Valdir Bigode vira treinador e, pelo aprendizado, curte o lado B do futebol

Ex-atacante do Atlético garante não ter pressa para subir na profissão

postado em 04/10/2011 17:20 / atualizado em 04/10/2011 18:17

ARQUIVO/ESTADO DE MINAS


A ascensão na carreira de técnico, para quem foi jogador, costuma ser facilitada, em relação aos chamados estudiosos. Mas o ex-artilheiro do Atlético, Valdir Bigode, demonstra muita tranquilidade e nenhuma pressa para alcançar o sucesso nos times de ponta.

Valdir, agora técnico, garante que a escalada para chegar nos melhores clubes deve ser feita aos poucos. Enquanto isso, o ex-centroavante curte o lado B do esporte.

“Estou tentando trabalhar. Ao mesmo tempo que vou trabalhando, vou aprendendo. É como se tivesse começando a carreira de jogador novamente. Já peguei o Campo Grande, da terceira divisão do Carioca, a ABI, de Itaboraí, e o São Pedro da Aldeia, aqui perto de Cabo Frio. Os três são da terceira divisão. Ao mesmo tempo que trabalho, eu tenho o aprendizado também”, afirma.


Nem mesmo estágios com treinadores que Valdir ainda mantém contato ainda são cogitados. “Quando você não conhece nada, é bom, primeiro, aprender por si só. Quando eu chegar em um clube, daqui a quatro ou cinco anos, vou fazer estágio. Vou ter a bagagem. Quando o treinador falar algo, já vou saber o que é. Fica mais fácil. As pessoas gostam primeiro de fazer estágio nos clubes. Primeiro, eu estou pegando uma malandragem de ser treinador, como que é, a experiência. Quando chegar em um clube, vou estar bem mais esperto. Não vou precisar ficar perguntando tudo. Estou começando bem devagar mesmo”, conta.

A carreira de técnico é comparada a de jogador, para Valdir. ”É como se eu fosse jogador. Tem a escolinha, infantil e júnior. Na escolinha, você pode ficar por uns três anos, mais um no infantil. Você vai para o juvenil e fica um ou dois anos. Ainda tem o júnior. São cerca de sete a oito anos para chegar no profissional. Hoje, até sobem mais rapidamente. Mas estou tranquilo, como se fosse jogar futebol. Estou aprendendo para fazer a coisa correta”.

Perfil traçado: brincalhão, mas trabalhador

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Boa praça, Valdir Bigode ainda acredita que tem muito para aprender na carreira de treinador. Mas, o seu perfil de trabalho já está determinado. “Eu vou trabalhar com três partes. Na primeira, serei amigo do jogador, brincalhão. Até porque, o futebol, acima de tudo, é alegria. Na hora do trabalho, deixo isso um pouco de lado. Serei um pouco mais sério. Mas, sempre com alegria. Depois que acabar o trabalho, volto para a primeira parte. No futebol você tem que ir conversando e trabalhando”.

Inspirações não faltam para o ex-atacante, que trabalhou com treinadores vitoriosos. “A maioria que eu trabalhei era brincandeira. Eram bons tanto no trabalho quanto na hora de ser amigo do jogador. Posso citar Carlos Alberto Torres, Emerson Leão, Jair Pereira, Nelsinho Baptista, Carlos Alberto Silva, Telê Santana, Joel Santana... Foram vários treinadores que me ensinaram muito. Claro que vou tentar por o que eu quero, mas vou me lembrar daquilo que aprendi com eles. Principalmente o lado de ser amigo do jogador. Isso influencia muito na hora de trabalhar”.

Coração alvinegro

O carioca Valdir Bigode aprendeu a gostar do Atlético durante a carreira de jogador. Em 1997 e 1998, ele foi ídolo da torcida.

“Eu fiz muitos gols, ganhei títulos, fui artilheiro. A torcida gostou muito de mim. Gostava tanto de Minas Gerais que fiz amigos em Belo Horizonte e em Itaúna também. Sempre estou com eles”, recorda.

A chegada ao Atlético foi facilitada pelo contato com o então companheiro de Benfica, Ronaldo Guiaro, ex-zagueiro alvinegro.

“Eu pertencia ao São Paulo e estava emprestado para o Benfica, que me compraria no final da temporada. Mas, acabaram não acertando o pagamento. O Atlético entrou no negócio e me comprou por R$ 3,5 milhões. Foi maravilhoso. O povo mineiro me recebeu muito bem. Fiz muitos amigos. Ainda volto para rever os amigos e passear. Foi muito bom. Se eu tivesse jogado o tempo todo da minha vida no Atlético, seria maravilhoso”, conta.

“O Ronaldo, que tinha jogado no Atlético, conversava com o empresário dele, soube que o clube buscava um atacante. Depois, ele me perguntou se eu jogaria lá e eu disse sim, claro. Até porque a minha família é mineira e eu jogaria, sem problema nenhum. A primeira coisa era falar com o São Paulo. Eu já tinha falado com eles que queria ser vendido e aconteceu. Essa transação para o Atlético, ninguém sabia. Foi muito rápido”, completa.

Em 2000 e 2001, Valdir retornou brevemente para o Galo. No total, foram 57 gols em 111 jogos. Para o ex-atacante, fica até difícil de escolher uma partida especial.

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“É difícil escolher algum, porque você sempre deixa algum para trás. Todos os jogos que fiz pelo Atlético foram maravilhosos. Em todos, me senti muito bem. Mas, teve um contra o Botafogo que fiz quatro gols. Ficou 5 a 5. Foi um grande jogo e não merecia ter um perdedor. Acho que o empate foi muito justo. Foi muito marcante”.

O camisa 7 também teve boas passagens por outros clubes. “Tive uma fase muito boa no São Paulo, no exterior, no Vasco da Gama. Todo o tempo que joguei no Vasco, foi fantástico, disputando artilharias. No Santos e no Botafogo, não ganhei títulos, mas são clubes maravilhosos”.

Uma análise do presente

Depois de Valdir Bigode, foram poucos atacantes que conseguiram encantar a torcida alvinegra de verdade. Guilherme, Diego Tardelli e Obina podem ser citados, além do parceiro Marques.

Hoje, André e Guilherme, investimentos altos de Alexandre Kalil, ainda lutam para dar o retorno ao clube. Valdir sai em defesa do setor ofensivo alvinegro.

“O jogador de ataque é muito dependente. É como uma criança. Tem que dar alguma coisa para eles comerem. Tem que ter um bom meio-campo, saída de bola, lançamento. O time do Atlético é bom, mas não se encaixou e desenvolveu. Por isso, tem as dificuldades para fazer gol. A situação do futebol mineiro não é boa e vai pesar em cima dos atacantes, que não vão conseguir fazer os gols”, comenta.