rebaixamento à Série C e tem uma pequena chance de reagir a ponto de voltar à Série A em 2022. Como vê esse desafio de ajudar o Vanderlei Luxemburgo nesse trabalho na Toca?

O momento é terrível, mas o futebol é feito de desafios. Vamos trabalhar muito, falar pouco, passar confiança aos jogadores. Não adianta ficar falando em contratação, porque o Cruzeiro foi punido e nem pode contratar. Nós vamos com o elenco que temos e acho que o Cruzeiro tem sim um elenco capaz de sair dessa. Pelo elenco, o Cruzeiro não era para estar nessa situação. Vamos motivá-los, cumprir tudo que foi combinado com eles e vamos pra cima erguer o Cruzeiro.

Como será a sua atuação no Cruzeiro? Seria mais ou menos o papel que o Tinga exerceu no clube em 2017, sendo um interlocutor entre elenco, comissão e diretoria?

É tudo isso sim. Vou fazer esse meio-campo. Vou sentar com a direção, buscar uma relação boa entre diretoria e os jogadores. Tenho muito conhecimento de campo e fora dele também. Tenho 58 anos e sei que posso ser muito útil. O Vanderlei me quer mais solto, quer eu fique sempre em contato com os jogadores, que eu passe uma mensagem boa, passe a minha experiência. Nosso papel agora é ajudar o Cruzeiro ao máximo.

(Foto: Arquivo pessoal)


Você também atuará na parte de mercado e de negociações?

Não, isso não. Ficou acertado que isso segue com o Rodrigo Pastana. Já bati até um papo com ele. Claro que estaremos juntos, sempre conversando, orientando, respeitando a hierarquia. Estarei muito dentro de campo. O Cruzeiro precisa de uma ajuda de todos, inclusive muito grande da torcida. Eu vou fazer de tudo para tirar o Cruzeiro dessa situação.

Quando vê a situação atual do Cruzeiro, aparentemente sem perspectiva de acesso, sem perspectiva de sair dessa crise financeira, o que você tem de ideia para mudar o cenário?

Sou um cara apaixonado pela base. Pra mim, esse é o futuro dos clubes. O Flamengo ganhou quase R$ 300 milhões recentemente com venda de jovens jogadores. Quem está salvando o São Paulo é a base. O Cruzeiro precisa revelar jogadores de qualidade. Inclusive, o Cruzeiro sempre exportou muitos talentos para o mundo. Não vejo outro caminho. Precisamos ter uma base forte, revelar. São essas negociações que vão fazer o Cruzeiro se reerguer. O clube precisa ter essa identidade.

No São Paulo, em 2018, o seu papel como diretor técnico era parecido com o que exercerá agora no Cruzeiro?

No São Paulo o meu papel era ser o elo entre direção, o Raí, o presidente e os jogadores. No Cruzeiro será assim também. O Luxemburgo, como eu disse, quer me deixar à vontade. Já fui treinador no começo de carreira, no Santa Cruz, fui auxiliar do Renato Gaúcho no Fluminense e tenho uma experiência de campo muito grande. Sempre fui um líder e acho que vou ajudar muito. De futebol eu conheço e de vestiário também. Vai dar certo.

O Vanderlei Luxemburgo tem histórico de muitos títulos, mas é constantemente criticado por estar ultrapassado, superado no futebol. Acha que esse projeto, de levar o Cruzeiro à Série A, pode ser um desafio também para ele recuperar o prestígio no Brasil? O torcedor está muito descrente com o time.

O Luxemburgo foi campeão paulista com o Palmeiras em 2020 e quebrou um longo jejum. Muita se fala que o time não jogava um belo futebol, mas continuou ganhando com o treinador português (Abel Ferreira), mas ninguém nunca o comparou ao Flamengo, que tem um futebol mais vistoso. O time continuou ganhando. 

Muitos garotos que hoje estão no Palmeiras foram apostas do Luxemburgo. Ninguém fala nisso. Na época dele subiu muita gente por conhecimento que ele tem. E hoje estão aí, jogando, maduros. Mas foram revelados por ele. E hoje são titulares com o Abel.

O Vanderlei é o treinador brasileiro com mais títulos dentro do país, é um cara respeitado. Aí você diz, ah, mas ele muda muito de clube hoje, ganha menos. Mas quem ganha a carreira inteira? Treinador é igual a jogador. Tem hora que ganha muito, depois tem um intervalo. O Vanderlei foi campeão paulista em 2020, eu repito.

No futebol só se tem uma certeza: vitória. O resto é tudo mentira.

Quantos milhões o Palmeiras ganhou com a coragem do Vanderlei Luxemburgo de lançar vários jogadores naquele último trabalho? Na vida ninguém vai ganhar o tempo todo. 

Como será a sua postura com os jogadores? Eles estão com salários atrasados e têm um grande desafio pela frente.

Da minha parte o torcedor do Cruzeiro vai ter ouvir verdades. Não vou enrolar. O que eu falar, respeitando a hierarquia, será a realidade. Vejo declarações que não me entram, de jogador falando que o time está bem quando o time está mal. Eu não gosto disso. É melhor chegar, dizer que não está bem e tentar resolver. Fui jogador. Com jogador, você precisa estar em cima, cobrar, mas também motivar. Vou ajudar nesse sentido.

Você recebeu alguma informação de que os salários atrasados serão mesmo pagos e que os salários serão regularizados de agora em diante?

Pelo que soube, o Cruzeiro conseguiu essa verba. Era uma das exigências do Vanderlei acertar com os jogadores, receber em dia.

Agora, cumprindo tudo com eles, vamos ajudar muito. Todo mundo me conhece pela liderança. O Belletti já está lá no Cruzeiro, é meu amigo, é um cara sério. A gente vai apoiar muito o elenco.

Você é um líder, mas sempre apareceu na mídia como bom contador de histórias, um cara brincalhão, alegre. Na hora de cobrar essas coisas ficam de lado?

Em 1988, quando eu jogava no Sporting, em Portugal, eu aprendi uma coisa com o meu treinador Manuel José. Fui brincar com ele no treino, e ele me disse: 'Conhaque é conhaque, trabalho é trabalho'. Na hora de beber, a gente brinca, se diverte, mas na hora do trabalho a coisa é séria. Aprendi essa lição e carrego comigo. É assim que vai ser no Cruzeiro. Na hora de brincar, descontrair, vamos ser alegres. Na hora do trabalho tem cobrança. Mas eu quero que os jogadores se divirtam no trabalho, se sintam leves para executar o melhor.

Há alguns anos você atua como influenciador digital. Como fica essa carreira agora, diante do acerto com o Cruzeiro?

Conversei com a diretoria sobre isso. Foi de repente o convite do Vanderlei e do Cruzeiro.

Algumas coisas eu vou manter, mas a maioria vou interromper. Estando no Cruzeiro, algumas coisas ficam inviáveis. Tenho contratos comerciais que preciso cumprir, mas não é nada que comprometa dentro e fora de campo. Mas eu vou suspender muita coisa.

Essa história de influenciador digital começou há uns dois anos. Primeiro, com o meu canal no Youtube. Meu filho vai dar continuidade a esse projeto, porque ele trabalha com TV e rádio. Mas não posso continuar com o canal estando no Cruzeiro. Não é compatível.

Depois que eu vestir a camisa do Cruzeiro, esquece, é trabalho.

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