Futebol Nacional

ESTÁDIOS

Clubes montam locais especiais nos estádios com balada e atividades para família; Mineirão foi um dos pioneiros

Estádios já têm espaços de entretenimento para atrair novos torcedores

postado em 24/03/2019 10:04 / atualizado em 24/03/2019 10:07

<i>(Foto: Mineirão/Divulgação)</i>
Palmeirense que vai a todos os jogos do clube, dentro e fora do Brasil, o professor Rafael Rodrigues Alboccino decidiu comemorar o último Dia dos Pais no Allianz Parque. Ele nem bem havia chegado de outro jogo no Paraguai pela Copa Libertadores. Em São Paulo, pegou sua filha, Luna Emanuelle, de 8 anos, e comprou os ingressos para o estádio. A menina gostou. Onde ficou, havia pipoca, comida, refrigerante, brincadeiras com os monitores e pebolim. Se quisesse, tinha até o jogo de futebol. Os divertimentos não foram preparados só para a data festiva. Eles exemplificam uma nova tendência: estádios com serviços e atrações de entretenimento para atrair novos torcedores, fazendo com que eles passem mais tempo no estádio. E, obviamente, consumam mais.

O Mineirão foi um dos primeiros estádios do Brasil a reunir futebol e entretenimento. No contexto de modernização da arenas em função da Copa do Mundo de 2014, o principal estádio de Minas Gerais inaugurou o Mineirão Tribuna em março de 2016 e ofereceu, entre outras atrações, shows musicais com bandas locais e nacionais antes e nos intervalos das partidas. 

Hoje, a Minas Arena, concessionária que administra o estádio, aposta alto nas receitas obtidas com as áreas de hospitalidade. Os clubes que jogam lá (Atlético e Cruzeiro) não pagam aluguel pelo uso do estádio e ficam com a receita das bilheterias. "Quando falamos da venda de ingressos nos jogos, a concessionária se remunera exclusivamente com a receita proveniente das áreas de hospitalidade", diz Samuel Lloyd, diretor do Mineirão. 

De acordo com a concessionária, 70% dos espaços são ocupados com permissionários referentes às vendas anuais. Já a venda avulsa, que tem relação direta com o apelo de cada partida, tem média de ocupação de 80%. 

A decisão do Atlético de deixar o Independência e voltar a atuar no estádio neste ano, depois de um praticamente ano e meio afastado, traz novas perspectivas de venda dos camarotes até o final da temporada. 

Os valores de um assento variam de acordo com a competição em disputa, os times envolvidos e as variações do mercado local. No Mineirão, os espaços para 18 a 20 pessoas variam de R$ 90 mil a 150 mil por ano. Já o preço para a venda dos espaços por partida acompanham os tíquetes do jogo, definidos às vésperas dos confrontos. 

A maior parte dos espaços é ocupada por empresas que investem em relacionamento com os clientes, parceiros e funcionários. Em menor quantidade, alguns espaços são ocupados por grupos de torcedores que se unem para garantir seus lugares em todos os jogos de seu time em um espaço exclusivo. O público dos camarotes é formado principalmente por empresários, familiares de atletas, diretoria de clubes. Em geral, os usuários procuram comodidade de acesso, espaço garantido para assistir aos jogos e serviços personalizados.

A exemplo do que acontece nas arenas paulistas, o Mineirão aposta em atrações diferenciadas, além do futebol, como a recreação infantil e alimentação, por exemplo. "Vir ao estádio de futebol pode ser uma experiência completa de entretenimento para o torcedor. Envolver o torcedor desde o momento que chega ao estádio, criando um ambiente agradável, divertido e desejado contribui para que o espetáculo seja ainda completo", opina Lloyd.

ITAQUERÃO

O camarote do Corinthians abre as portas para 300 pessoas quatro horas antes do início das partidas. Por meio de uma autorização especial da PM, o espaço localizado no setor Oeste vende bebidas alcoólicas até duas horas antes do jogo. A exemplo do estádio palmeirense, o espaço oferece barbearia, videogame, mesas de sinuca, pebolim, palco para apresentação musical e DJ’s, open bar, churrasco e hamburgueria. Também faz parte das atrações dos camarotes a presença de ex-atletas, que circulam para serem notados.

Tem barbearia? Isso mesmo. "O futebol tem de ser visto como entretenimento que vai além dos 90 minutos de jogo", diz Leonardo Rizzo, dono de uma empresa que possui camarotes em três estádios paulistas. "É uma tendência mundial que pude perceber em viagens por mais de 40 países", diz.
<i>(Foto: Corinthians/Divulgação)</i>

Mauro Corrêa, da empresa de gestão esportiva Golden Goal e especialista no mercado de hospitalidade, concorda com a inovação. "Esses serviços são a forma de o futebol competir com outras opções de lazer, como cinema, teatro ou uma viagem em família", conta.

O negócio não é unanimidade. Alguns corintianos protestaram nas redes sociais quando o clube inaugurou uma piscina de dois metros de diâmetro e 80cm de profundidade, que fica em uma área vip. É um camarote dentro do camarote que custa R$ 4 mil para dez pessoas. Na opinião dos críticos, o espaço é uma ostentação, distante do perfil dos torcedores médios.

Vale lembrar que metade do público é formado pelo segmento corporativo, ou seja, empresas que compram os assentos para negócios e relacionamento com seus próprios clientes.

Para o jogo Corinthians x Ceará, pela Copa do Brasil, na próxima quarta-feira, os ingressos para o camarote, sem acesso à área da piscina, custam de R$ 200 a R$ 390. A diferença dos valores é apenas o local em que o torcedor pode acompanhar a partida, todos oferecem os mesmos serviços extras. Como comparação, um lugar no setor Norte da Arena Corinthians, o setor mais em conta custa R$ 30. "Vivemos fase difícil no País, mas em algum momento eu acho que o torcedor deve se dar esse presente", diz o implantodontista palmeirense Marcos Inohue.

Os camarotes também têm o desafio de superar os altos e baixos dos clubes. A taxa de ocupação dos camarotes de Corinthians é Palmeiras é de 95% enquanto a do Morumbi está na casa de 70%. A diferença está no desempenho dos times: os dois primeiros têm títulos recentes, mas o São Paulo soma sete anos sem conquistas. A média do mercado é ocupação de 50%.

Independentemente dos valores e das intempéries das equipes, os espaços atraem novos torcedores. Inoue leva os filhos Marcos e Giselle e a mulher Gislaine ao estádio do Palmeiras. O empresário corintiano Youssef Turk, brasileiro de origem libanesa, convenceu a mulher, Terylaine Turk, a ir ao estádio só por causa dos diferenciais que o espaço oferece. "Os estádios que não oferecerem algo diferente serão ultrapassados", diz Inoue.

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