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Auxiliar no Corinthians sub-20, Coelho sonha ser técnico e não se arrepende de lance com Kerlon

Ex-lateral falou sobre sua rotina, a relação com as filhas, que residem em BH e o carinho que até hoje recebe dos atleticanos em suas visitas à capital mineira

postado em 05/05/2015 08:00 / atualizado em 05/05/2015 17:04

Renato Weil/EM/D.A Press
 
Um caminho natural que muitos ex-jogadores acabam percorrendo no mundo futebol é a transição para a função de treinador. Quem está se preparando para seguir essa trajetória é o ex-lateral Dyego Coelho, que defendeu o Atlético em duas oportunidades, de 2007 a 2008 e 2009 a 2010. Personagem do Por Onde Anda desta semana, o hoje auxiliar técnico do sub-20 do Corinthians contou ao Superesportes sobre a sua rotina, a relação com as filhas, que residem em Belo Horizonte e o carinho que até hoje recebe dos atleticanos em suas visitas à capital mineira. Também recordou seus primeiros passos no Timão, clube que o formou, os grandes momentos no Galo e a repercussão do lance com Kerlon ‘Foquinha’, em clássico diante do Cruzeiro.
 
Divulgação/Corinthians
Aos 32 anos, Coelho começa sua rotina durante a semana percorrendo cerca de 60 km para desempenhar sua nova função no futebol. O ex-lateral vai de Atibaia, município de São Paulo onde reside, ao Parque São Jorge, no Tatuapé, região leste da capital paulista. Nas categorias de base do Corinthians, onde se formou como atleta, o paulistano atua ao lado do treinador Caco Espinoza. Os dois já haviam trabalhado juntos no Flamengo de Guarulhos no início deste ano, mas, com a saída Osmar Loss do comando do sub-20 para a equipe principal do Bragantino, a dupla assumiu o Timão.
 
“Comecei na captação de atletas no Corinthians, na parceria com o Flamengo de Guarulhos, que disputava a Série A3 do Campeonato Paulista. Fui auxiliar lá, com o Caco Espinoza. Agora, assumimos o sub-20 do Timão e estamos lidando com a garotada. É um novo ritmo, e realmente digo que estou muito feliz nessa nova fase da carreira. Minha relação com os jovens atletas é muito boa, pois a língua do futebol é única. Por ter jogado, eles me escutam mais, têm uma aceitação maior no que eu falo. Não está sendo nada fácil, mas é um desafio muito bacana”, disse o ex-lateral, que foi anunciado como auxiliar do clube do Parque São Jorge em abril.
 
O trabalho como auxiliar é visto por Coelho como uma etapa que precisa ser vivenciada para que ele possa realizar o sonho de se tornar treinador. Para chegar lá, o ex-jogador se inspira em dois técnicos que já concluíram como êxito a transição de dentro do gramado para o comando do banco de reservas: Tite e Levir Culpi. Curiosamente, o auxiliar foi treinado por cada um quando atuou pelos atuais clubes dos treinadores, Corinthians (2004 e 2005) e Atlético (2007), respectivamente.
 
Reprodução/Arquivo Pessoal
“Meu trabalho é para ser treinador, estudo hoje para isso. Quero me aprimorar, já joguei e isso foi importante, mas sei que preciso estudar para saber realmente o que é o futebol. Quero ser um grande treinador, não quero ser mais um. Têm dois treinadores com que trabalhei e aprendi muito. Um é o Tite, sem dúvida nenhuma. Me espelho bastante nele. O outro é o Levir, que foi o cara que me fez jogar o melhor ano da minha carreira”.
 
Os frutos da sua passagem pelo Atlético são colhidos nas suas visitas quinzenais a Belo Horizonte. É na capital que suas filhas, Sophia, Valentina e Antonella, de 10, seis e cinco anos, moram. As garotas nasceram do relacionamento com sua ex-mulher, Mariana Rossetti. Das três meninas apenas a caçula é mineira, mas isso não impediu que a do meio, nascida na Itália, também se tornasse atleticana – a mais velha é paulista e corintiana. Ao lado delas, Coelho se descobriu um ‘paulistano falso’. Nessa convivência, encontrou o apreço pelas atividades mais simples do cotidiano. Na companhia das filhas, ele cozinha, frequenta o clube e assiste aos jogos do Atlético.
 
“Praticamente de 15 em 15 dias estou em BH. Se entro em um táxi e o motorista é atleticano, ele não me deixa pagar a corrida (risos). Por isso que digo que tenho dois clubes no coração. O Corinthians me deu tudo, até oportunidade de uma nova carreira. Mas minhas filhas são atleticanas. Sou um paulistano meio falso, já que as coisas boas eu faço ao lado delas”.

Apesar de ter pendurado as chuteiras recentemente, aos 31 anos, Coelho não sente falta da rotina como atleta. A última camisa que vestiu como jogador de futebol foi a do Atlético Sorocaba, em 2014.

“Não sinto saudade de jogar, porque realmente não atuaria em alto nível. Infelizmente passei por algumas cirurgias, não tinha nem cabeça para recuperar meu rendimento. Além disso, o estar no futebol como auxiliar me deixa confortável”.
 
Primeiros passos na carreira

Raimundo Rosa/A Tribuna
Coelho deu seus primeiros passos como jogador no mesmo clube onde hoje atua como orientador de promessas. A convivência com os jovens faz com que memórias do passado voltem à tona. O Corinthians evoca lembranças de um tempo marcado por apertos e incertezas, quando o ex-jogador lutava para conquistar uma chance no profissional. Apesar de não recordar dessas adversidades com contornos dramáticos, o auxiliar aponta mudanças em relação ao padrão de vida que os esportistas das categorias de base possuem atualmente.
 
“Sou um cara que passou por muita dificuldade, mas não as encarava como sofrimento e nem falo muito disso. Era muito feliz com aquilo, porque o que queria mesmo era ser jogar futebol. Sempre soube onde tinha que chegar, e via tudo por que passei como oportunidade para realizar meu sonho. Mas hoje, a estrutura mudou bastante, o nível é maior. O clube dá para esses meninos uma condição muito boa de trabalho. O financeiro atrapalha um pouco, já que muitos não têm a estrutura para ganhar o que ganham hoje”.

Lançado pelo Corinthians em 2003, Coelho estreou justamente contra o Atlético, em partida válida pela Copa Sul-Americana. Em seu primeiro jogo como profissional, o lateral, que tinha 20 anos naquela ocasião, entrou em campo no decorrer do confronto, mas não conseguiu evitar a derrota do Timão por 2 a 0. Sua trajetória se cruzaria de vez com a do Galo quatro anos depois. Mas antes de defender o clube mineiro, o jogador se destacaria na conquista do Brasileiro de 2005, pela equipe do Parque São Jorge.
 
A passagem pelo Corinthians se encerraria em 2006, depois da eliminação diante do River Plate, pelas oitavas de final da Copa Libertadores. O Timão havia saído derrotado no confronto de ida por 3 a 2, em Buenos Aires. O duelo de volta reservaria um desfecho trágico para Coelho, que aos 11 minutos da etapa complementar balançou as redes, mas não a favor do Timão. O gol contra foi um balde água fria para o clube paulista, que foi derrotado novamente, dessa vez por 3 a 1. A queda corintiana colocaria Coelho na rota do Atlético na temporada seguinte.
 
“Foi um ano muito complicado para nós (2006), depois de ter conquistado o Campeonato Brasileiro (2005). No futebol as coisas mudam muito rápido. Essa eliminação na Libertadores foi muito difícil, mas me levou ao Galo depois”.

Marcelo Sant'Anna/Estado de Minas

Recomeço no Atlético, polêmica em clássico e transferência para a Europa


O Atlético anunciou a contratação de Coelho no ano seguinte à eliminação do Corinthians na Libertadores de 2006. Rebaixado em 2005, o Galo havia acabado de conquistar a Série B e o retorno à elite do futebol brasileiro. Naquele momento, jogador e clube encontraram um no outro aquilo que precisavam: a chance de recomeçar.
 
“Posso dizer que no Corinthians tive momentos espetaculares, mas com o Atlético foi um recomeço, foi diferente, recebi muito carinho da massa, foi espetacular”.
 
Logo em seu primeiro ano de Atlético, Coelho se torno o dono da lateral direita. O apoio ao ataque e a qualidade nas bolas paradas eram seu cartão de visitas. Em 2007, conquistou o título do Campeonato Mineiro e o reconhecimento com vários prêmios individuais. No fim daquela temporada, foi contemplado com o Troféu Telê Santana, com o Troféu Guará e foi eleito o terceiro melhor lateral-direito pelo Troféu Craques do Brasileirão da CBF. 

Apesar de se destacar pelo bom futebol naquele ano, o lateral se viu exposto no noticiário nacional e internacional por outro motivo. Coelho protagonizou um lance que suscitaria as mais calorosas discussões no mundo do futebol. Das mesas redondas de TV às mesas de bar, o assunto era um só: o fatídico clássico da 26ª rodada do Brasileiro. O confronto foi recheado de gols, terminou com vitória do Cruzeiro por 4 a 3, mas o lance mais comentado foi a forte entrada de Coelho em Kerlon. O jogador do Galo deu uma ombrada na então revelação celeste, ao receber o drible da 'foquinha', sendo expulso na sequência. A finta consistia em levantar a bola na altura da cabeça e correr com ela dominada dessa forma.

Hoje, oito anos depois do lance, Coelho vê a situação com um olhar mais crítico, mas não se arrepende da sua atitude. O lateral acredita que a falta não foi a decisão mais correta a ser tomada e vê aquele instante como uma 'mancha' na boa temporada que vinha fazendo.

“É a primeira vez que vou falar sobre o episódio do Kerlon, que aconteceu em um ano muito importante para mim. Acabei fazendo uma falta besta no menino do Cruzeiro e isso chega a ser irônico. Na época, não tinha muito o que falar. Me criticavam muito, falavam absurdos, depois me ligavam pedindo desculpas. Na minha opinião, a agressão nunca é o certo a se fazer. Mas as pessoas que nunca disputaram um clássico entre Atlético e Cruzeiro não vão saber o que se sente nesse jogo. Não me arrependo, mas também não apoio isso. O futebol é bola no chão, tem que ter jogadas bonitas e nada de violência”.

Paulo Filgueiras/Estado de Minas

Apesar da enorme repercussão do lance naquele clássico, a primeira passagem de Coelho no Atlético teve saldo positivo. As boas atuações no Galo levaram o ex-lateral ao Bologna da Itália, em 2008. Permaneceu na 'Terra da Bota' por um ano, onde teve boas experiências táticas e gastronômicas. Voltou da Europa em 2009, com a filha Valentina nos braços.

“Aprendi muito na Itália, principalmente em questões táticas. Tive uma experiência muito boa, muito bacana mesmo. Naquela época, comia e bebia bastante, tinha muita amizade. Até hoje converso com as pessoas de lá. Minha Valentina nasceu lá, fui muito feliz na Itália”.

Antes de se aposentar, Coelho teve um nova passagem pelo Atlético e defendeu também o Karabükspor, da Turquia, Bahia e Guaratinguetá. Encerrou sua carreira oficialmente no Atlético Sorocaba, em 2014.

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