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Cruzeiro diz que bloqueou bens de Wagner Pires na Justiça e ajuíza ação de R$ 6,8 milhões contra Itair Machado

Novo processo ainda envolve empresa do ex-vice de futebol e, novamente, o ex-presidente Wagner

postado em 10/07/2020 13:35 / atualizado em 10/07/2020 17:44

(Foto: Divulgação)
O Cruzeiro conseguiu, como resultado inicial da ação que ajuizou na Justiça há cerca de duas semanas, o bloqueio de bens de Wagner Pires de Sá. O ex-presidente, que renunciou ao mandato em dezembro de 2019, foi processado pela gestão do atual mandatário, Sérgio Santos Rodrigues, por valores indevidos gastos com o cartão corporativo da Raposa.

“Entramos com uma ação de ressarcimento contra o ex-presidente (Wagner Pires de Sá) por gasto indevido em cartão corporativo e, com muita satisfação, a gente informa que teve um retorno positivo, de determinação de bloqueio de bens. Estamos esperando um retorno, mas parece que já conseguiram pegar alguma coisa”, informou Sérgio Rodrigues durante live transmitida pelos canais oficiais do clube nesta sexta-feira.

“Agora, o mínimo que seja, só demonstra o nosso objetivo. Não tem problema o quanto por ora, porque vamos correr atrás de tudo. Mas esse é o gesto simbólico de que seremos implacáveis contra quem fez essas coisas contra o Cruzeiro”, complementou o presidente. 

Wagner Pires de Sá foi procurado pela reportagem, mas não atendeu aos telefonemas ou respondeu as mensagens enviadas. 

farra dos cartões de crédito corporativos do Cruzeiro foi revelada em uma série de reportagens do Superesportes. Além de gastos com casas de entretenimento adulto, em Portugal e no Brasil, Wagner e seus diretores usaram o dinheiro do clube para pagar férias na Bahia, lojas de departamento, clínica de estética, delivery de chopp, entre outros.

Clube pede bloqueio de R$ 6,8 milhões em outra ação

Também durante a live, Sérgio Rodrigues informou que o Cruzeiro ajuizou nova ação contra Wagner e outro ex-dirigente. Ele não deu detalhes, no entanto, sobre quem seria o outro alvo na Justiça. Mas se trata do ex-vice-presidente de futebol Itair Machado.

“Essa semana ajuizamos nova ação contra outro ex-dirigente. Não vou poder falar agora porque tem um pedido de bloqueio também, mas corre em segredo de Justiça. Em breve, espero que a gente dê essas notícias. Reafirmo minha confiança no trabalho do Ministério Público e da Polícia Civil (...) Mas no âmbito cível a gente não abre mão de fazer isso”, garantiu Sérgio.

O Superesportes teve acesso ao processo, no qual Wagner Pires de Sá, Itair Machado e a empresa Futgestão Assessoria e Consultoria Esportiva LTDA são réus. O Cruzeiro pediu o bloqueio de R$ 6.861.243,06 das contas dessas três partes. Esse teria sido o valor repassado pelo clube à empresa Futgestão Assessoria Esportiva LTDA, que é de Itair e de sua esposa. Entre outros argumentos, o Cruzeiro alega que seu Estatuto não permite remuneração a vice-presidentes de futebol.

Veja a seguir o pedido do Cruzeiro no processo: "O deferimento liminar do pedido cautelar antecedente formulado, nos termos dos arts. 305 e seguintes do CPC/15, a fim de determinar o bloqueio de valores em contas mantidas pelos Réus e posterior depósito judicial da quantia, equivalente ao montante de R$6.861.243,06 (seis milhões, oitocentos e sessenta e um mil, duzentos e quarenta e três reais e seis centavos), correspondente à soma dos valores pagos em contrato nulo e fraudulento firmado pelos Réus WAGNER ANTÔNIO PIRES DE SÁ e ITAIR MACHADO DE SOUZA com a empresa Ré FUTGESTÃO ASSESSORIA E CONSULTORIA ESPORTIVA LTDA, de maneira a mascarar ilícita remuneração, sendo referida nulidade sustentada em atenção aos arts. 166, inciso II, VI e VII, do Código Civil, por violação ao Estatuto Social da entidade autora, à Lei Estadual 4.946/69 c/c artigo 1º, da Lei Estadual 12.972/98 e ao art. 25, inciso III, da Lei Federal n. 13.155/2015".

Os argumentos do Cruzeiro

Na ação, o Cruzeiro acusa Wagner de transferir a gestão do clube, de forma ilegal, a Itair Machado. “Nada obstante, tem-se que o primeiro réu ainda alterou, fraudulentamente, as estruturas de constituição do Clube (seu Estatuto Social), outorgando os poderes da Presidência do Cruzeiro a uma pessoa estranha à eleição que o elevou à primeira magistratura do Cruzeiro Esporte Clube. Com efeito, o Estatuto da entidade autora permite que o presidente eleito delegue, ainda que por procuração, parte de suas atribuições, exclusivamente, aos 1º e 2º vice-presidentes eleitos”.

O ex-presidente do Clube, o réu Wagner Pires, pois, transferiu, não só por uma, mas por duas vezes, de modo definitivo, o poder de representação e gestão do Cruzeiro Esporte Clube, que houvera lhe sido outorgado por regular eleição, por meio de procuração com amplos poderes em benefício do vice-presidente de Futebol”, agrega a ação.

Outro ponto questionado pelo Cruzeiro é a remuneração prevista para o ex-vice-presidente de futebol Itair Machado, o que contraria o Estatuto do clube. “Para piorar o quadro de teratologia administrativa cumpre enfatizar que o primeiro Réu alterou a constituição básica do Cruzeiro para criar a figura do vice-presidente não eleito e remunerado, mesmo sendo expresso que o presidente apenas poderia incumbir e outorgar procuração para o 1º ou 2º vice-presidente eleito”.

A conclusão do Cruzeiro é que Wagner estabeleceu “regras contratuais ilícitas e determinou os pagamentos fraudulentos, além de ter transferido os poderes do cargo de presidente do Cruzeiro Esporte Clube a quem, estatutariamente, não poderiam ser outorgados, o qual é justamente o beneficiário financeiro dos desvios de recursos”. Assim consta na ação ajuizada contra os dois dirigentes e a empresa de Itair.

Destarte, é de clareza solar que a empresa Futgestão Assessoria e Consultoria Esportiva Ltda. é, apenas, uma empresa criada pelo réu Itair Machado para desviar e perceber vantagem financeira ilícita do Cruzeiro Esporte Clube, enquanto estava ele no exercício do cargo de vice-presidente de futebol da entidade autora, e como tal foi usada para esse fim, pelo que cabe ser desconsiderada sua personalidade jurídica para que seja aberta a via para alcançar, também, a totalidade do patrimônio pessoal de seus sócios como meio de indenizar os prejuízos sofridos pela entidade autora”, acrescenta a ação.

Posicionamento de Itair Machado

Em nota, o ex-vice-presidente Itair Machado alega que não apenas ele, mas todos os ex-vice-presidentes da gestão de Wagner Pires de Sá, tinham remuneração. Logo, ele estranha o fato de o clube ter ajuizado ação exclusivamente contra ele.

"Causa estranheza o fato de não terem ingressado com os mesmos pedidos em desfavor dos demais vice-presidentes executivos, que foram remunerados no mesmo período pelo qual e escrito nessa ação temerária e pessoal. No mais, continuo à disposição para quaisquer esclarecimentos", respondeu Itair Machado.

A seguir, a nota do ex-vice-presidente na íntegra:


"Diante dessa notícia que implica na contratação irregular de serviços prestados na gestão de futebol, não procede, pois, além do cargo de vice-presidente de futebol, foram criados através de portaria interna do clube os seguintes cargos de vice-presidente executivo: 

1) Vice-presidente executivo financeiro;
2) Vice-presidente executivo comercial e marketing
3) Vice-presidente executivo jurídico
4) Vice-presidente executivo de futebol

O Estatuto do clube não proíbe remunerar pelos serviços prestados, declarados e com os impostos já recolhidos. Não se trata de vice-presidentes eleitos em assembleia.

Causa estranheza o fato de não terem ingressado com os mesmos pedidos em desfavor dos demais vice-presidentes executivos, que foram remunerados no mesmo período pelo qual e escrito nessa ação temerária e pessoal. No mais, continuo à disposição para quaisquer esclarecimentos."

As investigações

Ex-dirigentes do Cruzeiro - entre eles o próprio Wagner Pires de Sá, o ex-vice de futebol Itair Machado e o ex-diretor-geral Sérgio Nonato - ainda são investigados por suposta participação em cinco crimes:  falsificação de documentos, falsidade ideológica, apropriação indébita, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

De acordo com o Ministério Público e a Polícia Civil, "o marco das investigações é a gestão iniciada em outubro de 2017". Logo, a administração do ex-presidente Wagner Pires de Sá está sendo objeto de análise.

Em maio, o Cruzeiro entregou um relatório com mais de 600 páginas ao Ministério Público. Trata-se de todo o trabalho desenvolvido pela Kroll, especializada em gestão de risco, investigações corporativas, compliance e cibersegurança. A empresa citou uma série de irregularidades.

No último ano da gestão de Wagner Pires de Sá, o Cruzeiro apresentou um déficit recorde de R$ 394.100.974 em 12 meses, conforme levantamento realizado pela Moore Stephens Consulting News Auditores Independentes. Segundo os auditores, há 'incerteza significativa' quanto à 'capacidade de continuidade operacional do clube' celeste.

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