FIFA THE BEST

Brasil troca os pés pelas mãos

Goleiros são os únicos finalistas do país no "Oscar" do futebol. Em entrevista exclusiva, Julio Cesar, melhor da Europa em 2010, fala do sucesso da dupla Alisson e Ederson

postado em 22/09/2019 22:55 / atualizado em 22/09/2019 23:14

<i>(Foto: AFP / Oli SCARFF )</i>
Houve um tempo em que goleiro era considerado zero à esquerda no futebol brasileiro. A cerimônia do Fifa The Best, nesta segunda-feira, às 14h30 (de Brasília), no Teatro alla Scala, em Milão, na Itália, pode exaltar os humilhados pela segunda vez em 10 anos. O gaúcho Alisson (Liverpool) e o paulista Ederson (Manchester City) são os adversários do alemão Ter Stegen (Barcelona) na disputa pelo prêmio de número 1 do mundo na outrora desprezada posição.

A categoria melhor goleiro é recente no “Oscar” do futebol. O italiano Buffon conquistou a estatueta em 2017. O belga Courtois arrematou no ano passado. Em jejum na categoria mais importante há 12 anos, ou seja, desde a consagração de Kaká em 2007, e desfalcado da recordista Marta na premiação feminina, resta à pátria de chuteiras trocar os pés pelas mãos, vestir as luvas e torcer pelo titular e o reserva de Tite na Seleção.

Aos 26 anos, Alisson levou o Liverpool ao título da Champions League na temporada 2018/2019. No meio do ano, conquistou a Copa América e a Supercopa da Europa. Não seria exagero ele disputar o prêmio de melhor do mundo com o zagueiro e companheiro de time Virgil van Dijk, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Com a mesma idade de Alisson, Ederson conquistou a Premier League, a Copa da Inglaterra, a Copa da Liga Inglesa e a Supercopa da Inglaterra. Azarão, Ter Stegen deu a volta olímpica no Campeonato Espanhol. E só.

No mês passado, Alisson igualou feito de Julio Cesar ao ser eleito pela Uefa o melhor goleiro da Europa. O arqueiro aposentado foi o primeiro a conquistar a distinção em 2009/2010. Na época, brilhou na tríplice coroa da Inter: Champions League, Campeonato Italiano e Copa Itália. O evento da Uefa é uma prévia do Fifa The Best. Logo, o favoritismo é de Alisson.

Em entrevista exclusiva ao Correio, Julio Cesar exalta a revolução da escola brasileira. “Fico muito feliz com essa fase do Alisson e do ‘Ed’. De certa maneira, colaborei para isso com Dida, Taffarel e outros da minha geração, como Helton, Gomes, Doni, o próprio Diego Alves, que voltou a jogar no Brasil”, afirma. “É uma nata de goleiros que vem fazendo um trabalho maravilhoso nos últimos 10 anos. Hoje, o goleiro brasileiro tem um grandíssimo respeito.”

Julio Cesar recorda o preconceito sofrido pelos goleiros até pouco tempo. “Na minha época, se falava muito do camisa 10, do número 9, e do goleiro brasileiro falava-se pouco, era pouco respeitado. Essa mudança ajuda um pouco para que outros nomes concretizem o sonho de atuar fora do Brasil, aqui na Europa”, diz Julio Cesar, radicado em Portugal.

Titular da Seleção nas Copas do Mundo de 2010 e 2014 e segundo reserva em 2006, Julio Cesar trabalhou com Ederson no Benfica. Conhece de perto o trabalho do pupilo de Pep Guardiola. Porém, aposta no sucesso de Alisson no Fifa The Best. “A vitória coletiva (do Liverpool) abrilhanta o individual. Isso é normal. Que essa fase deles seja duradoura e que muitos clubes continuem apostando nos goleiros brasileiros aqui fora”, torce.

Contramão


Enquanto Alisson e Ederson driblaram o preconceito nacional e internacional, Ter Stegen representa uma escola consagrada. Em 2014, Neuer disputou o prêmio de melhor jogador do mundo com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Oliver Khan foi eleito o melhor da Copa 2002 antes mesmo de sofrer dois gols de Ronaldo “Fenômeno” na final. De 1999 a 2002, faturou quatro vezes consecutivas a estatueta de número 1 da Europa oferecida pela Uefa. Além de Neuer e de Khan, Sepp Maier mereceu a Luva de Ouro na Copa 1974.

Ederson e Ter Stegen se diferenciam de Alisson pela qualidade com a bola nos pés. Favorito ao prêmio, o titular de Tite tem evoluído no fundamento, mas ainda está aquém dos concorrentes. Apesar das indicações ao prêmio, os brasileiros iniciaram a temporada 2019/2020 dando sustos. Alisson falhou feio em um amistoso de pré-temporada contra o Lyon. Ederson errou na saída de gol, e o Peru balançou a rede na derrota da Seleção neste mês, em Los Angeles. O alemão Ter Stegen engoliu alguns frangos na temporada anterior, mas participará da festa.

Cannavaro


Depois de o surpreendente croata Luka Modric quebrar a série de 10 anos de alternância de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo como vencedor do prêmio de melhor do mundo da Fifa, chegamos ao dia em que o zagueiro Virgil van Dijk coloca o argentino e o português na constrangedora posição de zebras na eleição do prêmio de melhor do mundo.

O beque holandês pode repetir o feito do italiano Fabio Cannavaro, consagrado em 2006 ao levar a Itália ao tetra. Virgil van Dijk tem a favor o impressionante desempenho na conquista do hexa do Liverpool na Champions League. A conquista no prêmio da Uefa indica favoritismo.

Ausente na final passada, Cristiano Ronaldo volta apresentando como argumentos o título quase invicto da Juventus no Campeonato Italiano, e a conquista inédita da Liga das Nações, com Portugal, segundo título dele com a camisa da seleção lusitana. Isso sem contar as exibições de gala contra Atlético de Madrid e Ajax na fase de mata-mata.

Pentacampeão do prêmio ao lado de Cristiano Ronaldo, o argentino Lionel Messi foi artilheiro do Espanhol, da Champions League e conquistou La Liga, mas, outra vez, fracassou na tentativa de quebrar o jejum de 26 anos da Argentina sem título. Pode pesar a favor dele o fato de ter carregado o time nas costas e as impressionantes 22 assistências na temporada. O camisa 10 foi, simplesmente, o maior garçom da Europa em 2018/2019. Arco e flecha.

 

 

 

Análise da notícia

Eu vou lhe avisar
O Brasil tem amor e ódio por goleiros. É capaz de criar o Dia do Goleiro, celebrado em 26 de abril, mas também zoa os donos das traves. A música Goleiro, de Jorge Ben Jor, diz assim: “Eu vou lhe avisar/Goleiro não pode falhar/Não pode ficar com fome/Na hora de jogar/Senão, é um frango aqui, um frango ali/Um frango acolá. O país conseguiu condenar Barbosa 64 anos pelo vice na Copa 1950 e só o absolveu no fracasso da Seleção em casa no Mundial 2014. Taffarel deu respeito a essa posição, que terá dois finalistas, nesta segunda-feira, na Itália, terra de gênios como Dino Zoff, Gianluca Pagliuca, Gianluigi Buffon. Campeões da Champions League como titulares de Milan e Internazionale, Dida e Julio Cesar consolidaram o trabalho de Taffarel. A consagração de Alisson é barbada. Ederson seria uma aceitável surpresa. O alemão Ter Stegen, zebra. (MPL)

 

 


Finalistas

Masculino
» Melhor jogador
Virgil van Dijk (Liverpool – Holanda)
Lionel Messi (Barcelona – Argentina)
Cristiano Ronaldo (Juventus – Portugal)

» Melhor goleiro
Alisson (Liverpool – Brasil)
Ederson (Manchester City – Brasil)
Marc André ter Stegen (Barcelona – Alemanha)

» Melhor treinador
Pep Guardiola (Manchester City – Espanha)
Jurgen Klopp (Liverpool – Alemanha)
Mauricio Pochettino (Tottenham – Argentina)

» Puskás
Lionel Messi (Barcelona – Argentina)
Juan Fernando Quintero (River Plate – Colômbia)
Dániel Zsóri (Debrecen – Hungria)

Feminino
» Melhor jogadora
Lucy Bronze (Lyon – Inglaterra)
Alex Morgan (Orlando Pride – EUA)
Megan Rapinoe (Reign – EUA)

» Melhor goleira

Christiane Endler (PSG – França)
Hedvig Lindahl (Chelsea/Wolfsburg – Suécia)
Sari van Veenendaal (Arsenal/Atlético de Madrid – Holanda)

» Melhor treinador
Jill Ellis (Estados Unidos)
Phil Neville (Inglaterra)
Sarina Wiegman (Holanda)