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'Irresponsável': Gilvan ataca Zezé Perrella após reunião tensa no Conselho do Cruzeiro

Ex-presidente se irrita com Perrella após ter números contestados

postado em 26/04/2018 00:42 / atualizado em 26/04/2018 00:52

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Durante os seis anos em que presidiu o Cruzeiro, entre 2012 e 2017, Gilvan de Pinho Tavares raramente saiu do sério. Na noite dessa quarta-feira, quatro meses depois de deixar o cargo máximo do clube, ele trocou o discurso pacífico que lhe é peculiar pelo ataque. Tudo por conta da postura e de declarações do novo presidente do Conselho Deliberativo, o senador Zezé Perrella, acerca dos números da gestão de Gilvan no Barro Preto.

Irresponsável” foi apenas um dos adjetivos usados por Gilvan para se referir a Zezé.

O clima entre eles já tinha azedado na eleição presidencial de outubro passado, quando Zezé apoiou Sérgio Rodrigues e Gilvan respaldou a candidatura de Wagner Pires de Sá, que acabou eleito para a sucessão. À época, Perrella dirigia duras críticas à gestão de Pinho Tavares, principalmente por considerá-la ultrapassada. O então mandatário respondia com seus feitos: o bicampeonato brasileiro (2013/2014) e o penta da Copa do Brasil (2017).

Nesta quarta-feira, os dois tiveram uma discussão acalorada na reunião do Conselho Deliberativo que tratava do balanço financeiro de 2017, último ano da gestão de Gilvan. Perrella alegava que seria um erro submeter os números do clube à votação pelo fato de os conselheiros não terem recebido o documento com antecedência mínima de 15 dias para apreciação. Pinho Tavares rebateu lembrando que a função de repassar os dados das finanças ao Conselho cabia justamente a Zezé, presidente do órgão.

Por fim, a votação acabou adiada para o mês de maio. Diante disso, o balanço financeiro de 2017 será publicado oficialmente esta semana sem ser aprovado ou reprovado pelos conselheiros, algo inédito no Cruzeiro. É que a Lei Pelé exige a divulgação dos números de entidades esportivas até o fim de abril, sob pena de sanções, como o eventual afastamento do presidente executivo, no caso, Wagner Pires de Sá. 

Ao fim do encontro, Perrella revelou que o balanço preparado pela auditoria independente, contratada anualmente pelo clube, apresentava superávit de R$ 30 milhões em 2017, mas graças à antecipação de R$ 100 milhões de receitas de TV. Foi a gota d’água para Gilvan. O ex-presidente atendeu o Superesportes, alegou que o adiantamento foi, na verdade, de R$ 9 milhões da cota de pay-per-view e desabafou contra o presidente do Conselho.

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista com o ex-presidente cruzeirense:

Gilvan, por que o senhor discutiu com Zezé Perrella na reunião do Conselho?

A posição minha, que manifestei a ele na reunião do Conselho, é que essa responsabilidade de divulgar o balanço aos conselheiros não é do presidente ou da diretoria executiva do Cruzeiro, como ele alegou, mas sim é uma obrigação dele, presidente do Conselho. Me surpreende que ele não saiba disso. Aliás, ele não deve saber mesmo, pois nem sequer vai ao clube, ao Conselho. O balanço estava pronto desde o dia 3 de abril, quando foi entregue pelos auditores. Foi aprovado pelo Conselho Fiscal no dia 10 e entregue à presidência do Conselho. Sabe por que ele não distribuiu o documento aos conselheiros? Porque ele não vem aqui, ele mora em Brasília, ele terceirizou o trabalho e deixou na mão de quem não sabe nada. Foi irresponsabilidade dele, pois havia tempo hábil para deixar todos a par do balanço e votar no prazo. Ele adiou a reunião que seria no dia 16 de abril, adiou para hoje, dia 25, e agora adiou a votação de novo para daqui a 15 dias. O balanço terá que ser publicado sem aprovação por culpa exclusiva de quem está brincando de presidir o Conselho.

Ele colocou um funcionário dele do Senado, um tal de Rogerinho, para tomar conta do cargo para o qual ele foi eleito no Conselho. O Perrella nunca veio aqui. Hoje (quarta-feira), foi a primeira vez e ainda veio conversar fiado dizendo que não teve tempo para votar o balanço.

Hoje, na reunião, ele confessou que foi a primeira vez que compareceu e que tomou conhecimento das contas. Um presidente que convoca reunião para o dia 16, depois pede para adiar para 25, e não tomou conhecimentos das contas, ele não pode falar isso. Ele deveria ter tomado ciência das contas. Ele não está presente, ele não vem aqui, ele fica em Brasília, e ele terceirizou o Conselho aqui. Ele tem que estar presente, distribuir as contas. Ele não fez nada, não teve responsabilidade de fazer e pediu para adiar a reunião outra vez.

Se não publicassem as contas até dia 30 de abril, a diretoria atual do Cruzeiro, eleita, seria suspensa, como prevê a Lei Pelé. Resolveram fazer um meio-termo de publicar balanço e deixar dois ou três itens da conta para ser apreciada por auditoria independente. Uma brincadeira.

É verdade que o presidente do Conselho, Zezé Perrella, pediu auditoria de uma segunda empresa para avaliar os números do balanço de 2017?

Sim, ele pediu que o presidente Wagner, meu sucessor, contratasse uma segunda auditoria para avaliar as contas da minha gestão em 2017. Mas a empresa que sempre fez a auditoria dos nossos balanços é a mesma que sempre fez o balanço das gestões do Zezé Perrella. Servia para auditar as contas deles, não serve para as minhas?

Essa iniciativa do Perrella tem a ver com a rivalidade com o senhor, acirrada na última eleição presidencial?

A gente fica com medo do que está por trás disso. Não sei se ele tem outros interesses. O fato é que se a diretoria descumprisse o prazo e não divulgasse o balanço no prazo de 30 de abril, o presidente eleito, Wagner (Pires de Sá), poderia ter problemas, ser tirado do cargo. Quem sabe ele (Perrella) estava interessado em assumir o Cruzeiro de novo?

Na reunião, eu alertei o Wagner sobre isso. Ele poderia ficar inelegível, ser afastado do cargo, se não publicasse o balanço.  

E tudo isso pela irresponsabilidade de um presidente do Conselho que foi eleito no ano passado e só veio aqui hoje, 25 de abril. E um presidente que só ficou a par da situação do clube hoje. Para exercer esse cargo, ele deveria vir aqui sempre, ficar ciente de tudo.
 
Infelizmente, há pessoas que não conhecem o estatuto, que não leem o estatuto, não sabem nada da lei. Essa foi a pior reunião do Conselho Deliberativo da história do Cruzeiro. Pior é que foi cancelada duas vezes. Era para ser dia 16. Agora seria nessa quarta. Agora adiaram. Ficam brincando com os conselheiros.

O Zezé Perrella informou após a reunião que o superávit de R$ 30 milhões em 2017 se deve ao adiantamento de cerca de R$ 100 milhões em receitas de TV. O senhor confirma isso?

Mentira dele (sobre antecipação de R$ 100 milhões). Está no balanço. O que foi antecipado foram R$ 9 milhões de cota de pay-per-view, porque o Cruzeiro teve boa administração na minha gestão, foi o quinto clube que mais vendeu pay-per-view. Só isso foi antecipado, R$ 9 milhões, só isso. O Cruzeiro não tinha superávit há cinco anos. E não ganhava título. Só na minha gestão o Cruzeiro tem dois Brasileiros, uma Copa do Brasil, e todo torcedor do Cruzeiro ficou feliz de ter ver que eu investi no time e não vendi todo mundo, como ele fazia. Quando assumi o Cruzeiro, quando ele deixou a direção, não tinha jogador, ele vendeu todo mundo. Eu tive que arregaçar as mangas para não deixar o time cair, e sem jogador, sem receita, com muita dívida para pagar. Paguei divida dele na minha gestão toda, e nunca fiz uma baixaria como essa. Ele só pode estar fazendo isso porque perdeu a eleição, está com raiva. Tivemos superávit depois de muitos anos, e porque consegui ter boas receitas de bilheteria, sócio-torcedor, recuperamos patrocínio da Caixa, não tínhamos patrocinador como eles e sem vender os jogadores. Deixei um elenco de primeira para a nova diretoria sem vender nenhum jogador.

Mas isso não fica assim. Quem mora em Brasília, quem não vem aqui, quem só tomou conhecimento hoje (dos números)... Isso ocorreu porque ele não veio aqui. Quer usar o Cruzeiro para fins políticos e aparecer em ano eleitoral. Aqui no Cruzeiro, não. Ele conversa muito fiado, não tem responsabilidade.

Antes da eleição do Perrella no Conselho Deliberativo, ele tirou uma foto ao seu lado na sede do clube. À época, falava-se que ele tinha o seu apoio. Vocês chegaram a se reaproximar após os atritos no período da eleição para a presidência?

Não, eu não o apoiei. Tinha deixado claro que não o apoiaria em mais nada, pois ele foi muito irresponsável na última gestão dele (2009/11). Naquele dia, ele tirou uma foto comigo, tentou se valer daquela foto. Ele invadiu minha sala com tudo preparado, e eu disse que não iria apóia-lo. Mas a imagem foi publicada como se eu tivesse dado o meu apoio.

Caso o balanço não fosse publicado no prazo (30 de abril), o Wagner Pires de Sá poderia mesmo perder o cargo? Qual é o processo nesses casos? O Perrella, como presidente do Conselho Deliberativo, poderia assumir?

Viria um interventor, depois teria que se fazer uma nova eleição no prazo de 30 dias. Não sei se o Perrella estaria interessado nisso, pois ele sequer vai ao clube. Como um sujeito que não teve a responsabilidade de ir atrás das contas do Cruzeiro...Ele é quem convoca os conselheiros. Todos os presidentes fizeram isso. Foi a primeira vez que alguém descumpriu.

O Cruzeiro vinha tendo déficits grandes desde 2011. Em 2016, o prejuízo foi de R$ 29,3 milhões. A dívida vinha crescendo ano a ano. A quê se deveu então o superávit de R$ 30 milhões, sendo que o clube tem situação financeira ruim e deve a muita gente?

Houve uma mudança. Tivemos boas receitas de bilheteria, sócio-torcedor, recuperamos patrocínio na Caixa, não tínhamos patrocinador como eles e sem vender os jogadores. Deixei um elenco para a nova diretoria sem vender nenhum jogador. Saiu só o Diogo Barbosa porque a gente tinha um compromisso.

Qual a sua avaliação desse começo da gestão do Wagner Pires de Sá?

Não quero falar nada da gestão do Wagner, porque tive sim responsabilidade na vitória dele. Eu o apoiei, ele foi eleito só porque nós demos o apoio. Os resultados em campo não estão sendo os melhores possíveis. Mas, no caso dele, eu tenho responsabilidade na eleição dele. Eu só não queria que ele ficasse de conversa fiada em relação à minha gestão, como se eu tivesse deixado dívidas. Tive superávit, deixei muitas receitas. Agora é só ele manter o patrocínio da Caixa, sócio, as coisas foram entregues a ele de forma organizada.

O senhor voltaria um dia ao cargo de presidente?

Nunca mais na vida. Nunca tive tanta decepção na vida com pessoas em quem eu confiei. Hoje, estou com a consciência tranquila. Deixei o Cruzeiro organizado, conquistei títulos. Podem falar de erros que cometi em escolhas, mas não podem falar da minha honestidade.

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