Crise dentro e fora de campo marca 500 dias de Sérgio Rodrigues no Cruzeiro

Ex-jogadores e lideranças debatem a administração do presidente do clube, que assumiu o cargo em junho de 2020

14/10/2021 04:00 / atualizado em 14/10/2021 13:26
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Sérgio Rodrigues completa 500 dias da posse no Cruzeiro
foto: Bruno Haddad / Cruzeiro

Sérgio Rodrigues completa 500 dias da posse no Cruzeiro

O presidente Sérgio Santos Rodrigues completa, nesta quinta-feira (14), 500 dias à frente da administração do  Cruzeiro . Nesse período, o clube colecionou fracassos em campo e, fora das quatro linhas, convive com atrasos salariais – os jogadores confirmaram  greve como forma de protesto – e problemas na Justiça.

O futuro incerto da Raposa é resultado de uma herança maldita recebida pelo dirigente da gestão  Wagner Pires de Sá, que, ao lado de Itair Machado e Sérgio Nonato, é réu na Justiça  por supostamente ter cometido crimes contra a instituição.

O Superesportes ouviu lideranças e ex-jogadores sobre a administração de Sérgio Rodrigues. Para o ex-presidente José Dalai Rocha (2019-2020), que ficou interinamente no cargo após a renúncia de Wagner, Sérgio tem que honrar com o que prometeu e colocar os salários em dia.

"Continuamos numa expectativa de que o atual presidente consiga comprovar o que ele disse na primeira reunião com os jogadores. A apresentação dele encheu de esperança quando ele disse ao elenco para fazer a parte dele dentro de campo, que, na gestão, a responsabilidade era dele, que ele resolveria. Sérgio bateu no peito e assumiu a responsabilidade, mexendo com o sentimento de 9 milhões de torcedores", começou. 

"Com o desenrolar da administração, ele não vem comprovando a viabilidade da expectativa criada em todos nós. Eu diria: 'ruim com ele, pior sem ele'. Eu, por exemplo, jamais teria as condições psicologias, econômicas e políticas de assumir o clube. O Cruzeiro precisa de um reposicionamento moral. A gente precisa apagar a vela da família União e ficar somente com a vela de Deus. Não é possível você fingir que está tudo bem com determinados integrantes dentro do Conselho do Cruzeiro. Eles estão lá graças a uma liminar, única liminar na Justiça que é incaível. O Estatuto é claríssimo em dizer que perde o cargo o conselheiro remunerado, é uma norma impositiva, não tem votação, é um caso claro de exclusão".

A gestão de Wagner Pires de Sá remunerava 30 conselheiros, entre eles  Sérgio Nonato e Gustavo Perrella . Em setembro de 2020, José Dalai Rocha assinou o termo de expulsão, mas eles continuam fazendo parte da vida política do clube. Por outro lado, caminha a possível exclusão de Wagner. O  clube marcou reunião extraordinária para o dia 18 de outubro e colocou este assunto em discussão .

Outro aspecto da gestão de Sérgio Rodrigues que foi motivo de debate público foi sua dificuldade de ouvir outras lideranças. O próprio patrocinador  Pedro Lourenço endossou essa crítica, em declaração neste ano .

Conselheiro ativo na vida política do clube, Anísio Ciscotto , que participou do Conselho Gestor, fez a mesma avaliação.

"De positivo, eu vejo o fato de ele ter aceitado o desafio, porque, do jeito que está o Cruzeiro, muita gente não quis, muita gente poderia ter entrado, mas não topou. Já o grande defeito do Sérgio Rodrigues é ser uma pessoa autossuficiente, que acha que sabe muito, não gosta de receber ajuda, não escuta ninguém, quem critica não é ouvido. Com isso, as pessoas vão abandonando, percebem que não têm espaço e vão saindo", disse Ciscotto. 

A reportagem pediu uma posição do presidente do Conselho, Nagib Simões , sobre a gestão de Sérgio. Ele atendeu à ligação, mas estava ocupado e pediu para retornar mais tarde. Entretanto, não atendeu aos contatos feitos posteriormente.

Clube-empresa

Para o ex-presidente Dalai, o clube-empresa e a possibilidade de levantar parcerias para valorizar os terrenos do Cruzeiro podem ser a saída para uma  dívida que alcança R$ 1 bilhão .

"Tem uma luzinha no fim do túnel, e não é o trem se aproximando, é o clube-empresa. Isso pode nos tirar do buraco terrível em que estamos", disse. "O Barro Preto está pedindo um início de obras, está pedindo uma obra monumental ocupando aquele espaço de terreno, um empreendimento para grandes investidores fazerem aporte na obra e no Cruzeiro, com a garantia de exploração futura do espaço".

Em setembro, o Cruzeiro obteve licença junto à Prefeitura de Belo Horizonte para a construção de um empreendimento comercial no Parque Esportivo do Barro Preto, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Essa é apenas a etapa inicial para projetos, que ainda precisam passar por outros processos dentro da PBH.

Empresário do ramo imobiliário e parceiro do Cruzeiro,  Régis Campos é um entusiasta da ideia . Ao Superesportes , em 20 de agosto, ele projetou a possibilidade de rendimento entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões para o clube com a obra.

Erros no futebol

Sérgio Rodrigues tomou posse em 1º de junho de 2020. Dentro de campo, ele não conseguiu montar uma equipe competitiva. Em duas temporadas na Série B, o  Cruzeiro nunca figurou na parte de cima da tabela . O momento de maior êxito foi o 9º lugar na terceira rodada em 2020. 

Hoje, o time do técnico Vanderlei Luxemburgo ocupa a 11ª posição na tabela, com 39 pontos. O Goiás, que tem um jogo a menos em relação ao time celeste, abre o G4, com 48 pontos. De acordo com o Departamento de Matemática da UFMG, a  Raposa possui 0,15% de probabilidade de jogar a Primeira Divisão em 2022 .

Para o ex-jogador Nonato , um dos grandes da história do Cruzeiro, Sérgio errou muito no futebol. "Um dos principais defeitos dele é no futebol. Ele não poderia ter cometido esses erros que ele cometeu. Contratou muitos jogadores ruins, tinha uma época que o elenco tinha seis laterais-esquerdos e quem assumiu a vaga foi o Matheus Pereira, da base", disse.

Com a experiência de quem já ganhou 12 títulos com a camisa do Cruzeiro, entre eles a Copa Libertadores de 1997, duas Supercopas (1991 e 1992), a Copa Ouro de 1995 e duas Copas do Brasil (1993 e 1996), Nonato explica o que faria para 2022.

"Luxemburgo e a comissão dele têm que ser mantidos. Reforços importantes devem ser contratados. A base é importante? É, claro que é. Mas sozinha a base não resolve, montaram um time de meninos há um tempo e não deu certo. Os meninos têm que entrar aos poucos até para não serem queimados, e sim valorizados. Trazer qualquer jogador não dá certo mais, isso ficou claro", disse. 

Muitas mudanças


Com Sérgio Rodrigues, o Cruzeiro caminha para ter o quinto diretor de futebol diferente, já que hoje o cargo está vago. Passaram pelo clube nessa função Ricardo Drubscky, Deivid, André Mazzuco e Rodrigo Pastana.

Em relação a treinadores, já são seis desde que Sérgio assumiu: Enderson Moreira, Ney Franco, Luiz Felipe Scolari, Felipe Conceição, Mozart Santos e Vanderlei Luxemburgo. 

Ídolo do Cruzeiro, Dirceu Lopes diz que dentro de campo o Cruzeiro vive momento de constrangimento desde que caiu para a Segunda Divisão, ainda na gestão Wagner Pires de Sá, Itair Machado e Sérgio Nonato.

"É com muita tristeza e constrangimento que eu digo que jamais na minha vida eu pensei que o Cruzeiro chegaria a uma situação desta, porque o Cruzeiro no passado sempre foi exemplo de grandes administrações, tendo em vista a estrutura, as construções das Tocas da Raposa I e II, os grandes títulos. Mas, hoje, fazer futebol sem dinheiro é quase impossível, a salvação do Cruzeiro está em virar clube-empresa, um bilionário assumir o clube como  na Inglaterra . Acho que é o que pode salvar o Cruzeiro, infelizmente", destacou.

Dirceu e Tostão eram os protagonistas de um time de lendas que encantou o mundo ao vencer o Campeonato Brasileiro de 1966, encerrando uma hegemonia do  Santos  de Pelé , que vencera o torneio de 1961 a 1965. 

Gestão


A administração com Sérgio Rodrigues ganhou uma casa nova. O Cruzeiro deixou a sede do Barro Preto, mas ainda não definiu o rumo do prédio de 4,3 mil metros quadrados. Uma ala da diretoria defende a venda do imóvel. Hoje, o clube mantém seus funcionários na WeWork, no Boulevard Shopping.

"A transição faz parte de um novo conceito profissional que está sendo implementado no Cruzeiro, em um momento de austeridade. O novo espaço vai facilitar a manutenção da estrutura corporativa, além de trazer dinamismo e melhoria de fluxos e processos. A operação na WeWork significará ao Cruzeiro economia anual de R$ 2 milhões em gastos com manutenção e despesas fixas", justifica o clube, em nota no site oficial. 

Atualmente, o Cruzeiro não tem dinheiro em caixa. Ao longo dos 500 dias de Sérgio Rodrigues, até mesmo funcionários que recebem um salário mínimo ficaram sem ter o dinheiro na conta no quinto dia útil de cada mês.

Há empregados que chegaram a ficar com seis meses de atrasos nos vencimentos, como revelaram os jogadores em carta aberta, nessa quarta-feira (13). Eles destacaram ainda que existem pendências de 2020.

Agente do técnico Felipão, Jorge Machado disse que chegou a faltar alimentação na concentração.

Sérgio tem buscado socorro com o empresário  Pedro Lourenço, que já acertou a compra do patrocínio de 2023.  Longe da elite do futebol brasileiro, o Cruzeiro fica sem visibilidade e tem dificuldade de acertar bons contratos de patrocínio. Além disso, o dinheiro da TV é reduzido na Série B. Esta combinação deixa o clube impossibilitado de arrecadar mais, gerando um ciclo vicioso e perigoso.

Outro problema que se avizinha são os acordos na Justiça que deverão começar a ser cumpridos no início de 2022. O c lube deve R$ 25 milhões ao atacante Fred , R$ 15 milhões ao lateral-esquerdo Dodô e R$ 16,6 milhões ao zagueiro Dedé .

Somente aos três atletas são mais de R$ 56 milhões a serem quitados até dezembro de 2026.

Dívidas na Fifa


Com Sérgio Rodrigues, o Cruzeiro já quitou mais de R$ 40 milhões em dívidas na Fifa. A gestão atual já fez acordos com Tigres pela compra de Rafael Sobis; Independiente del Valle pela aquisição de Caicedo; FC Zorya pela vinda de Willian Bigode; Unión Florida pelo mecanismo de solidariedade de Rármón Ábila; Al Wahda pelo empréstimo de Denilson; Paulo Bento e sua equipe de profissionais por salários atrasados.

O Cruzeiro ainda está impossibilitado de contratar jogadores porque deve ao Mazatlán, antigo Monarcas Morélia, do México, cerca de R$ 6 milhões pela contratação do atacante Riascos e ao Defensor, do Uruguai,  R$ 7 milhões pela negociação do meia De Arrascaeta.

O Cruzeiro ainda tem débito de cerca de R$ 16 milhões com o  Pyramidis, do Egito, relativo ao meia-atacante Rodriguinho, mas a cobrança não deve chegar nos próximos meses.

Sérgio na Europa


Sérgio Santos Rodrigues está na Europa. Na Espanha, ele participou de curso sobre gestão no futebol. Agora, está em Lisboa, em Portugal, onde faz parte do evento Global Football Management , de 12 a 15 de outubro – é orador de uma mesa sobre 'Os desafios da gestão moderna do futebol'.

A reportagem pediu uma posição do clube sobre o momento conturbado, mas não houve resposta.

 "É errado atrasar salário e mais errado ainda é a ausência do presidente neste momento", disse o ex-jogador Procópio Cardozo.

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