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Protagonistas em campo, negros são relegados dos cargos de gestão de clubes da Série A; veja levantamento

Apenas 3% de dirigentes e treinadores da elite do futebol brasileiro são negros

postado em 25/04/2019 06:00 / atualizado em 25/04/2019 13:25


Em campo, os negros terão papel de destaque no Campeonato Brasileiro, que começa neste fim de semana. Dedé, do Cruzeiro, Gabigol, do Flamengo, Rodrygo, promessa do Santos pela qual o Real Madrid desembolsou R$ 193 milhões pela contratação, e Jean Pyerre, do Grêmio, são alguns que desfilarão elegância nos gramados brasileiros, a partir de sábado, na disputa da Série A. Entretanto, nas áreas de comando do futebol dos times da Primeira Divisão, negros são exceção.

Levantamento do Superesportes mostra que apenas três entre 100 dirigentes e treinadores da Série A são negros (veja artes com a relação de todos os nomes ao longo da matéria): o técnico Roger Machado, do Bahia, o diretor do Grêmio, Deco Nascimento, e o assessor de futebol do Palmeiras, Zé Roberto. A investigação levou em conta os cargos de presidente, vice de futebol, diretor, gerente, executivo, coordenador, supervisor e técnico (inclusive os interinos) dos 20 clubes da elite do futebol brasileiro. Precisar quem é negro ou não, especialmente num ambiente de miscigenação da população nacional, muitas vezes vai além de aspectos físicos, mas considera também a autoidentificação. A pesquisa, porém, não localizou relatos em que os outros 97% tenham se declarado negros.



O professor Bruno Otávio de Lacerda Abrahão, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), diz que essa ausência é um reflexo do “racismo à brasileira”. “É uma especificidade do modo que o Brasil desenvolveu uma forma particular de racismo. Esse racismo prima pela existência de dois polos, da inclusão e da exclusão, essa ambiguidade. E o futebol revela isso”, diz.

“No discurso nacionalista, a sociedade brasileira incluiu o negro, mas sempre em espaços definidos. No projeto de nação forjado no Brasil a partir dos anos 1930, atribuiu-se um novo olhar da mestiçagem, do negro, do mulato ligado aos atributos do corpo, da ginga. Com efeito, o futebol, a capoeira, o samba se tornaram espaços sociais de expressão da 'raça negra'. Por outro lado, este projeto distanciou o negro das atividades intelectuais. Embora necessitemos de mais estudos na área, pode-se notar no futebol essa falta de representatividade do negro nos cargos de comando, de responsabilidade”, acrescentou o professor.

Se hoje enfrenta dificuldade em ascender a cargos de liderança, o negro sofreu a rejeição da elite do futebol nos primórdios do esporte no Brasil. A cor da pele e a condição social eram decisivas na aceitação dos jogadores, sendo raras as exceções. Mesmo com a inserção nos gramados, o negro ainda era excluído de ambientes sociais, como as festas aristocráticas nas sedes dos clubes no início do século XX.

“O lugar do negro no futebol sempre foi restrito. No processo de popularização do futebol, nos anos 1930, ele ganha o espaço nos clube, mas não tem lugar na sede social, nos eventos da elite. O espaço dele é restrito ao campo de jogo. O mesmo pode ser visto na cúpula dos clubes: quem manda ainda é o homem, branco e heterossexual. Muitas vezes, a exceção que confirma a regra é usada para encobrir esse universo majoritariamente branco, caso do Roger, que é treinador”, observa Abrahão.

O racismo era tão 'naturalizado' no futebol que ecoava entre os próprios negros. O jornalista Mario Filho, na obra clássica “O Negro no Futebol Brasileiro”, relata uma conversa que ouviu de um jogador do Fluminense. “Eu já fui preto e sei o que é isso”, disse Róbson, em frase depreciativa aos negros, como ele próprio. O escritor analisou esse período no livro: “Realmente os pretos do futebol procuraram, à medida que ascendiam, ser menos negros. Esquecendo-se de não se lembrar, mesmo em alguns casos, que eram pretos. Mandando esticar os cabelos, fazendo operações plásticas, fugindo da cor”, relata Mario Filho.  

Atualmente, o racismo está presente no futebol de diversas formas, das mais explícitas, como os gritos de macaco dos torcedores do Grêmio contra o goleiro Aranha, em  2014, até os modos mais discretos, como o ocorrido com o ex-jogador Tinga, que começou a carreira na gestão de futebol no Cruzeiro, em 2016.

Em pouco tempo no cargo, Tinga ganhou a admiração de atletas e torcedores. Os frutos do trabalho foram colhidos em 2017: a Raposa conquistou a Copa do Brasil. No fim daquele ano, o dirigente preferiu se desligar do clube após as eleições presidenciais.

<i>(Foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)</i>


Antes desse sucesso como dirigente, Tinga recebeu convite para trabalhar em uma equipe da elite do futebol brasileiro. Em uma conversa com um dirigente, o racismo velado apareceu supostamente em tom de brincadeira. "Antes de o Cruzeiro me convidar, outro clube da Primeira Divisão me chamou para assumir um cargo de direção. Durante as conversas, um dirigente, que não vou revelar o nome, me pediu para cortar o cabelo. Eu tenho cabelo grande, com dread. Respondi, em tom de brincadeira, 'você quer o meu cabelo ou o meu serviço?'. Acabei não indo trabalhar neste clube".

Tinga demonstra incômodo com os poucos negros em cargos de comando do futebol brasileiro. “Acho que isso é uma coisa que acontece em todas as áreas do trabalho. Pessoalmente, não posso reclamar de nada, já que me foi dada a oportunidade e ela foi muito proveitosa tanto para o clube, já que fomos campeões, quanto para mim. Mas acho intrigante saber que nossos melhores jogadores são negros, tem raízes negras. O melhor jogador da história, Pelé, é negro. Se você pegar todos os jogadores brasileiros eleitos melhores do mundo [Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká], apenas o Kaká não é negro ou pardo. Mas em cargos de diretoria você não encontra. É intrigante isso. Eu vejo de duas formas. Primeiro, será que as pessoas estão preparadas para ser dirigidas por negros? Talvez não. E a outra é será que as pessoas negras enxergam que vão ter essa oportunidade, por esse histórico de apenas brancos, e se preparam para isso? Isso me incomoda", analisou.

Depois da saída do Cruzeiro, Tinga recebeu convites, mas preferiu seguir outro caminho. “Tive inúmeras oportunidades, mas tenho outros projetos. Até hoje o telefone continua tocando. Fiz um trabalho consistente, sendo negro, com dred e capacitado. Não queremos trabalhar no futebol porque somos negros. Queremos trabalhar porque também somos capacitados. Eu estudei para isso, corri atrás, fiz cursos, vivi o dia a dia".

A culpa também é do negro?

Um dos poucos neste ambiente administrativo dos clubes, Deco Nascimento conseguiu crescer no Grêmio mesmo não tendo no currículo o passado como jogador. Após trabalho consistente na direção da escola de futebol do Tricolor, chegou ao cargo de diretor de futebol. Ele diz que o negro deve combater esse predomínio do branco com muito estudo e preparação.

“A ausência de negros em cargos de gestão no futebol passa pela falta de formação e capacitação, antes da discriminação. À medida que os negros se capacitarem com excelência para estes cargos, certamente aumentará bastante a ocupação neste nicho de mercado”, disse Deco. “No ambiente corporativo privado, temos que ter boa formação e capacitação adequada às funções de gestão. Esta capacitação e boa formação talvez não sejam a garantia para vencermos a barreira da discriminação, mas é fundamental, para enfrentarmos isto”, complementou o dirigente.

Deco já sentiu na pele a tristeza do preconceito racial. Quando adolescente, aos 18 anos, tentou entrar em uma festa em uma cidade próxima a Porto Alegre. Por causa da cor da pele, ele foi impedido de curtir um baile de fim de semana. O episódio fez Deco crescer, sem guardar ressentimento. No mundo do futebol, ele diz que nunca foi desrespeitado. “Depois desse episódio, não houve outro, nem socialmente, nem profissionalmente. E olha que passei por vários cargos na antiga CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações), desde estagiário e técnico até diretor, sem nenhum problema deste tipo. No futebol, também nunca ocorreu”.

<i>(Foto: Mauricio Val/VIPCOMM )</i>


Fora do mercado, o ex-jogador Andrade evita colocar a culpa no racismo. O mineiro, de Juiz de Fora, fez carreira como atleta de sucesso do Flamengo, clube do qual é um dos maiores ídolos. Com a camisa rubro-negra, conquistou três vezes o Campeonato Brasileiro (1980, 1982 e 1983) e uma Copa Libertadores (1981). Quando se aposentou, começou a treinar o CFZ (Clube de Futebol Zico). Depois, voltou ao Flamengo para trabalhar na base. Em 2009, assumiu o comando do time após demissão de Cuca e ajudou o Flamengo a vencer o Campeonato Brasileiro daquele ano.

Em abril de 2010, Andrade foi demitido pelo Flamengo. Desde então, nunca recebeu um convite de um grande clube. Passou por equipes pequenas, como Brasiliense, Paysandu e Boavista. Ele culpa os empresários pela falta de oportunidade. “Hoje, está tudo nas mãos dos agentes. São eles que colocam os treinadores nos grandes clubes. Eu não tenho um empresário. Por isso, não tive essa oportunidade”, disse.

Andrade acredita que parte da responsabilidade por não ter negros em cargos de comando é do próprio negro. “Parte dessa culpa é da gente (negro), por não ter se preparado para isso. Se um negro se preparar, se tem convicção naquilo, ele consegue. Assim, como há muitos treinadores negros desempregados, também há brancos”, frisou.

Essa visão de Andrade, que também ressoa no discurso de Deco Nascimento, é rechaçada por grande parte da academia. Marcel Diego Tonini, doutor em História Social pela USP (Universidade de São Paulo), diz que esse tipo de ideologia tenta culpar o negro pelo racismo.“Duas das características mais notáveis do racismo à brasileira são exatamente a negação deste fenômeno e a introjeção das ideologias raciais do branco. Ambas acarretam tanto o enfraquecimento da identidade negra quanto a falta de consciência social do negro”, observou Tonini, que analisa o racismo no futebol.

“Quanto mais subimos a estrutura do futebol espetacularizado, mais racista ele se torna, maior a resistência por parte da elite branca que o controla e compõe o status quo. Se nós formos perguntar aos dirigentes esportivos, eles dirão que é pela falta de competência dos próprios negros, numa atitude tipicamente racista de culpar os negros por seu insucesso. A elite racista inventou até um nome para isto: “complexo de cor”. Esse discurso supostamente meritocrático, no entanto, não dá conta de explicar por que os negros compõem a maioria dos atletas profissionais, porém não têm chances em cargos de gestão, sendo que estes são compostos em boa parte por ex-atletas”, avaliou o estudioso.



Como mudar essa realidade?

Assim como os clubes, a CBF tampouco abre espaço para o negro. Em suas 13 diretorias (desenvolvimento do futebol, assessoria legislativa, coordenação, competições, comunicações, projetos estratégicos, relações institucionais, financeira, governança, marketing, patrimônio, registro e transferência e tecnologia da informação), não há um negro.  

Segundo Tonini, clubes, federações e CBF têm participação nesse racismo estrutural. “No tocante ao futebol brasileiro, entendo que o racismo é institucionalizado pelos dirigentes de federações e clubes, que não fazem nada para mudar as regras de associação, participação em conselhos, votação ou para combater o racismo interna e externamente  - exceção feita às ações praticadas recentemente pelo Bahia”, disse, ressaltando as campanhas a favor das minorias promovidas pelo clube baiano.

Nos Estados Unidos, o esporte mais popular do país, o futebol americano, conta com uma legislação que obriga os clubes a incluírem minorias (negros, latinos e mulheres) nos processos de contratações de técnicos e coordenadores. Essa legislação ficou conhecida como “Regra Rooney”, em referência a Dan Rooney, dirigente do Pittsburgh Steelers e chefe do comitê de diversidade da NFL (Nacional Futebol Liga), que elaborou esse projeto.

<i>(Foto: Karl Roser/Pittsburgh Steelers
)</i>


A política da liga de futebol americano foi seguida pela Federação Inglesa de Futebol (FA). A entidade anunciou no ano passado que vai entrevistar pelo menos um candidato negro, asiático ou de minoria étnica quando precisar escolher o sucessor do atual técnico da Seleção da Inglaterra, Gareth Southgate, que tem contrato até 2020.   

“Uma vez que a CBF, as federações, os clubes, em uma palavra, os dirigentes não fazem nada para mudar essa situação, acredito que só por meio de leis podemos obrigá-los. As cotas, nesse sentido, são uma política de ação afirmativa”, ressalta Tonini.

Marcelo Carvalho, idealizador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, diz que o movimento de lutas pela igualdade racial no Brasil ainda é insuficiente se comparado ao que ocorre nos Estados Unidos. “Fora do futebol, esse movimento de luta é muito forte e presente nos atletas norte-americanos, os quais praticamente a maioria se manifesta na luta contra o racismo”.

Carvalho demonstra lamentação ao refletir sobre a falta de ações com o objetivo de mudar essa realidade. “Entramos numa onda de se duvidar do poder nefasto do racismo. Continuamos sem ações dos clubes e das entidades esportivas (CBF, TJD, STJD, Federações), no máximo temos ações pontuais em datas especificas. Mas vale salientar a bravura do Bahia em falar de racismo e outros preconceitos no esporte sem medo dos torcedores não gostarem deste posicionamento”, afirmou.


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