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Vídeos da sede do Cruzeiro mostram esposa de Wagner Pires pegando documentos de secretária do Conselho Deliberativo

Fernanda São José também expulsou Hellen Caroline da sede administrativa

postado em 01/07/2019 17:00 / atualizado em 01/07/2019 18:25

<i>(Foto: Reprodução)</i>
Imagens das câmeras de segurança da sede administrativa do Cruzeiro mostram a advogada Fernanda Moraes de São José, esposa do presidente Wagner Pires de Sá, pegando documentos do Conselho Deliberativo e demitindo a secretária da presidência do órgão, Hellen Caroline Carvalhais Rocha.

O Superesportes teve acesso aos vídeos registrados no fim da manhã de 18 de junho (assista abaixo). À noite, Hellen Caroline fez boletim de ocorrência na 5ª Companhia do 1º Batalhão de Polícia Militar, em Belo Horizonte.


A versão dada pela secretária do Conselho é comprovada pelo circuito interno de segurança do prédio. Acompanhada de Alexandre da Rocha Comoretto, um dos diretores da sede campestre, Fernanda São José passou em frente à recepção da sala. Nesse instante, o relógio do monitor marcava 12h06

Às 12h10, a mulher de Wagner Pires fez um sinal ao segurança Guilherme Barros da Silva e apontou o dedo em direção a Hellen Caroline. Em seguida, retirou documentos que estavam com a secretária e também das gavetas da mesa.

Às 12h11, uma mulher acessou o local pelas escadas do imóvel. Conforme o boletim de ocorrência, ela seria Cleonice Maria da Piedade, funcionária do departamento de recursos humanos do Cruzeiro.

Às 12h13, Fernanda, Hellen, Cleonice e Guilherme entraram no elevador do edifício. Já no térreo, a secretária da presidência do Conselho Deliberativo deixou a sede administrativa por ordem da mulher de Wagner.

Versão de Hellen Caroline


No BO, Hellen Caroline relatou à Polícia Militar que teve o login no computador e o e-mail bloqueados ao chegar para trabalhar. Pouco depois, Fernanda São José entrou repentinamente na sala para extrair documentos do Conselho Deliberativo e perguntou insistentemente onde se encontrava Rogério Nunes, assessor do presidente do órgão, Zezé Perrella.

Ao afirmar que não sabia da localização de Rogério e tentar impedir o acesso aos documentos, Hellen acabou demitida do Cruzeiro pela própria esposa de Wagner.

Ainda de acordo com Hellen Caroline, Fernanda tentou lhe tomar o aparelho celular com o intuito de descobrir se havia algum tipo de gravação do episódio. Em seguida, recusou-se a assinar a carta de demissão da funcionária, porém assegurou que a dispensa havia sido motivada por “ordem da presidência do clube”.

<i>(Foto: Reprodução)</i>

Palavra de Zezé Perrella


No dia 18 de junho, o Superesportes procurou Zezé Perrella, presidente do Conselho Deliberativo do Cruzeiro. Inicialmente, ele minimizou o episódio e o definiu como“discussão de trabalho sem a maior relevância”. Duas horas depois, entrou em contato com a reportagem e disse que se manifestaria por meio de nota, após tomar ciência exata dos fatos. Ainda assim, adiantou que a secretária foi readmitida pelo presidente Wagner Pires meia hora depois da confusão.

“Ela foi demitida pela Fernanda, que não tem poder de demissão. O presidente Wagner, logo que chegou ao clube, quase em seguida, tomou conhecimento e a readmitiu. Ela não foi demitida, porque a pessoa que a demitiu não tinha poder para isso”, disse Perrella.

Apesar de ter obrigações exclusivas com o Conselho Deliberativo, órgão distinto da administração do Cruzeiro, Hellen Caroline é registrada como empregada da instituição, cujo vínculo laboral se iniciou em meados de 2018.

Fernanda São José preside o Instituto 5 Estrelas, fundado em 2017 como projeto de inclusão social para crianças e adolescentes. Oficialmente, ela não tem nenhum cargo na diretoria, mas goza de influência para tomada de decisões em vários departamentos do clube.

<i>(Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)</i>

Denúncias


A diretoria do Cruzeiro é investigada pela Polícia Civil de Minas Gerais por suspeitas de crimes de lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e falsidade ideológica, além de possíveis quebras de regra da Fifa, da Confederação Brasileira de Futebol e do Governo Federal.

Os escândalos no clube vieram à tona após matéria exibida no programa Fantástico, da TV Globo, em 26 de maio. À época, foram divulgadas irregularidades em transações e valores superfaturados pagos a empresas prestadoras de serviço. A PCMG já havia ouvido 15 pessoas que mantinham alguma relação com o clube, entre elas funcionários, ex-empregados, dirigentes e agentes esportivos.

A denúncia mais grave era sobre um empréstimo de R$ 2 milhões contraído pelo Cruzeiro com o empresário Cristiano Richard dos Santos Machado, sócio de firmas que atuam na locação de veículos e de equipamentos de proteção.

Como forma de quitação do débito, o clube, segundo inquérito da Polícia Civil, incluiu parte dos direitos de jogadores do profissional, como David (20%), Raniel (5%), Murilo (7%), Cacá (20%), e de outros que passaram pela base e foram negociados, casos de Gabriel Brazão (20%) e Vitinho (20%).

O clube ainda inseriu participação em uma possível venda do promissor Estevão William, de apenas 12 anos, que, pelas leis trabalhistas, só poderá assinar vínculo laboral a partir dos 16.

Outras operações apuradas pela Polícia Civil são os aumentos substanciais nos salários de dirigentes, a contratação de conselheiros para prestação de serviços e o pagamento a torcidas organizadas.

<i>(Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)</i>

Vale lembrar que o clube aumentou a dívida geral de R$ 384 milhões, em 2017, para R$ 520 milhões, em 2018, e ainda não teve o balanço financeiro aprovado pelo Conselho Fiscal.

Nos últimos dias, o presidente Wagner Pires de Sá e o diretor jurídico Fabiano de Oliveira Costa deram depoimentos na sede da Polícia Federal em Belo Horizonte, no Bairro Gutierrez, Região Oeste do município. A ação fez parte da Operação Escobar, que investiga vazamento de documentos sigilosos da PF.

Márcio Antônio Camillozzi Marra e Paulo de Oliveira Bessa, escrivães da corporação, foram presos no último dia 5 de junho, bem como os advogados Carlos Alberto Arges Júnior e Ildeu da Cunha Pereira.

Curiosamente, Márcio Antônio Camillozzi havia sido nomeado por Zezé Perrella para fazer parte da comissão de sindicância que averigua denúncias de corrupção da diretoria do Cruzeiro.

Ildeu da Cunha Pereira, por sua vez, já ocupou cargo de superintendente jurídico do clube. Já Carlos Alberto Arges Júnior representou o vice-presidente de futebol Itair Machado em um processo contra o ex-dirigente Bruno Vicintin.

Convocação


Wagner Pires de Sá prestará esclarecimentos a conselheiros do clube em reunião extraordinária no dia 8 de julho, às 18h30, no Salão Nobre do parque esportivo do Barro Preto. Ele ignorou a negativa de Zezé Perrella, que desejava manter o encontro para 5 de agosto, marcado para discutir um possível afastamento da atual administração.

Em nota oficial, o presidente prometeu “tornar público e ainda mais transparentes as circunstâncias e a documentação entregue à Comissão de Sindicância instaurada”.

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