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Entrevista exclusiva: Tinga abre o jogo sobre saída do Cruzeiro, avalia mudanças na diretoria e comenta planos para o futuro

Duas semanas depois de comunicar que ficará no clube somente até dezembro, gerente de futebol explica motivos que o levaram a decidir não continuar na Toca da Raposa em 2018. Leia a entrevista ao Superesportes/Estado de Minas

postado em 18/10/2017 07:00 / atualizado em 18/10/2017 12:13

(Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Dos profissionais mais vitoriosos da história recente do Cruzeiro, o ex-jogador e atual gerente de futebol Paulo César Tinga se prepara para a segunda despedida do clube. Como da primeira vez, em 2015, ele acredita que quando sair, em dezembro, junto com o presidente Gilvan de Pinho Tavares, terá cumprido o dever. Até por isso, não descarta voltar à Toca da Raposa II. “Acho que foi muito legal (o trabalho no clube). Tudo que sonhei aconteceu”, afirmou ele, durante entrevista exclusiva ao Superesportes/Estado de Minas. Ele comunicou a saída há 14 dias, depois de refletir bastante sobre as muitas mudanças no departamento de futebol que estavam sendo planejadas pela diretoria eleita, encabeçada por Wagner Pires de Sá. “Somos uma equipe.”

Você citou em pronunciamento que deixa o Cruzeiro por “princípios de gratidão”. O que isso significa?


Quando falei em princípio de gratidão me refiro às pessoas. Um clube é feito de pessoas, os torcedores em primeiro lugar. E o trabalho interno também é feito por pessoas. Fui muito bem recebido quando cheguei, gente que me ajudou na nova carreira. Tinha conhecimento de futebol como jogador, mas para me tornar gestor precisei muito de quem tinha experiência, como Pedro, Guilherme, Klauss, Vicintin e todos os funcionários. Eles me ajudaram muito, me ensinaram e, unindo forças, tomamos decisões em conjunto. Quando vi que essa unidade poderia ser quebrada, tomei a decisão de sair.

Passados 15 dias do anúncio, considera que foi a decisão certa a tomar?

(Foto: Gladyston Rodrigues/EM D.A Press)
Não deixei o Cruzeiro ainda, tenho trabalho até dezembro, bastante trabalho. Não é porque fomos campeões que não temos objetivos. Sou fascinado por vencer, ganhar, e tento transmitir isso para todos, parceiros, amigos, jogadores. Nosso objetivo é ser campeão do Brasileiro. Se não der, vamos buscar a melhor colocação possível. A partir do fim do ano vou decidir o que vou fazer. Até porque foi uma experiência que havia acertado com o Gilvan. Era um desejo dele que viesse trabalhar desde que parei de jogar, em 2015, queria que eu viesse trabalhar. Falei para ele que, por respeito ao clube, precisa me preparar melhor e passei quase dois anos estudando. E o combinado era este, dar um feedback no final do ano e ver o que quero para minha vida. Quando vi que o que conquistamos como equipe, e nós, da diretoria, somos uma equipe (com mudanças no grupo), decidi sair. Foi importante falar para você que não tomei a decisão por estar indo para outro clube. Muito se falou que tenho proposta. Não tenho. O que ocorre é que no meu trabalho preciso de confiança, é um trabalho de solução de pequenas coisas que acontecem dentro de um plantel. E para ajudar a solucionar, preciso de pessoas que conheçam o jeito de trabalhar, que entendam como eu trabalho. E foi isso. Fiquei surpreso quando vi que ia ter mudanças, pois entendia que, com a conquista da Copa do Brasil, a chance de ter continuidade seria maior. Às vezes, elogiam o trabalho, mas se esquecem que dois meses atrás, passamos muitas coisas, muita pressão, em vários momentos, questionaram o trabalho da comissão, dos atletas. E nós, unidos, acreditamos que tínhamos a melhor comissão técnica, que tínhamos um dos melhores grupos de jogadores, e por isso conseguimos conquistar. Então, quando a situação ganhou as eleições, achamos que haveria um ciclo de continuidade, que é tão falado no futebol. Acredito que o papel maior da diretoria nem foi ser campeão. Como gestor, fico feliz por iniciar o trabalho em janeiro com as pessoas e terminar em dezembro com as mesmas pessoas. Isso no futebol brasileiro é difícil, raro. Por isso, meu maior ganho no Cruzeiro é apertar a mão das pessoas em janeiro e saber que em dezembro vou apertar a mão das mesmas pessoas, que ninguém foi embora, ninguém abandonou ninguém. Isso me dá orgulho e quando acontece, a chance de vir o título é grande.

Estamos acompanhando um desmonte da diretoria. Como você analisa isso?

Primeiro quero deixar bem claro que a minha decisão é muito particular, não tem influência da decisão de ninguém, de quem saiu antes ou vai sair depois. E tenho falado isso para todos que tenho o futuro incerto. Peço que cada um pense em si, naquilo que acredita. Quanto a desmanche, cada um tem seus motivos. Tenho certeza que um dia voltarei a trabalhar no Cruzeiro, e por isso quero terminar meu trabalho agora da melhor forma. Não consigo pensar em o que cada um tem pensado. E quero deixar claro que minha decisão não é contra ninguém que vai entrar, até porque seria injusto da minha parte falar algo de alguém que não conheço e que não trabalhou ainda. Seria até covardia da minha parte. É apenas pensando naquilo que é o mais difícil de conquistar no futebol: confiança e entendimento de trabalho. Sinceramente, não sei o que vai acontecer, como que vai ser o trabalho daqui para frente. Só digo que todo mundo ficou surpreso. Ninguém imaginou que, ganhando as eleições e a Copa do Brasil, houvesse tantas dúvidas sobre como vai ser, quem continua.

VÍDEO: Tinga abre o jogo sobre saída do Cruzeiro; assista

Itair te procurou. O que foi ofertado? Nem passou pela cabeça permanecer?

Foi uma conversa bem franca, bem legal, de quem realmente gostaria que eu permanecesse. E eu querendo saber como seria a permanência em termos de parcerias. Entendo que quem entra num trabalho, tenha os seus de confiança, tenha suas ideias. Não julgo ser errado ter seu jeito de trabalhar. E não tenho nada contrário a isso, só tomei a decisão. Mas penso até dezembro fazer um grande trabalho de deixar o Cruzeiro cada vez melhor. Depois de dois anos brigando embaixo, queremos terminar na ponta de cima da tabela, confirmando um trabalho que tem sido maravilhoso. Só tenho a agradecer jogadores e a comissão técnica por ter me dado mais esta honra no Cruzeiro.

Há pouco tempo você estava no vestiário como jogador. Como foi a transição para a nova função, estar junto, mas, ao mesmo tempo, fazendo outra coisa?

Confesso que teve muita coisa no futebol que achava que era de um jeito e, estando em uma posição de tomada de decisão, vi que era diferente. De pequenas a grandes coisas. Lembro que quando cheguei, falei que, quando for escrever um livro, ele vai se chamar: “Do outro lado do vidro”. Afinal, no nosso refeitório há um vidro que divide (as mesas ocupadas durante as refeições pela) comissão técnica e diretoria dos jogadores. E no meu primeiro dia de trabalho, tomei um choque. No primeiro almoço estava com a diretoria e a comissão e mais de 10, talvez 15 jogadores com os quais joguei, gente com os quais tinha relação próxima, estavam do outro lado. Cheguei a comentar com minha família, que havia sido uma sensação de ter quebrado um cordão. Agradeço aos que me ajudaram a fazer essa transição e o respeito dos jogadores. E também agradecer muito o entendimento deles. Até por isso não foi nada fácil tomar a decisão de não continuar no Cruzeiro. Os atletas souberam dividir, foram profissionais. Eles souberam dividir, entender que ali estava o Tinga, que uns chamam de ministro, outros de Tingueta, outros de amigo. Enfim, tenho uma relação muito próxima com eles, sempre foi uma relação muito verdadeira. Nisso, a transição não foi muito difícil. E deixei as coisas acontecerem naturalmente, saber o momento de abordar cada coisa. Foi muito legal ter o respeito e a confiança deles. Tudo que eu, como jogador, gostaria que um dirigente fizesse, foi o que apliquei. Pensava: “Quando perco um jogo, o que queria que um dirigente fizesse?” E se ganhasse?” “E quando perdia?” Então, fui aplicando o que havia observado enquanto jogador. Uma coisa que identifiquei é que o futebol é rápido em detectar problemas, mas lento em resolvê-lo. Eu sempre procurei resolver tudo o mais rápido possível. Também procurei mostrar aos jogadores que não jogava mais, que os protagonistas eram eles, que estava ali para trabalhar para eles, dar suporte, não dividir nada com eles. Aprendi muito com outros dirigentes, como o próprio Fernandão. Identifiquei muitas coisas que queria mudar. Não é fácil trabalhar como dirigente, não basta ser ex-jogador. Você tem de detectar os limites do treinador, dos jogadores. É um cenário delicado. Sua voz é importante e você não pode falar qualquer besteira. Sempre digo que tu é dono do que tu fala e escravo do que tu fala. Então, é preciso saber se comunicar, cumprir o que promete para os atletas. Acho que foi muito legal. Tudo que sonhei, aconteceu. Em nove meses de trabalho levantamos um título tão importante, ainda mais em um ano difícil, em que todas as equipes entraram. Tem gente que tenta anos para conseguir.

(Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Qual foi o momento mais delicado da temporada para a diretoria?

Nosso trabalho é sempre silencioso, mas posso te dizer que apenas um dia não houve alguma coisa para resolver, que foi na quinta-feira pós-conquista da Copa do Brasil. Cheguei ao local da festa de comemoração (em uma boate em Nova Lima) e havia um problema de portaria que falei para o Guilherme (Mendes, diretor de comunicação) e para o Pedro (Moreira, supervisor de futebol) solucionar. Em todo momento que houve questionamento sobre comissão técnica ou o trabalho dos jogadores, a gente se apresenta para tentar amenizar, solucionar. Dei pouquíssimas entrevistas e sempre nos piores momentos. Gestor tem de gostar disso, se apresentar nesses momentos. Os momentos bons são dos jogadores. E sou assim, tenho prazer em solucionar problemas. É difícil apontar um único momento como o mais delicado. Claro que quando perdemos o Estadual no domingo e na quarta-feira fomos eliminados da Copa Sul-Americana, houve grande instabilidade, o trabalho da comissão técnica foi muito questionado. Mas nós, da diretoria, tínhamos uma convicção muito grande que nossa comissão técnica era extremamente qualificada e madura, assim como o grupo de jogadores, que foi escolhido a dedo. Toda conversa que a gente tinha a gente sentia no olho dos caras que iríamos vencer. Sempre que reunia sentia deles que queriam ganhar. O trabalho estava sendo bem feito e tínhamos de continuar no silêncio.

Logo no primeiro ano você teve um grande desafio que foi trabalhar com um jogador como o Sassá, como foi?


Sempre parto do princípio de acreditar no ser humano, até que ele me prove o contrário. Então trabalho com o Sassá como trabalho com o Fábio, que é o jogador com mais tempo de casa, com o Nonoca, com o Arthur, que é o mais novo. Respeito sempre, mas com cobrança. Sempre digo para eles que, do muro da Toca da Raposa II para dentro, sempre vou cobrar, falar verdades, não só para construir relação como atletas, mas como pessoa. E do muro para frente, com imprensa, torcida, vou defendê-los sempre. Espero que se lembrem que passei pela vida deles e não fiquei falando só os que gostam de escutar. Uns são mais polêmicos, outros, menos. É preciso ter cuidado, hoje, com rede social, as coisas ficam maiores que são. Temos de acelerar o processo de conhecimento do que representa a rede social, mas ninguém nos educou para usá-la. Ninguém nos treinou para saber que a publicação de uma foto pode ter N consequências, quais são as regras para usar as redes sociais. Então, trabalho com o Sassá como com qualquer outro. Trabalho com jogadores extremamente vencedores, me balizo por eles. Tem gente que está ganhando há muito tempo e continua querendo da mesma forma. Quando escolhi trabalhar no Cruzeiro foi por isso, ter uma base forte, com jogadores como Fábio, Henrique, Leo, depois chegaram Thiago Neves, Rafael Sobis, Robinho, jogadores que brigam muito pela vitória. E tem a comissão técnica do Mano, que sempre trabalha pelo correto. Então, trabalho para que jogador que às vezes não tenha essa linha passe a segui-la. Eles têm de olhar esses exemplos, vencedores natos, que não se acomodam e estão ali ao lado deles. Quanto mais líderes melhor. Dedé, líder nato, Manoel, são caras que venceram e querem sempre vencer a todo momento, Ariel Cabral, Romero, são jogadores com perfil de vitória, Hudson, que chegou e tem perfil de vitória. E os que são mais novos têm de se espelhar para se tornar ídolo de verdade no Cruzeiro. Desde 2012, quando cheguei, formamos um grupo forte, que tomava decisões. Quando saí, falei para os jogadores: 'Vocês são a força do futebol'. Se abraçarem as ideias do treinador, da diretoria, sempre vão atingir os objetivos'. E aconteceu. Fico feliz de voltar dois anos depois e ver tudo que, com outros jogadores, construímos. Quando cheguei em 2012, perguntei quantos funcionários trabalhavam na Toca II. Já dava cesta básica quando estava no Internacional e passei a dar aqui. A diferença é que lá trabalhavam de 10 a 15 funcionários, aqui eram pouco mais de 40. Assim mesmo passei a dar cestas básicas. E deixei um legado, pois um ano depois, o Borges me perguntou se não poderia fazer o mesmo na base. E depois que saí, vi que outros haviam assumido, como o Willian e Leo. Sei que isso se perpetua, nem sei quem está fazendo, mas alguém assumiu. Isso é importante. Assim como foi levar funcionários ao Maracanã na final da Copa do Brasil. São coisas simples, mas, para quem está inserido ali é muito grande. Pegamos o troféu e deixamos dois dias lá na Toca, para que funcionários, aqueles que cuidam da grama, por exemplo, tivessem contato com ele, coisa que raramente acontece. Eles não são reconhecidos como parte de verdade do processo. E a diretoria abraçou e é por isso que conseguimos vencer. O grupo sempre pensa nos funcionários. Tanto que dividiram um prêmio que ganharam com todos, do porteiro ao cara da grama. Coisa deles e que me deixa orgulhoso de estar trabalhando com eles.

Você é muito próximo dos jogadores. Eles chegaram a pedir para você ficar?

Não. Como é uma decisão que vai acontecer de fato em dezembro, acho que no clube está todo mundo querendo entender o que vai acontecer, o que não vai, porque de fato quem falou isso fui só eu. O Bruno já saiu. Tenho o compromisso de acabar muito bem o Brasileiro e brigar até o final para cumprir até o final o que já prometemos aos jogadores. Eles merecem que a gente possa acabar o ciclo em dezembro, o ciclo do doutor Gilvan e honrar com tudo que prometemos. Os jogadores, sempre que sentávamos na sala para falar sobre a importância de ser campeão, eles sempre falavam que seríamos campeões. A última conversa que tive com eles foi depois de a gente ter perdido para o Grêmio (1 a 0, jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil). No meio da conversa que estávamos tendo, acho que tinha oito ou dez líderes conversando, antes de eu terminar, eles disseram que seríamos campeões, que iríamos virar aquela situação. Faltavam dois ou três dias para o segundo jogo e conversei com eles falando que não poderíamos perder essa oportunidade. Falei que a única vez que você chora duas vezes é na semifinal: chora quando perde a semifinal e duas semanas depois, quando vai ver os caras jogando e pensando que poderia estar lá. Pelo trabalho de todo mundo, não poderíamos chorar duas vezes. Quando terminei de falar, eles começaram a dizer que iriam ganhar, que estariam na final. Tudo são eles. Quem deu oportunidade de vencer o título foram eles e comissão técnica. Somos o suporte, silencioso o tempo todo e trabalhando para a melhoria deles. Eu só tenho que agradecer de poder estar com eles, aproveitar o máximo esses dois meses finais.

Um grupo tem sempre diferenças de estilo, como faz para dar química, conseguir juntar essas pessoas com um objetivo só? Foi difícil fazer isso?

Essas coisas acontecem ao natural quando você tem um grupo focado no trabalho. Fico feliz porque é um grupo parecido com os de 2013 e 2014 (quando Tinga ganhou dois títulos brasileiros pelo Cruzeiro), quando vejo vários deles jantando juntos, com famílias, fico feliz porque sempre gostei de construir essas relações. Em um grupo quando você tem os pilares de trabalho de conquista, de não serem jogadores empolgados – temos ali jogadores que não se empolgam com as vitórias, mas as vitórias os impulsionam –, aqueles que chegam e não se identificam com aquilo ali, naturalmente, não ficam muito tempo no clube. Não é o clube que separa. São coisas naturais, não é no Cruzeiro, é em qualquer lugar. A seleção é natural da vida. Quando você tem um pensamento e não tem pessoas para se agarrar nesse pensamento, você não fica muito tempo, não faz parte disso por muito tempo. Futebol eu quero seguir aquilo que acredito. No Cruzeiro, passamos como diretoria que estamos com eles no que é certo. O que é certo é certo, o que é errado é errado, o que é de vocês é de vocês e o que é nosso é nosso. Tem hora que a gente vai falar para eles segurarem a bronca. Eles entendem porque sabem que penso em primeiro lugar neles e na comissão técnica.

(Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Você vai sair e não vai ver o Cruzeiro jogando a Libertadores, competição que todos querem. Vai acompanhar, vai ficar a pontinha de saudade?

Eu nem pensei. Essa é a vida. Lembro que quando saí daqui em 2015, que tinha possibilidade de ficar, achei que ia sair do futebol, estudar, achei que não ia sentir, e assistia ao Cruzeiro jogando e me dava vontade de trabalhar. Não quero pensar muito no que pode acontecer, quero viver esses dois meses que faltam da melhor forma, fazer de tudo para entregar o melhor para o Cruzeiro, para os jogadores. O que sempre falo que o maior respeito que posso ter pelo Cruzeiro é trabalhar todos os dias da melhor forma. É isso que marca os jogadores e os gestores. Todo mundo têm suas ambições e a minha é de ser o melhor na minha função. Ser melhor no futebol é ter respeito.

Passa pela sua cabeça viver fora do futebol?

Graças a Deus eu vivi o futebol dentro de campo na plenitude para poder decidir o que faria depois. Sempre cuidei, tive vida simples, para depois da carreira dar seguimento na minha vida e poder trabalhar com quem e onde eu quero. Vai depender daquilo que as pessoas que me procurarem proporem, então neste caso posso até voltar para casa, ou ficar morando aqui em Belo Horizonte… o maior problema depois da coletiva que dei ali, 10 minutos recebi uma mensagem e duas horas depois estava em casa, com uma família toda me esperando pra explicar o porquê que eu tava indo embora, meu filho mais velho com o olho cheio d’água, olho inchado de tanto chorar, minha família gosta muito daqui. Então cogito mesmo ficar aqui, meu filho vai completar 16 anos, onde as emoções ficam muito afloradas, onde ele tem uma relação de amizade muito grande e eu prometi uma coisa para minha família. Quando eu parei de jogar, tive duas propostas para voltar a jogar futebol, quando fui embora do Cruzeiro, em 2015, mesmo machucado, e não iria jogar em Porto Alegre, estava em Porto Alegre, reuni minha família e expliquei as duas situações. Minha família já estava cansada de ficar dois, três anos em cada lugar. Nesses 19 anos para 20 anos de carreira, o máximo de um lugar que fiquei foram quatro anos na Alemanha e, depois, três anos aqui no Cruzeiro, foram os dois lugares que fiquei mais tempo. No Inter tive uma passagem de dois anos, fui embora, depois voltei por mais dois anos e no Grêmio a mesma coisa, fiquei um ano em formação, subi para o profissional e depois fui embora, pra depois voltar. Então a família já estava cansada, Portugal também voltei rápido, Japão voltei também, tudo no máximo dois anos. Prometi para eles que, se eu voltasse a trabalhar no futebol, em outra função, que eles seriam muito importantes, porque no futebol vivemos um egoísmo muito grande com nossa profissão e todas as vezes que fui embora dos clubes que estava jogando eu nunca perguntei pra minha família, se estavam gostando ou não. Sempre era porque o trabalho não estava certo, eu não estava gostando do lugar, mas nunca, nesses 20 anos, havia perguntado para minha família se eles estavam gostando do lugar. Isso foi um egoísmo muito grande da minha parte, e quando parei de jogar falei que eles iriam determinar meu caminho, e quando pintou o Cruzeiro eles gostaram muito. Quando fui explicar em casa meu filho mais velho lembrou disso, que eles iriam determinar o futuro, eu disse que decidi pelo meu trabalho, mas se eles quisessem ficar em Belo Horizonte eles ficarão morando aqui. Então tem isso também, preciso pensar um pouco neles, porque não pensei em 20 anos onde eles gostariam de estar.

Você está muito próximo do Mano, no dia a dia, essa ligação comissão técnica e diretoria, e ele nesse impasse com a renovação. Você acha que ele permanece no clube?

(Foto: Edesio Ferreira/EM D.A Press)
Isso é uma decisão que não captei ainda. Por mais que a gente tenha uma relação de muita confiança, isso o tempo mostra, e hoje a comissão técnica entende que trabalho pra eles, assim como trabalho para os jogadores, mas isso é uma decisão que até agora não identifiquei, gostaria muito de identificar. Posso dizer que ele tem uma inteligência muito grande, se identificou com o clube, com os jogadores, pelo bem do Cruzeiro, torço para que continue, pelo bem do Cruzeiro. Mas confesso que ainda não identifiquei qual será seu futuro.

Você pensa em um dia poder voltar ao Cruzeiro?


Eu não saí ainda, não é? Estou no clube até dezembro. Mas eu tenho certeza que um dia eu voltarei a trabalhar no Cruzeiro, tenho certeza. Quando eu saí do Cruzeiro, como jogador, já tinha certeza que retornaria ao clube, tamanha as relações de verdade, de lealdade com todos. Sei o meio que vivo, sempre falo que tive o privilégio de viver três décadas no futebol ou dois séculos, porque comecei a jogar em 1996. Então eu falo que quem conseguiu trabalhar três décadas no futebol, ou dois séculos, melhor ficar com dois séculos, né, fica maior, conseguiu perceber várias mudanças, peguei uma geração diferente em um século e consegui viver com essa última, 4G, 5G, essa última geração Y. Então sei o meio que vivo, vi as mudanças. Com toda modéstia, sei o que o jogador e o que as pessoas que trabalham no clube esperam do dirigente, sei que não é fácil fazer o trabalho que a gente fez, mas nos credenciou, credenciou toda a diretoria a um dia voltar, se não for agora um dia vão pensar e um dia vou voltar. Não é fácil trabalhar num meio e mostrar lealdade em um meio onde tem tanta concorrência, tanta competição, são 30 jogadores, 11 são titulares e todos eles precisam de cuidado. Não foi fácil mostrar que o tratamento é igual, e isso é só tempo, porque eu vivi isso na pele. É nessa linha que a gente vai seguindo, mostrando algo diferente, nem melhor nem pior do que ninguém, mas apenas diferente, e isso acaba sustentando para que as pessoas se lembrem da gente ao longo dos anos.

Futebol está cada vez mais caro. Como os clubes vão fazer para sobreviver diante disso?


Me preocupo muito com isso. Sempre acho que às vezes o futebol não se mostra que está no mesmo país que as demais pessoas, pelo menos nos principais clubes. Todo mundo estourado, mais de três milhões de pessoas desempregadas e no futebol os valores aumentam mais. Infelizmente o futebol brasileiro não tem dono, então parece que as pessoas não têm tendência a ter tanta responsabilidade, por isso que a gente vê esses números. Acho que a saída é os clubes terem condição de formar melhor, preparar melhor e dar qualidade de trabalho. Você conquistar um jogador que ele possa escolher vir para um clube como o Cruzeiro pelo seu ambiente, e o ambiente é feito pelas pessoas, acho que o diferencial pra mim vai ser isso. É nisso que penso nos clubes que vou trabalhar, ou se eu não trabalhar mais, é poder fazer parte disso, que as pessoas escolham por meio de um clube que foca na solução, trabalha com a condição financeira que possui, acho que a saída para os clubes é isso, são pessoas. Isso aconteceu aqui no Cruzeiro, o Thiago Neves para vir pra cá tinha propostas muito mais valorizadas que a do Cruzeiro, e ele escolheu vir pra cá. Primeiro, por ser um clube grande, uma torcida apaixonada, estar com um treinador que dá segurança pra ele, então as relações se completam, o próprio jogador pode dar um feedback. O Rafael Sobis me ligou antes de vir, sou padrinho de casamento dele, eu falei ‘fecha o olho e vai, sei nem o que tu tem, mas tu não tem nada melhor para trabalhar’, em termos de segurança, cidade. Lembro que quando cheguei e falei com o Thiago, falei que o clube daria segurança, não colocaria a cabeça dele na bandeja logo com três, quatro jogos e o resultado foi o gol do título, assim como outros jogadores que tiveram seu tempo de adaptação. Então creio essa é a saída dos clubes, para pelo menos concorrer com outros que tenham mais dinheiro, acho isso uma saída, as pessoas. Porque a única certeza que se tem no futebol é que você vai perder, ganhar não é certo.

(Foto: Ramon Lisboa/EM D.A Press)

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