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NEGÓCIOS DO ESPORTE

Especialista teme que clubes endividados vendam mal suas SAF's

Claudio Pracownik foi vice-presidente de finanças do Flamengo e ajudou a sanear o clube economicamente no fim da última década

postado em 07/12/2021 07:00 / atualizado em 06/12/2021 21:25

(Foto: Grance Círculo/SporTV/reprodução)


Com dívidas na ordem de R$ 960 milhões, o Cruzeiro foi o primeiro clube brasileiro a se transformar em Sociedade Anônima do Futebol. Com realidades bem parecidas, Botafogo e Vasco planejam ir pelo mesmo caminho. A SAF é vista pelos três gigantes do futebol nacional como único meio de atrair investimentos, organizar as finanças e voltar a competir em alto nível. Mas o especialista em negócios do esporte Claudio Pracownik, um dos responsáveis pela reestruturação do Flamengo, alerta para o risco de negociações ruins com investidores interessados no controle majoritário.

"Não acredito em soluções milagrosas. O advogado Marcos Motta sempre cita Alex Ferguson. 'É preciso que a conveniência perca para a consistência'. A consistência tem que vencer. Não acredito em negócios de conveniência. Negócio de conveniência só é bom para uma parte, normalmente", disse Pracownik no programa Grande Círculo, do SporTV.

Claudio Pracownik foi vice-presidente de finanças do Flamengo na gestão de Eduardo Bandeira de Mello e ajudou a sanear o clube economicamente no fim da última década. Hoje, ele é CEO da empresa Win the Game e trabalha justamente na reestruturação de instituições e na interlocução com investidores.

"Não acho que se virar Sociedade Anônima do Futebol os investidores vão aparecer. E se aparecerem talvez não sejam os investidores corretos. Um clube que tem uma dívida gigantesca, que não esteja estruturado, se atrair o investidor imediatamente, vai ser um investidor que vai pagar um preço ruim, e aí vem uma questão de qual é a valuation desse tipo de coisa. Nós estamos começando os estudos nesse sentido. Ou vai trazer um investidor que não é o adequado para as pretensões da própria torcida, que está buscando um outro tipo de efeito ao adquirir o clube", destacou.

O especialista lembra que a transição ideal de clube associativo para SAF exigiria, antes, o cumprimento de alguns deveres de casa. A mudança de CNPJ só deveria ocorrer quando tudo estivesse em ordem. O exemplo foi justamente o que o Flamengo fez na gestão de Bandeira de Mello.

O rubro-negro passou alguns anos na sombra, sem erguer taças, mas se organizou internamente, pagou suas dívidas e se preparou de forma consistente para voltar a ser competitivo de forma longeva. 

"O Flamengo fez uma recuperação extrajudicial, por assim dizer. Alinhou os interesses dos credores, alinhou os credores para o pagamento de dívidas, entregou credibilidade, consistência, não atrasou nenhuma parcela desde o começo e foi chegando com consistência onde chegou. (...) Se tiver que cair (de divisão), vai cair, mas nós vamos trabalhar para que não aconteça. E se ele cair, no dia que subir, nunca mais cai. A gente não pode é perder a coerência. ", disse.

"Não existe solução rápida. A nova lei é um belo começo, mas ela não resolve nada. Um clube associativo desorganizado que vira uma SAF sem fazer nenhum outro tipo de mudança simplesmente se transforma numa SAF desorganizada. E aí a repercussão e as consequências são muito piores. Pode levar à falência e a perda da credibilidade do mercado como um todo. Precisamos de cases positivos, as coisas têm que ocorrer corretamente para que efetivamente se desperte o interesse do capital privado nacional e internacional", acrescentou.

Interesses do clube x interesses do investidor


Outro risco para os clubes endividados que apostam na SAF, na visão de Claudio Pracownik, é escolher o investidor errado, que tenha interesses desalinhados com as pretensões da torcida de ver um time competitivo em campo.

"As pessoas costumam dizer que vai virar empresa e vai se organizar. Contratar profissionais não é garantia de profissionalização. Se não houver governança, compliance, controles internos, uma democratização do clube, uma transparência enorme, não significa nada. Se você trouxe profissionais, respaldá-los, remunerá-los adequadamente, alinhar os interesses desses profissionais aos interesses estratégicos do clube, você vai ter mais um meio de se atingir o resultado fim de ter um bom clube que pode ser um bom clube-empresa. Os títulos, temos que pensar aqui num alinhamento. Quando você pensa numa empresa, o objetivo final é lucro. Título traz lucro? Traz. É só isso que traz lucro? Não. Então, um dono de um clube vai estar muito feliz com o resultado de um clube e dependendo do resultado esportivo para a torcida. A torcida pode estar feliz e o investidor feliz. Este alinhamento não é mágico, não acontece da noite para o dia e tem que ser muito bem pensado até na escolha do investidor. Vai trazer um investidor do capital privado, um investidor estratégico? Quem é esse investidor? Qual a história desse investidor. É histórico de exportação de atletas, de consistência, de investir no clube, de buscar resultados? Então, essa simplicidade é o maior receio que eu possuo e é o maior ofensor a essa nova economia", disse.

"Ter uma empresa significa ter alinhamento de interesses de todos os stakeholders (partes interessadas). A torcida é um elemento fundamental, mas todos os stakeholders precisam se alinhar. Exige consistência, gente competente, profissionais de mercado", agregou.

Cruzeiro, Botafogo e Vasco


Durante o programa Grande Círculo, do SporTV, Claudio Pracownik foi indagado sobre os riscos específicos de Cruzeiro, Botafogo e Vasco ao apostarem todas as suas fichas na SAF para se salvarem da falência como clubes associativos.

"É o que chamamos de queimar a largada. A minha visão é que a valorização de um produto passa pelo seu fortalecimento. A gente tem conversado com os clubes sobre isso. Quando trazem pra gente uma solução imediatista, eu falo que você tem que pensar no longo prazo. Foi o trabalho que a gente fez no Flamengo, o grupo fez no Flamengo. Não fui eu. Fiz parte desse grupo. É um trabalho onde você vai colher os louros muito distante de você. No entanto, quando eles vierem, vêm de forma consistente. A edição da lei (SAF) aponta um destino para se chegar e precisamos construir o caminho para chegar nesse destino. O caminho é longo, mas que permite que você colha resultados. Você não tem que trabalhar seis anos para colher resultados, pode colher resultados ano a ano. Mas é preciso pensar com consistência, saber sofrer, como acontece no mundo do futebol", disse.

"Os três clubes são grandes e estão demonstrando buscar iniciativas e é prova cabal que eles estão buscando uma mudança, a profissionalização. Se vão conseguir ter sucesso, vamos todos torcer que sim. Que se fortaleçam, criem sistemas de governança, controles internos, transparência e consigam atrair investidores. Agora, se eles não fizerem isso antes dos investidores, eles vão ser vendidos e vão atrair investidores com menos recurso. Se quando os investidores buscarem investimento eles já tiverem na mão deles uma visão maior, uma inserção maior na economia digital, que é a nossa realidade aqui, já que vivemos colados nos nossos celulares, eles vão ser muito mais valorizados. Compete a eles ter essa intenção. E trazendo profissionais corretos para isso, respaldá-los", analisou.

Cruzeiro quer dar controle majoritário a investidor


O Cruzeiro terá nova Assembleia Geral para votar a mudança do Estatuto do clube que possibilite a venda de até 90% das ações da Sociedade Anônima do Futebol. A reunião está marcada para sexta-feira, 17 de dezembro, das 18h30 às 20h30, no parque esportivo do Barro Preto, na Rua dos Guajajaras, Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

A diretoria defende a alteração do parágrafo quinto do artigo 1 do Estatuto do Cruzeiro. Segundo a direção, investidores ficarão mais atraídos em aportar dinheiro caso tenham a condição de se tornarem sócios majoritários. Na redação atual, eles só poderiam adquirir 49% de participação na SAF. A ideia é alterar o texto e permitir a negociação de até 90% do clube-empresa.

O clube definiu um capital social de R$22,92 milhões, relacionado à soma dos direitos econômicos e federativos de atletas das categorias de base, e constituiu o Conselho de Administração com três integrantes: Sérgio Santos Rodrigues, atual presidente da instituição; Alvimar de Oliveira Costa, ex-presidente; e Paulo Henrique Pentagna Guimarães, empresário do setor financeiro.

Com a SAF, as atividades de futebol profissional serão administradas pelo conselho de administração. Assim, quase todo o dinheiro do Cruzeiro (direitos econômicos de atletas, direitos de transmissão, programa de sócio, publicidade e patrocínio) ficará sob gestão empresarial. Os imóveis e clubes de lazer continuarão como patrimônio do clube.

O valor das ações da SAF será definido com auxílio da consultoria norte-americana Alvarez & Marsal e da XP Investimentos. O Cruzeiro entende que, apesar das crises financeira e esportiva, a marca do clube é muito atrativa e pode gerar grande potencial de valorização.

A diretoria do clube espera vender parte das ações ainda no primeiro semestre de 2022.

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