Gustavo Nolasco

DA ARQUIBANCADA

Deus livre o Cruzeiro da Disneylândia

A partir de amanhã, vamos aos dois últimos jogos-treinos da Country Cup, que só servirão para ajustar a Academia Celeste para os grandes desafios

postado em 10/04/2019 08:00 / atualizado em 09/04/2019 17:42

<i>(Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)</i>
Como foi a sua primeira vez? Na minha, meu coração disparou só de pensar no sonho prestes a ser realizado. Pedi ao meu pai para me levar, pois ainda era novo para ir sozinho. Matuto do interior, tive medo, claro, pois não sabia o que me esperava. Eu tinha apenas 10 anos... Mas quando subi as escadas, comecei a ouvir os barulhos e vi a imagem pela qual sou tarado até hoje. De tal forma que nunca mais fui o mesmo depois daquele dia. 

Era 2 de fevereiro de 1987. Eu entrava no Mineirão pela primeira vez.

Sábado passado, pensei muito nesse dia quando ascendi pela milésima ocasião a escadaria que dá acesso às arquibancadas da hoje Toca da Raposa 3 e corri para ver o gigante de tapete verde e gente azul e branca.

Para todos os lados que olhava, via uma criança radiante, um casal de namorados abraçados, uma família inteira de mãos dadas. Vestiam o manto sagrado, roupa de ir à missa, como se diz lá em Mariana. Percebi nos rostos curiosos a felicidade de estarei pisando pela primeira vez num estádio de futebol.

A partida era apenas mais um jogo-treino contra um dos dois times da elite belorizontina. Não importou tanto o 3 a 0 sobre o América do Horto pela arcaica e fantasiosa Country Cup. O inesquecível da noite definitivamente não estava no gramado, mas sim no fato de milhares de pessoas terem a oportunidade de estrear no Mineirão.

No mundo das arenas, dos ingressos caros, dos torcedores transformados em meros cartões de crédito pelos clubes e da gourmetização do que deveria ser um espetáculo popular, a decisão da diretoria celeste de voltar a distribuir entradas gratuitas para crianças e mulheres foi magnífica.

Não é simplesmente jogar ingressos para o alto, transformando-os em troco de padaria ou tirinha picotada de jornal. No caso do Cruzeiro, é entender o momento de crise econômica do país, atender o perfil de sua torcida apaixonada e ser inteligente para proporcionar a todos a vivência democrática do estádio de futebol. Se para o prefeito de Belo Horizonte, “futebol não é coisa para pobre”, para nós cruzeirenses, ele é sim a festa do povo pobre e rico, do nosso Time do Povo. 

Tudo foi um memorável “esquenta” para a peleja de logo mais contra o Huracán, essa sim uma guerra. Uma noite para buscar mais três pontos e quiçá, garantir antecipadamente o primeiro lugar no grupo. Depois disso, é voltar a rodar o elenco, treinar e aproveitar que teremos na sequência dois jogos-treinos – que não valem nada de relevante - contra o outro clube da elite da capital. Como serão encarados como “vida ou morte” pelo traumatizado adversário, os testes devem ser dos bons para o Manobol.

A Country Cup é a Disneylândia do Atlético de Lourdes e da “aldeia”. O mundo da fantasia necessário para manter uma rivalidade que só existe na lembrança de quem viveu o futebol mineiro pré-década de 1990 e de quem precisa dessa fábula para criar notícias polêmicas. É onde a Turma do Sapatênis, assim como o Pateta de Walt Disney, vive seus episódios de alegria, e ao final, acredita na ilusão de ser um personagem importante na companhia de desenhos animados.

A partir de amanhã, vamos aos dois últimos jogos-treinos agendados da Country Cup e usar isso simplesmente para ajustar a nossa Academia Celeste para o que realmente interessa: a fase dos grandes da Libertadores, o início da busca pelo penta no Brasileirão e o tiro curto para o hepta da Copa do Brasil (que nesse caso, se vier, colocará fim a mais um 6 a 1). 

Guardemos nossos desejos para os feitos grandes. Deus nos livre de uma vida patética na Disneylândia.

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