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Aspirante a piloto de avião, violonista e futuro engenheiro: saiba mais sobre Rafael, sucessor de Fábio na meta do Cruzeiro

Em entrevista ao Superesportes, goleiro reserva da Raposa diz que não gosta de 'ficar parado' e procura muitas atividades além do mundo da bola

postado em 29/04/2019 06:30 / atualizado em 29/04/2019 10:34

<i>(Foto: Arquivo pessoal)</i>
Formado nas categorias de base do Cruzeiro e integrante do grupo principal desde 2008, o goleiro Rafael, de 29 anos, gosta de ocupar o tempo fora do mundo da bola com atividades de muita ação e adrenalina. Uma de suas principais paixões é a aviação. Em entrevista ao Superesportes, ele revelou o desejo de, nos próximos anos, tirar a Licença e Habilitação para Piloto Privado de Avião da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). “Tenho vários amigos pilotos. Isso me fez aproximar ainda mais da aviação, que é uma paixão que eu sempre tive. Sempre fui muito ligado a coisas radicais. Tanto que há uns seis anos brincava bastante de aeromodelo. Com essa proximidade aos amigos que são pilotos, comecei a tirar a carteira da ANAC, passei nos exames médicos e fui estudar para tirar o PP, que é piloto privado”.

Segundo o jogador, a tragédia da Chapecoense, que em novembro de 2016 vitimou 71 pessoas (jogadores, comissão técnica, dirigentes, jornalistas e tripulantes), o fez desanimar um pouco da ideia, até por um pedido da própria família. No futuro, quando se sentir mais bem preparado, retomará as aulas. “Estava estudando há uns seis anos, só que depois dei uma parada depois daquela fatalidade da Chapecoense. Acabei desanimando um pouco, minha família pediu para que eu não tirasse carteira, porque se eu tirasse, ia querer voar cada vez mais. Meus pais sempre foram resistentes a isso, têm medo de avião, então recuei um pouco. Mas em nada diminui a minha paixão pela aviação. Quem sabe um pouco mais à frente eu dê continuidade ao curso e tire a carteira. É algo que gosto muito e acho fascinante”.



Rafael afirmou conhecer a história de Rômulo, goleiro do Atlético de 1986 a 1991 que se tornou piloto de voos comerciais depois de parar de jogar futebol. No caso do camisa 12 cruzeirense, a aviação funcionará apenas como hobby. Ele não descartaria, contudo, uma oportunidade de conduzir uma aeronave de grande porte. “Quem curte aviação e sempre tem vontade de tirar carteira está mentindo se falar que não tem vontade de pilotar um Boeing ou outro de porte maior. Quanto maior o avião, mais recursos ele tem, mais alto ele voa, mais rápido ele é, mais equipamentos tem para te auxiliar. É fascinante. Quanto mais você aprende, mais fascinado fica”.

Sempre que tem a oportunidade, o goleiro conversa bastante com a tripulação dos aviões nas viagens do Cruzeiro. Curioso, pergunta tudo sobre funcionamento e recursos tecnológicos. Os painéis repletos de botões e monitores o fascinam. E por ser um estudante dedicado, não se assusta, por exemplo, quando a aeronave passa em alguma zona de turbulência no espaço aéreo. Questionado se algum colega de elenco teme voar, ele não esconde: “O Dodô, se puder, vai sempre de carro ou ônibus. É verdade. E ele fala isso com a maior tranquilidade. Quando a cidade é mais próxima, como no Rio de Janeiro, prefere pegar seis a oito horas de ônibus a voar. Nas viagens é engraçado. Se tem turbulência, a galera já olha para ele. Se a gente tem um pouco de receio, ele já está desesperado na cadeira”.

Rafael garante que ainda convencerá o lateral-esquerdo da segurança da aviação. “Toda viagem que o Dodô puder fazer para ir de carro ou ônibus, ele vai. Temos que respeitar. Quem sabe um dia eu converso com ele e mostro que é mais seguro viajar de avião do que de carro. Mas pelo que sei, é difícil conhecer”.

<i>(Foto: Arquivo pessoal)</i>

Outros hobbies

Nas férias de fim de ano, em 2018, Rafael viajou com a noiva, Bruna, para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Pela primeira vez, ele teve a experiência de saltar de paraquedas. “Meus pais não são nada aventureiros e não curtem muito isso. Eu entendo a preocupação, mas eles não conseguiram me frear nisso. No fim do ano passado, viajei com a Bruna, minha noiva, e no cronograma tinha saltar de paraquedas no avião. O engraçado é que não tinha horário para a gente. Não sosseguei enquanto não consegui. Fui lá, implorei, disse em inglês para o cara que precisava saltar, foi bem legal saltar a 10, 12 mil pés de altura. A sensação é incrível. Todo mundo tem medo de saltar de um avião, mas a vontade foi muito maior. A sensação é única mesmo. Foi a mais próxima que tive até hoje de entrar em campo com 50 a 60 mil pessoas no estádio, com emoção, expectativa e adrenalina. Jogador de futebol vive refém da adrenalina de jogos, de competição. Talvez seja isso que me faça ser apaixonado por esportes radicais”.

O suplente de Fábio também se mostra muito habilidoso para tocar violão. Em seu Instagram, Rafael já publicou vídeos fazendo dupla sertaneja com o volante Uillian Correia, que passou pelo Cruzeiro entre 2015 e 2016 e defende atualmente o Bragantino. E o canal da Raposa no YouTube divulgou imagens do goleiro recebendo a dupla mirim Maria Clara e Mariana, participante do programa The Voice Kids, da TV Globo. Rafael conta que o talento musical foi desenvolvido por conta própria.

<i>(Foto: Reprodução/YouTube/Cruzeiro)</i>

“Na base do Cruzeiro, quando tinha 17 anos, quis aprender a tocar violão. Resolvi tentar, porque é legal e ajuda a passar o tempo na concentração. Eu ainda morava na Toquinha. Lembro-me que fui perto da rodoviária de Belo Horizonte e fui a uma loja de instrumentos. Entrei na loja e perguntei ao vendedor: ‘qual o violão mais barato que você tem?’ Ele respondeu: ‘é esse aqui. Custa R$ 80’. Só que eu sou canhoto, então perguntei a ele: ‘você consegue inverter as cordas?’. Ele respondeu que sim. Aí pensei: ‘vou tentar. Se der certo, bem. Se não, é o mais barato mesmo, eu encosto’. Passei na banca e comprei aquelas revistas que ensinam (a tocar) e falei: ‘vamo embora’. Os caras que moravam comigo ficaram loucos. Foi um mês escutando, lendo revistinha, assistindo ao YouTube, e não saía nada. Mas depois foi saindo uma música. Depois, passei a tocar dez músicas. No começo, não ia pelo gosto musical, mas no que dava para tocar com as cifras. Aí foi indo, foi indo, foi indo e aprendi a tocar sozinho. Hoje o violão é um grande parceiro nas horas em que quero distrair”.

Amante da música sertaneja raiz, Rafael ainda faz roda de viola na concentração do Cruzeiro. “Hoje em dia toco às vezes quando fazemos uma reunião, precisa de alguém para tocar um louvor, ou então chega o pessoal no quarto. Também toco sozinho. O violão se tornou um grande parceiro na minha vida. Tenho um violão que deixo em casa e outro na concentração. Hoje em dia toco mais sertanejo, que é o que mais escuto. As músicas mais antigas me agradam. Toco muito Bruno & Marrone, César Menotti & Fabiano, essa linha”.


Ao mesmo tempo em que curte esportes radicais para elevar a adrenalina, Rafael baixa os ânimos e busca tranquilidade na pescaria. “Sou um cara hiperativo. Meu terapeuta-psicólogo é a pescaria. É o momento em que eu quero ter o contato com a natureza, ficar tranquilo. Depois que comecei a pescar, incentivei meu pai. Ele, que nunca tinha pescado na vida, agora está indo viajar ao Pantanal para pescar. Gosto também de aeromodelismo, de esportes radicais, de altura, de salto, mergulho. Não consigo ficar parado”. Outra ocupação é o curso de Engenharia Civil a distância na universidade UninCor. O goleiro brinca que fará estágio na construção da própria casa. “Bom que vou aprender a fazer tudo. Meu pai é engenheiro civil, meu irmão é engenheiro civil, minha mãe é engenheira eletricista. Sou um cara que não gosta de ficar parado”.

No mundo virtual, Rafael é adepto ao Counter Strike, jogo de tiro no qual os “clãs” de terroristas e contra-terroristas batalham entre si. O lateral-esquerdo Dodô, também praticante do game, é parceiro do goleiro desde os tempos de base do Cruzeiro. “Na época em que ele chegou à base, ele é um pouco mais novo que eu, eu tinha uns 15 anos e ele deveria ter 13. Na lan house só era permitido chegar para jogar com mais de 15 anos. Eu assinava para ele. Você pode perguntar ao Dodô: eu fui um dos caras que incentivaram ele. Dodô começou comigo indo para a lan house. Era meu parceirão. Depois ele foi para o Corinthians, e eu fiquei aqui. Olha só que engraçado: hoje a gente continua jogando. Íamos muito à lan house perto da Toquinha. Era isso ou soltar pipa, as duas coisas que tinham para fazer”.

Os momentos de lazer e descontração no Counter Strike rendeu a Rafael outras amizades no futebol. “Hoje em dia o Mancuello, que saiu e foi para o México, ainda joga com a gente. O Lucas Silva joga com a gente aqui. Dodô, Lucas Silva e eu estamos conectados no jogo. A gente enfrenta muita gente. Jogamos contra o time do goleiro Jean, do São Paulo, do Arão, que joga no Flamengo. Fazemos uns confrontos. O Andrigo, que hoje está no Vitória, tornou-se um grande amigo. Jogamos contra e a favor. Tornei-me amigo de muitos jogadores que enfrentava no futebol por causa do Counter Strike”.

<i>(Foto: Counter Strike/Reprodução)</i>

Futebol

É inevitável pensar que Fábio, de 38 anos, está na reta final de carreira. Jogador que mais vestiu a camisa do Cruzeiro, com 828 partidas, o experiente goleiro tem contrato até dezembro de 2020. Rafael, por sua vez, atuou em 109 jogos, quase sempre mostrando bastante potencial para ser titular de qualquer clube do futebol brasileiro. Por que, então, prefere seguir como suplente a buscar oportunidade em outra equipe? O camisa 12 enumera muitos motivos para permanecer em Belo Horizonte.

“O Cruzeiro é um dos maiores clubes do mundo e está sempre brigando por títulos. É um clube que, desde a minha chegada, sempre acreditou em mim. Então eu tenho vários motivos para estar feliz aqui. Foi o clube que me abriu as portas, acreditou no meu trabalho e ajudou na minha formação com os excelentes profissionais que aqui trabalham. Cheguei aqui com o sonho de ser goleiro, e foi com os treinamentos do dia a dia que evolui, aprendi e cresci. Sempre fui muito confiante no meu trabalho. A diretoria, a comissão técnica e os torcedores também sempre respeitaram o meu trabalho. Isso me faz criar vínculos e, de certa forma, anima a fazer o melhor trabalho pelo clube que torço desde pequeno. Estou com a cabeça voltada para o Cruzeiro, em ajudar da melhor maneira possível e sigo fazendo o meu melhor. O Cruzeiro me proporcionou grandes coisas. Tenho dois títulos do Brasileiro e dois da Copa do Brasil porque permaneci num clube que dá estrutura para que os atletas e a comissão técnicas briguem por títulos. Sempre fui muito querido aqui, então isso me fez sempre querer estar aqui. Sinto-me em casa trabalhando no Cruzeiro. Por tudo isso e pelos 17 anos que estou no clube”.

<i>(Foto: Euler Junior/Estado de Minas )</i>

Recentemente, o técnico Mano Menezes deu entrevista dizendo que dois clubes haviam procurado o Cruzeiro manifestando o interesse na contratação de Rafael. Não houve abertura de negociação justamente pela confiança do comandante em seu futebol. O próprio goleiro prefere se manter longe de especulações, concentrando-se exclusivamente nos treinamentos.

“A gente escuta e sabe de algumas coisas que chegam, mas sempre procurei centralizar isso nas figuras do empresário, do meu pai e do clube. A partir do momento em que começo a pensar demais nos fatores extracampo, acredito que pode me atrapalhar no rendimento dentro de campo. Tenho que focar muito no meu trabalho de campo e deixar que meu empresário e meu pai resolvam com a diretoria. Agindo dessa maneira, faz com que eu saiba um pouco menos de times e propostas e foque mais no meu trabalho, que é fazer dentro de campo. Mas fico feliz e lisonjeado de propostas chegarem. Isso é sinal de que o trabalho da preparação de goleiros do Cruzeiro está sendo bem feito”.

<i>(Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)</i>
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Sempre que tem oportunidade, Rafael enaltece o trabalho dos preparadores de goleiros, Robertinho e Leandro Franco, para manter o alto nível entre os atletas da posição. “A maioria das entrevistas que você for ver, todos os goleiros do Cruzeiro sempre agradecem o trabalho do Robertinho e do Leandro Franco. Claro que é a comissão toda, mas eles estão diariamente focados conosco, são os nossos treinadores. E a gente faz isso como forma de agradecimento, porque eles são muito importantes. Não é apenas o Fábio, o Vitor Eudes ou Rafael que está no gol, mas também o trabalho deles que também está sendo mostrado. Eles não estão em campo, mas temos que agradecer, pois somos o que treinamos. O futebol é repetição, é treinamento, é dedicação. Isso vai de preparar para, na hora do jogo, fazer uma defesa. Bem preparado, você é um milésimo de segundo mais rápido e toma a melhor decisão para fazer a defesa. No meu caso, que ainda não há uma sequência de jogos ou entro em um período longo sem atuar, o treinamento se torna ainda mais essencial para que eu possa fazer o meu melhor. A exigência, a cobrança, o treinamento: tudo que eles fazem por nós, é para o nosso bem. Sabemos disso e agradecemos tanto a eles, porque se hoje o Cruzeiro tem recebido elogios na preparação dos goleiros é por conta desses profissionais”.

Sucessor de Fábio

A respeito de herdar a titularidade de Fábio em longo prazo, Rafael se preocupa apenas com a situação de momento. “Eu penso muito no hoje. Penso em poder contribuir da melhor maneira, fazer o meu melhor, independentemente se terei sequência ou não. Acredito que todos nós, jogando muito ou pouco, temos importância nas vitórias, nas derrotas e no desfecho do ano. Quero melhorar a cada dia, dedicar-me ainda mais, evoluir, ajudar quando estiver em campo, fazer de cada próximo jogo o mais importante da minha vida. Vou assim, fazendo pequenas metas e pensando em curto prazo. O futuro a Deus pertence. Sou um cara que tem muita fé e deixo nas mãos de Deus. No Cruzeiro, se for o Fábio, o Rafael, o Vitor Eudes, o Marlon ou o Vinícius, sempre queremos que o time saia vencedor. Fazemos o nosso melhor para que isso aconteça. Enxergamos não como uma competição individual, mas como um time de goleiros que vai fazer de tudo para que o Cruzeiro saia vencedor nos jogos”.

O respeito mútuo entre os goleiros, aliás, é um dos segredos para o bom trabalho pelo Cruzeiro. “Sempre tivemos uma relação profissional e de amizade muito boa e de bastante respeito. Isso é bom, porque treinamos muito e nos cobramos muito também. Nosso nível de exigência aumenta ainda mais, nunca houve acomodação de parte alguma. Nossa amizade dura tanto tempo e é tão tranquila de lidar por isso. Somos muito positivos em tudo e sabemos da nossa importância. Levamos a questão de o Cruzeiro ser o mais importante de tudo. Essa amizade vai durar para sempre. Vejo que em alguns clubes, tem aquela questão de ter aquela preferência: ‘ah, eu tenho que gostar de um ou de outro’. Aqui é muito legal, pois não tem isso. Os torcedores gostam dos goleiros em si. Quem estiver em campo, eles sabem que fará o melhor para representar o Cruzeiro”, encerra Rafael.

<i>(Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)</i>

Ficha do jogador

Nome: Rafael Pires Monteiro

Data de nascimento: 26/06/1989

Idade: 29

Naturalidade: Coronel Fabriciano/MG

Altura: 1,91m

Clube: Cruzeiro, desde agosto de 2002

Títulos: Campeonato Mineiro (2008, 2009, 2011, 2014 e 2018), Campeonato Brasileiro (2013 e 2014) e Copa do Brasil (2017 e 2018)

Seleção Brasileira: campeão sul-americano e vice-campeão mundial sub-20, em 2009


Jogos de Rafael por ano no Cruzeiro

2008 - 1

2009 - 1

2010 - 7

2011 - 8

2012 - 4

2013 - 5

2014 - 3

2015 - 6

2016 - 26

2017 - 34

2018 - 13

2019 - 1


Goleiros que mais jogaram pelo Cruzeiro:

1 – Fábio (2000; 2005/presente) – 763 jogos

2 – Raul – (1966/1978) – 557 jogos

3 – Geraldo II (1934/1955) – 388 jogos

4 – Dida (1994/1998) – 306 jogos

5 – Geraldo I (1927/1945) – 276 jogos

6 – Paulo César Borges (1989/1998) – 264 jogos

7 – Luiz Antônio (1978/1986) – 241 jogos

8 – Hélio (1971/1978) – 207 jogos

9 – Vítor (1971/1984) – 183 jogos

10 – Gomes I (1982/88) - 180 jogos

11 – Genivaldo (1956/1961) – 131 jogos

12 – Mussula (1955/1963) – 126 jogos

13 – André (1999/2003) – 123 jogos

14 – Rossi (1956/1961) – 122 jogos

15 – Gomes II (2002/2004) – 110 jogos

16 – Rafael (desde 2008) – 109 jogos

17 – Tonho (1962/1970) – 88 jogos

18 – Jefferson (2000/2002) – 81 jogos

19 – Wellington (1986/1989) – 80 jogos

20 – Fábio (1963/1966) – 78 jogos 

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