PAULO ISIDORO

Dono de escolinha, Paulo Isidoro recorda momentos no Galo e 'decepção' na Seleção

Com a camisa nº 8, ex-jogador se tornou uma das grandes referências da história do Atlético. Ele disputou a Copa de 82 pela Seleção e também defendeu o rival Cruzeiro

postado em 26/03/2013 07:03 / atualizado em 19/01/2015 18:28

Arquivo/EM/D.A Press


O ex-meio-campo Paulo Isidoro é um dos grandes ídolos da história do Atlético. Foram, ao todo, nove anos com a camisa alvinegra e a sensação de que melhores resultados poderiam ter sido conquistados – o Galo sempre chegava às fases finais das principais competições nacionais e internacionais, mas acabava tropeçando nos momentos mais decisivos. O jogador, no entanto, pôde vencer cinco Campeonatos Mineiros e colaborar com muitos passes e gols durante as décadas de 1970 e 80. Mesmo sendo atleticano declarado, o antigo camisa 8 também defendeu o arquirrival Cruzeiro durante duas temporadas.

Paulo Isidoro encerrou a carreira em 1993 e hoje, quase 20 anos depois, dedica boa parte do tempo a uma escolinha de futebol que treina em seu próprio sítio, localizado no bairro Nova Pampulha, em Belo Horizonte. O ex-camisa 8 do Atlético conversou com a reportagem do Superesportes e relembrou os momentos de glória com a camisa alvinegra e as boas passagens por outras equipes e Seleção Brasileira.

“Cheguei ao Atlético com mais de 18 anos. Se fosse no futebol hoje, com essa idade, eu não teria muita chance. Mas na época tive a oportunidade de fazer os testes e passar na categoria juvenil (hoje júnior). Fui bem e me promoveram ao profissional. Me emprestaram para o Nacional do Amazonas por um tempo, pois o Atlético tinha uma parceria com eles. Quando voltei para Belo Horizonte, aí que a minha trajetória tornou-se uma maravilha”, relembrou o ex-jogador.

“Naturalmente o jogador sai sempre das famílias humildes e ganhando pouco. Na época eu comecei a ganhar mil cruzeiros por mês, era um bom dinheiro para mim. Minha família me dava boas condições, mas não proporcional à vida de um jogador de futebol como eu consegui na época. Era só o jogador saber fazer a economia certa que não tinha problema. Comecei a economizar bastante e graças a Deus foi maravilhoso”, completou Paulo Isidoro, referindo-se ao seu primeiro salário como profissional do Atlético.

O status de ídolo e a dor do vice-campeonato brasileiro invicto em 1977

Paulo Isidoro era um jogador versátil, pois atuava tanto no meio quanto no ataque. Quando começou a dar os primeiros passos no futebol pelas categorias de base dos clubes amadores de Matozinhos, sua terra natal, o então ponta-de-lança era orientado por todos os técnicos a jogar fácil e fazer o simples. Foi desta forma que ele se tornou ídolo do Atlético: privilegiando o espírito coletivo. Ao todo foram 398 partidas e 98 gols com a camisa preta e branca.

Um fato, porém, chateia o ex-jogador. O Atlético fez uma campanha impecável no Campeonato Brasileiro de 1977 e foi a única equipe, além do Botafogo, a terminar a competição sem perder nenhuma partida sequer. Em 21 jogos, foram 17 vitórias, quatro empates e 10 pontos de vantagem sobre o São Paulo. O Tricolor Paulista, no entanto, contou com a “loteria” dos pênaltis e faturou o título em pleno Mineirão com mais de 102 mil alvinegros.

Arquivo/EM/D.A Press
Para Paulo Isidoro, a comissão técnica do Atlético liderada por Barbatana não soube fazer as melhores escolhas. O então meio-campo ficou no banco de reservas na decisão e só entrou durante o decorrer da partida.

“Nós tivemos aquele time que estava a 10 pontos à frente do São Paulo. Acho que aquela perda aconteceu muito pela nossa comissão técnica, que não soube fazer um bom planejamento. Eu questionei o Barbatana sobre os motivos de ele me ter deixado no banco, só que ele estava com muita moral e acabou prevalecendo a opinião dele. Me lembro que na época ele me disse que se eu ‘tomasse esse tipo de atitude, não ia jogar em time nenhum’. Então, na minha opinião, o grande culpado da perda daquele título foi o nosso treinador Barbatana”, relembrou.

Paulo Isidoro relembrou o fato de Rubens Minelli, então técnico do São Paulo, ter ficado bastante “aliviado” com sua ausência do time titular. Ele reafirmou que se tivesse começado jogando naquela decisão, a história do Atlético poderia ter sido totalmente diferente, já que o próprio atravessava uma excelente fase na carreira.

Arquivo/EM/D.A Press
“Me lembro que quando o Minelli soube que eu não ia jogar, ele ficou bastante aliviado. Ele sabia que eu estava em grande fase e era um dos que comandavam o meio-campo do Atlético. Eu tinha uma característica muito forte de velocidade e atravessava um bom momento. Houve vaidade do Barbatana de mostrar que era ele quem comandava e liderava a equipe. O time perdeu muito: primeiro com a ausência do Reinaldo, que era uma peça importantíssima. Depois, com a minha saída, o time também sentiu bastante”, comentou.

Apesar da decepção de 1977, Paulo Isidoro fez parte de um time que era temido por muitos. Essa geração atleticana também contava com o goleiro João Leite; o lateral-direito Alves; o zagueiro Wantuir; os meio-campos Toninho Cerezo e Ângelo; e o atacante Reinaldo, considerado o maior jogador da história do clube. Foi nesse período que o Galo conseguiu barrar o ímpeto do Cruzeiro no Campeonato Mineiro. Os arquirrivais também apresentavam uma excelente equipe, mas o Alvinegro conquistou os Campeonatos Mineiros de 1976, 1978 e 1979.

A decepção na Copa do Mundo de 1982

Em 1980, Paulo Isidoro deixou o Atlético e foi jogar pelo Grêmio. No Tricolor Gaúcho, ele foi campeão brasileiro em 1981 e faturou a Bola de Prata, prêmio oferecido pela Revista Placar ao craque da competição. Foram dele os gols da vitória gremista sobre o São Paulo, por 2 a 1, pelo jogo de ida da final do Brasileiro daquele ano. As boas atuações do meio-campo o credenciaram para disputar a Copa do Mundo de 1982 pela Seleção Brasileira, comandada na época por Telê Santana.

A campanha na Espanha foi arrasadora nas primeiras partidas. No Grupo F, o Brasil bateu a forte União Soviética por 2 a 1 e atropelou Escócia, 4 a 1, e Nova Zelândia, 4 a 0. O selecionado de Telê Santana contava com vários craques, entre eles Zico, Sócrates, Júnior, Éder Aleixo e Falcão. Apesar de ter sido inscrito com a camisa de número 7, Paulo Isidoro era reserva, mas costumava ser utilizado no decorrer dos jogos.

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Com gols de Zico, Serginho Chulapa e Júnior, o Brasil passou fácil pela Argentina – que descontou com Díaz – por 3 a 1 e foi enfrentar a Itália no jogo decisivo da segunda fase. A partida decisiva, porém, reservou um destino cruel: derrota por 3 a 2 e o sentimento de fracasso por parte da maioria dos jogadores.

“Vou te falar com toda a honestidade, pois estava no vestiário. Eu senti que todos os jogadores estavam confiantes que nós ganharíamos da Itália. Se eu falar com você que estava com medo da Itália era mentira. Nós sabíamos que a nossa Seleção era melhor do que eles. Talvez possa ter sido o excesso de confiança que nos fez perder. Todos os jogadores, inclusive eu, estavam pensando era na final”, recordou.

Com três gols, o atacante da Itália Paolo Rossi foi o algoz brasileiro. Sócrates e Falcão encheram os corações verdes e amarelos de esperança, porém não foi suficiente. Paulo Isidoro, que entrou na partida no lugar de Serginho Chulapa, colaborou muito na marcação e atuou bem durante o tempo em que esteve em campo. A derrota, no entanto, não sai da cabeça do ex-jogador. “Nossa seleção era boa demais. Todos sempre lembram. Depois daquela derrota, eu fiquei muito desanimado. Até hoje tem o gosto amargo, quem me dera se eu pudesse voltar ao tempo e o Brasil ganhasse”, completou.

Com a camisa da Seleção Brasileira, Paulo Isidoro disputou 41 jogos e marcou quatro gols.

A segunda passagem pelo Galo e o período no arquirrival Cruzeiro

Paulo Isidoro deixou o Grêmio no final de 1982 para jogar pelo Santos. No clube da Vila Belmiro, ele sagrou-se campeão paulista em 1984. No ano seguinte, o ex-jogador retornou ao Atlético e foi Campeão Mineiro em duas oportunidades: 1985 e 1986. Passou também por Guarani, XV de Jaú (SP) e finalmente Cruzeiro, grande rival do time alvinegro.
Blog Atlético x Cruzeiro

Aos 36 anos, em 1989, Paulo Isidoro chegou ao Cruzeiro e conquistou o Campeonato Mineiro no ano seguinte. “Eu tinha medo de decepcionar os cruzeirenses. Na realidade eu estava pensando que não tinha muito a dar ao Cruzeiro. Quando meu contrato venceu, eu tive a proposta da diretoria para renovar, mas não quis. Poderia ter renovado, pois era tão bem aceito por todos”, relembrou.

“Se tivesse uma coisa que eu faria, se pudesse voltar atrás, era renovar o contrato com o Cruzeiro. Todos me tratavam muito bem e eu poderia ter continuado lá por mais uns dois anos. Pensando hoje, acho que poderia dar mais ao clube e conquistar coisas melhores”, disse. Apesar de ser declarado atleticano, Paulo Isidoro demonstra grande respeito quando fala do Cruzeiro. “Sou profissional. Mesmo sendo atleticano, quando joguei pelo Cruzeiro, quem pagava o meu salário era o Cruzeiro. Então eu devia obrigação ao clube e tinha de dar o meu máximo para retribuir. Não me interessa se eu sou atleticano e vou jogar contra o Atlético, eu tinha que lutar pelo Cruzeiro”, completou o ex-atleta.

O sonho não realizado de defender o América


Apesar de ter defendido Atlético e Cruzeiro, Paulo Isidoro deixou de realizar um grande sonho em sua carreira: jogar pelo América. Ele explicou os motivos que o impediram de atuar pelo Coelho no fim de sua carreira.

“Eu tinha um sonho de jogador no América. Era aquele desejo de falar: ‘Eu joguei nos três grandes clubes na capital’. Tive o convite e na época conversei com o Salum, mas o acerto não aconteceu. Eu não queria contrato longo, mas sim um período mais curto. Eu tinha medo de chegar e não dar conta de corresponder as expectativas dos torcedores. Queria fazer desta forma: caso não desse certo, cada um seguia para o seu lado”, contou.

A vida pós-término da carreira de jogador de futebol

Carlos Cruz
Paulo Isidoro encerrou a carreira em 1993, aos 40 anos, quando defendeu a camisa do Valeriodoce, de Itabira, em quatro partidas. Após pendurar as chuteiras, o ex-jogador passou a administrar os imóveis que adquiriu com o dinheiro do futebol e também chegou a abrir uma empresa no ramo de construção civil. Atualmente, ele é dono de uma escolinha de futebol que visa revelar jogadores para os grandes clubes de Belo Horizonte

“Fiz um curso de técnico e montei um centro de formação de atletas. Era o meu sonho de estar revelando jogadores, dando oportunidades e estar incentivando a seguir essa carreira. Claro, sem esquecer que todos os meninos têm que estar matriculados e estudando nas escolas regularmente”, comentou.

O atual professor Paulo Isidoro utiliza o campo do próprio sítio, localizado no bairro Nova Pampulha, em Belo Horizonte, para treinar os seus cerca de 100 alunos. “Eu tenho a escolinha em que os alunos pagam mensalidade e o projeto com as crianças carentes. O importante de tudo isso é dar chance para todos, sem exigir muito que eles sejam um Neymar ou um Ronaldinho Gaúcho, mas cobrando que eles freqüentem a escola e tenham disciplina em todas as áreas”, frisou.
Divulgação/Cruzeiro

O filho de Paulo Isidoro, Fabrício, também é jogador de futebol. Ele tem os direitos econômicos vinculados ao Cruzeiro, mas está emprestado ao Sertãozinho, que disputa a Série A3 do Campeonato Paulista, até maio deste ano. O atleta tem contrato com o time celeste até 2015.

“Ele é lateral-direito, mas está jogando no Sertãozinho como meio. Ele prefere jogar como segundo volante, mais ou menos nas características que eu jogava. Ele me ligou feliz, dizendo que o período na Série A3 do Campeonato Paulista está sendo bastante positivo. Se o time for bem e ele quiser continuar, vai depender do que ele sentir. Se ele disputasse uma Série B já seria um começo muito bom”, finalizou Paulo Isidoro.

No dia 3 de julho de 2013, Paulo Isidoro completará 60 anos de idade.

Paulo Isidoro de Jesus


Data de nascimento:
3 de julho de 1953 (59 anos)
Naturalidade:
Matozinhos (MG)
Posição:
meio-campo

Clubes:
Atlético (1973 a 1974; 1975 a 1979; e 1985 a 1987), Nacional-AM (1974), Grêmio (1980 a 1982), Santos (1983 a 1985), Guarani (1987 a 1988), XV de Jaú-SP (1989); Cruzeiro (1989 a 1990), Internacional de Limeira-SP (1991 e 1992) e Valeriodoce-MG (1992)

Jogos pelo Atlético:
398
Gols:
98

Seleção Brasileira


Disputou a Copa do Mundo de 1982
Números:
41 jogos e 4 gols

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