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Trabalho no América, títulos no Nordeste e cursos na CBF: Moacir Júnior passa carreira a limpo e sonha com projeto em longo prazo

Treinador está livre no mercado após pedir para sair do Treze-PB

postado em 16/10/2020 08:00 / atualizado em 16/10/2020 15:37

(Foto: Carlos Cruz/América FC)
Há quase quatro décadas no mundo da bola, Moacir Júnior é bastante conhecido no futebol mineiro. Natural de Curvelo, a 168 quilômetros de Belo Horizonte, o técnico de 53 anos dirigiu vários times do interior do estado, entre os quais Tombense, Social, Tupi, Ipatinga, Villa Nova, Democrata de Governador Valadares e Nacional de Nova Serrana. Mas foi no América que ele alcançou o trabalho de maior visibilidade na carreira, em 2014, a ponto de receber uma sondagem do Athletico-PR, clube da elite do Campeonato Brasileiro.

“Naquela época, tive uma sondagem do Athletico Paranaense. Não quis largar o projeto do América, porque tinha certeza absoluta de sucesso. Um uruguaio, amigo do Petraglia (presidente do clube rubro-negro), me ligou dizendo que podia ir a Belo Horizonte me buscar, que o Athletico Paranaense queria contar comigo. Eu falei que não, que naquele momento eu estava focado no América”, contou, em entrevista ao Superesportes.

O interesse do Furacão em Moacir se deu no fim de agosto de 2014, após a demissão de Doriva. Na ocasião, o América liderava a Série B do Campeonato Brasileiro, com 36 pontos, ao vencer consecutivamente Luverdense (2 a 0) e Ponte Preta (3 a 0), no Independência.

O encerramento do turno ocorreu no dia 29, no empate por 0 a 0 com o Sampaio Corrêa, em São Luís, no Maranhão. Naquela circunstância, a diretoria do Coelho entrou em choque por causa de uma denúncia da escalação irregular do lateral-esquerdo Eduardo, na vitória por 1 a 0 em cima do ABC, pela 14ª rodada, no Horto.

Moacir Júnior lamentou que a tensão pela possibilidade de perder pontos tenha prejudicado o seu trabalho no Lanna Drumond. “Eu não tenho dúvida que, se isso não acontecesse, a gente tinha chance enorme de acesso”, frisou. “Um jogador irregular nos fez perder tantos pontos e complicou o trabalho de um time candidatíssimo ao acesso”, complementou o treinador.

O América de 2014 tinha jogadores experientes como o goleiro Fernando Leal, o volante Leandro Guerreiro, o meia Mancini e o atacante Obina, além de jovens em ascensão, casos do zagueiro Vitor Hugo e do volante Andrei Girotto, que viriam a se transferir para o Palmeiras e hoje defendem, respectivamente, Trabzonspor-TUR e Nantes-FRA.

Houve também indicações específicas de Moacir, como o versátil Pablo, que atuava tanto na lateral quanto no meio-campo; o zagueiro André, o volante Thiago Santos (vendido ao Palmeiras em agosto de 2015), os meias Tchô e Diney e o atacante Júnior Negão.

“Conseguimos montar um time equilibrado. Era um time na Série B com mais jogadores renomados que agora, em que o América está em uma fase muito boa. Esses jogadores encaixaram muito bem com a minha forma de trabalhar e compraram a minha ideia. Fomos assolados, quebramos uma sequência boa após o anúncio da possibilidade de perda de 21 pontos. Fui o mais prejudicado depois de ter montado um trabalho fantástico”.

Passagem pelo Coelho


(Foto: Carlos Cruz/América FC)

A passagem de Moacir Júnior pelo América começou em 11 de fevereiro de 2014, um dia depois da demissão de Silas, que havia iniciado o Campeonato Mineiro com dois empates e uma derrota. O treinador saiu do Tombense notabilizado por ter vencido o Atlético por 2 a 0, no Independência, pela fase classificatória do estadual.

Moacir assumiu o Coelho na zona de rebaixamento, com apenas dois pontos, e pulou para a terceira colocação, com 18. Nas semifinais, o time acabou sucumbindo ao favoritismo do Atlético, que ganhou na ida, por 4 a 1, e empatou na volta, por 1 a 1. Mesmo assim, a boa base foi mantida visando à Série B.

Na segunda divisão do Brasileiro, o América estreou empatando com o Vasco por 1 a 1, em São Januário, no Rio de Janeiro. Depois, ganhou cinco confrontos consecutivos, com destaque para o placar de 3 a 1 sobre o Joinville, em 20 de maio de 2014, com quase 20 mil pessoas no Mineirão - gols de Obina, Mancini e Vitor Hugo. “Eu tenho esse jogo gravado no meu HD. Foi uma partida de um nível técnico muito alto no estádio que viria a receber a Copa do Mundo”, relembrou Moacir.

No decorrer da Série B, houve bons e maus momentos, mas sempre com a equipe se mantendo na parte de cima da tabela. Até que um erro administrativo comprometeu todo o trabalho do grupo. Contratado para fazer sombra a Gilson, Eduardo já havia disputado a Copa do Brasil pelo São Bernardo-SP e a Série B pelo Náutico. Logo, o Regulamento Geral das Competições da CBF vetava a sua inscrição por um terceiro time em 2014.

Em seu art. 214, o Código Brasileiro de Justiça Desportiva previa punição severa ao clube que incluísse na equipe atleta em situação irregular.  “Perda do número máximo de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição, independentemente do resultado da partida, prova ou equivalente, e multa de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais)”.

Além de enfrentar o ABC, Eduardo ficou no banco de reservas em três partidas. Ou seja, em primeira instância, o América perdeu 21 pontos. Os abalos psicológicos nos jogadores surgiram antes mesmo do julgamento, ainda na fase de notícia de infração feita pelo Joinville à Procuradoria-Geral do STJD. E assim, o time acumulou quatro derrotas no início do returno. Na terceira, sobrou para Moacir Júnior. Após o Coelho levar 2 a 0 do Boa no Horto, pela 22ª rodada, o comandante foi avisado de que não seguiria no Lanna Drumond.

“Foi uma das maiores injustiças da minha carreira. Tínhamos também feito uma recuperação fantástica no Campeonato Mineiro, fomos para a semifinal e perdemos para o Atlético. Na Série B, chegamos à liderança. Depois, o time perdeu 21 pontos por um jogador irregular”, recordou o técnico, cujo aproveitamento geral no Coelho foi de 52,77% (17 vitórias, seis empates e 13 derrotas em 36 jogos).

Ao receber o recurso, o Pleno do STJD reduziu a punição ao América de 21 para seis pontos. Para o lugar de Moacir, a diretoria contratou Givanildo Oliveira, que contabilizou índice de 75,55% nas 15 rodadas finais (10 vitórias, quatro empates e uma derrota) e por pouco não subiu à Série A - terminou em quinto, com 61 pontos, um a menos que o quarto colocado Avaí.

Sequência da carreira


(Foto: Guilherme Veríssimo/DP D.A Press)

Cinco dias depois de sair do América, Moacir Júnior aceitou o convite do ABC, que também estava na Série B. Em dez jogos (oito na segunda divisão e dois na Copa do Brasil), o treinador alcançou apenas três vitórias e perdeu sete duelos.

“Foi um erro de avaliação da minha parte. Naquele momento, não podia aceitar nenhum tipo de convite que não fosse de um clube do mesmo tamanho ou maior que o América. Isso me custou um melhor nível na carreira”, pontuou.

Em 2015, o técnico teve passagens curtas por três clubes: Náutico (10 jogos), Boa Esporte (7 jogos) e Criciúma (8 jogos). Em 2016, desenvolveu bom trabalho pelo Linense no Campeonato Paulista (12º entre 20 participantes, com 20 pontos em 15 jogos) e no Tombense na disputa da Série C do Brasileiro (9º colocado entre 20 equipes, com 29 pontos em 18 jogos).

Na temporada 2017, Moacir Júnior conduziu o Botafogo-SP às quartas de final do Paulistão, sendo eliminado pelo Corinthians, que viria a ser campeão. Na Série C, tirou o Cuiabá da zona de rebaixamento, na quarta rodada do Grupo A, e encerrou em sexto lugar. Graças à permanência na terceira divisão, o clube de Mato Grosso conquistou o acesso à Série B em 2018. Hoje, em 2020, lidera a segunda divisão com 32 pontos em 16 rodadas e tem boas chances de subir à elite nacional em 2021.

Moacir se orgulha de ter colaborado na evolução de vários jogadores que vieram a alcançar boa produtividade no cenário nacional. Em 2016, no Linense, ele treinou William Pottker, que marcou sete gols em 13 jogos no Paulistão e, posteriormente, foi artilheiro do Brasileirão pela Ponte Preta, com 14 gols. Em 2017, no Botafogo-SP, colaborou para o bom desempenho do volante Diego Pituca, que caiu nas graças do técnico Jorge Sampaoli no Santos em 2019. Por fim, o lateral-direito Léo Pereira, de 22 anos, destacou-se sob seu comando no Treze-PB, em 2020, e foi contratado pela Ponte Preta treinada por Marcelo Oliveira, ex-Cruzeiro.

“Eu fui rever o Pituca, um jogador que teve um upgrade grande comigo no Botafogo-SP. Ele é muito grato por isso, me deu duas camisas de presente. O William Pottker, no Linense, fez muitos gols no Campeonato Paulista e deu esse boom. São muitos atletas que pegamos no nível médio e que hoje estão apresentando bom futebol. Na Ponte Preta tem o Léo Pereira, lateral-direito. Era um dos destaques do Treze, e está indo para a Ponte. O Marcelo Oliveira (técnico) e o Tico (auxiliar) confiam em mim e sabem do meu grau de exigência com os times que montamos”.

Títulos no Nordeste


(Foto: Cassiano Cavalcanti/Treze)

Os trabalhos recentes de Moacir Júnior foram marcados por títulos estaduais na Região do Nordeste. Em 2019, levantou a taça com o América-RN e quebrou sequência de três anos do rival ABC no Campeonato Potiguar. Em 2020, na Paraíba, pôs fim a uma seca de nove anos do Treze em meio ao favoritismo do Botafogo e também do Campinense.

Apesar do troféu na Paraíba com o Treze, Moacir não conseguiu boa campanha na Série C. Por isso, resolveu pedir demissão em 19 de setembro, quando o time se encontrava na zona de rebaixamento do Grupo A, com apenas três pontos em seis jogos. O treinador explicou as razões para o insucesso no Campeonato Brasileiro.

“Fomos campeões com o Treze. No ano passado, com o América-RN. No Brasileiro, houve uma oscilação e um desgaste muito grande ainda durante o Campeonato Estadual. Há nove anos o clube não ganhava, aí fizemos uma força muito grande para ganhar. Conseguimos. Mas, naturalmente, tudo isso gera o desgaste. Quando veio a oscilação no Brasileiro, definimos, para não manchar o trabalho do título, achamos melhor abrir mão. E eu vou para cima de novos e maiores desafios. Estou com esse bicampeonato, terminei minha licença PRO na CBF e agora estamos atrás de objetivos maiores”.

“O que não deu certo foi uma questão de ambiente entre os jogadores e a diretoria. Foi prometido um prêmio pelo título, e o prêmio não foi pago. Havia questões salariais em atraso. E eu fui fazendo a reformulação em cima disso (...). No ano passado, pelo América-RN, e este ano, no Treze, não deixei vir nenhum jogador no estadual visando ao Campeonato Brasileiro. Isso acarretou no nosso título. Tenho visto os clubes médios sem critério para contratar, contratam em demasia, tiram a confiança dos jogadores que estão no grupo, e eu não deixo isso acontecer. Acabou o campeonato, fomos campeões, e começou a reformulação. Só que começou essa reformulação com a premiação atrasada, e eu fui reformulando. Quando eu saí de lá, começou uma sequência de empates muito grande, daí coloquei o cargo à disposição duas vezes. A diretoria não quis deixar eu sair, até porque a gente segura a onda dos caras. Porém, depois do empate com Remo, Manaus e Jacuipense, eu comuniquei a minha saída e disse: ‘agora já deu’. Foi uma coisa certa no momento certo. O fato de quebrar nove anos do título me deixou feliz”.

Licença PRO na CBF


(Foto: Arquivo pessoal)

Com tempo livre após optar por sair do Treze-PB, Moacir Júnior pôde aprimorar as qualificações profissionais ao tirar a licença PRO de treinadores em curso na Confederação Brasileira de Futebol. Na Granja Comary, em Teresópolis-RJ, trocou conhecimento com profissionais como Tite, da Seleção Brasileira, Milton Cruz (ex-São Paulo), Zé Ricardo (ex-Flamengo, Vasco e Botafogo), Jair Ventura (ex-Sport) e tantos outros. O ex-comandante do América já tinha o diploma A em razão dos quase 20 anos de experiência profissional.

“Hoje, para o treinador trabalhar, tem que ter ao menos a Licença A. Eu entrei direto na A, devido à minha experiência como treinador, e fiz a PRO. É a vivência de estar ao lado do Tite, técnico da Seleção Brasileira, e de profissionais como Milton Cruz, Zé Ricardo, Jair Ventura. A CBF proporcionou proximidades de treinadores e abriu debates. Isso mostra que você às vezes fica longe de um nível de Libertadores e Seleção Brasileira pelo que o mercado impõe, mas, ao mesmo tempo, está muito próximo em questão de conteúdo, princípios e vivência. A licença PRO me deu certeza que estou num caminho bom, próximo do alto nível. Essa garotada vem com a tecnologia e nos obriga também a vivenciar os números e scouts do jogo, mas, na minha visão, nada supera o que você adquiriu ao longo da vida. Sou um treinador de carreira solo há 18 anos. Poucas pessoas sabem disso, mas joguei oito anos na base do Cruzeiro, de 1981 a 1988. Depois, joguei fora do país (em clubes semiprofissionais da Alemanha), fiz faculdade de educação física, trabalhei com infantil, juvenil, juniores, fui auxiliar e sou treinador há quase 20 anos”.

Nas próximas etapas, Moacir promete ser mais criterioso na análise de propostas, embora não descarte um convite para recuperar trabalhos. Com o apoio de seu empresário, Cristiano Hosken, o treinador analisa qual o melhor caminho para a continuidade da carreira e ainda sonha com uma oportunidade tão expressiva e midiática quanto a do América, em 2014.

“O que já vivi no futebol, me preparei para as duas situações. Se analisar hoje, com a maturidade que adquiri, o ideal seria assumir um projeto pontual, tranquilo e em longo prazo. Mas não acho difícil, por tudo que já passei - fiz uma faculdade dentro da parte prática -, recuperar o projeto (...). Estou com esperança de um projeto melhor, a maturidade está grande, estou com 53 anos, uma idade média para um treinador. Tive convites da Série D e outros da Série C, mas não aceitei ainda porque quero ter um critério mais nobre na escolha desse novo projeto”.

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