Velocidade
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Tradição em dose dupla

Fim de semana nas pistas vai ser marcado por duas provas com charme e características únicas. Vencer as 500 Milhas de Indianápolis ou o GP de Mônaco é fazer história no esporte

postado em 22/05/2012 07:00

A idade de ambas já é um senhor sinônimo de respeito: datam, respectivamente, de 1911 e 1929. Mas o carisma e o fascínio despertado por ambas vieram ao longo dos anos, superando guerras, crises econômicas, se adaptando aos novos tempos, sem perder a essência. O fato de há muito serem marcadas para o mesmo dia não é o único fato em comum entre as 500 Milhas de Indianápolis e o GP de Mônaco, mais entrelaçados do que se possa imaginar.

 

Afinal, o principal responsável pelo desenho do traçado nas ruas do principado, o piloto Louis Chiron, não pôde participar de sua inauguração, já que acelerava do outro lado do Atlântico no que viria a ser o circuito oval mais famoso do mundo. Indianápolis nasceu como um campo de pouso e decolagem de balões, mas viveria seus momentos de glória nas quatro retas e quatro curvas que foram de terra e mais tarde de tijolos, até serem recobertas pelo asfalto.

 

Já a pista desenhada entre montanha e mar num dos mais badalados territórios do planeta perdeu boa parte dos riscos – corria-se à beira do mar com alguns pilares de concreto como simples proteção –, mas ainda é encarada de forma especial pelas estrelas do circo. Beber o jarro de leite reservado para o vencedor, nos EUA, ou ser recebido no pódio pela família real ainda valem tanto ou mais do que um título, e costuma transformar homens em lendas. Não por acaso, apenas dois, em 95 edições das 500 Milhas e 69 do GP de Mônaco, conseguiram a dobradinha: Graham Hill e Juan Pablo Montoya.

Arte de flertar com os muros

Há quem ame, quem se sinta desconfortável (como Felipe Massa) ou quem odeie, a ponto de dizer que acelerar pelas ruas de Mônaco é como andar de moto na banheira de casa – frase do tricampeão Nelson Piquet. É bem verdade que a localização de Mônaco e suas particularidades impedem qualquer tipo de mudança radical no traçado desenhado por Anthony Nogués em 1929, e que a sensação é de que a pista é cada vez mais inadequada às exigências da F-1, mas ninguém cogita sua saída do circo. Acelerar cercado por guard-rails, com áreas de escape minúsculas e fazendo curvas que exigem mais esforço do que em qualquer outro autódromo – a direção é um dos componentes modificados especificamente para este fim de semana –, é uma arte dominada por poucos e bons.

Reza a lenda que uma das diversões preferidas de Ayrton Senna, dono de seis vitórias no principado (recorde do GP) era voltar aos boxes da McLaren com a marca dos pneus lixada, devido às várias raspadas nas lâminas de proteção. Não por acaso, a volta que lhe valeu a pole em 1988, um dos principais momentos do documentário dedicado ao tricampeão (em que Senna disse se sentir movido por uma força superior), é considerada um dos momentos mais sensacionais em seis décadas da categoria.

Com o equilíbrio da atual temporada, em que cinco pilotos de igual número de equipes foram ao alto do pódio, apostar num ganhador para a corrida de domingo é tarefa das mais complicadas e não seria absurdo imaginar um novo triunfo de Kimi Raikkonen (melhor em 2005, com a McLaren), o que representaria a volta da Lotus ao círculo dos vencedores. Lewis Hamilton, Jenson Button, Mark Webber, Sebastian Vettel e Michael Schumacher (cinco vitórias) sabem o que é celebrar diante da família Grimaldi e serem homenageados no banquete de honra.

Carta O presidente da Ferrari, Luca di Montezemolo, tornou ainda maior a pressão sobre Felipe Massa ao encaminhar a todos os funcionários da escuderia uma carta de encorajamento para o GP de Mônaco. No texto, o dirigente lembra que o campeonato está totalmente aberto e, mesmo sem o melhor carro, Fernando Alonso lidera a classificação. “Devemos aproveitar e tirar o máximo de cada um, incluindo Massa, que deve nos proporcionar os resultados que esperamos dele. Sei do empenho de todos. Vencer o Mundial depende exclusivamente de nós.”

Cidade que respira velocidade

Não é exagero dizer que a capital de Indiana é uma durante o ano e outra totalmente diferente em maio – uma programação que encurtou ao longo dos anos para reduzir os custos das equipes, mas continua reunindo milhares de torcedores, numa verdadeira peregrinação a uma localidade que, não por acaso, ganhou o nome de Speedway. Apenas atravessando o portão principal é possível ter uma ideia da grandiosidade das instalações: 1,05 milhão de metros quadrados e 250 mil assentos permanentes, aos quais se somam as tribunas metálicas montadas para a prova, camarotes e suítes.

Ao longo da Georgetown Road, que margeia a reta dos boxes, centenas de trailers e barracas de camping servem de palco para uma festa movida a música e cerveja, que começa bem antes da tradicional ordem “senhoras e senhores, liguem seus motores”. Não faltam lojinhas vendendo todo tipo de suvenir relacionado à prova: miniaturas, broches, uniformes oficiais e memorabília. O treino de aquecimento de sexta-feira, conhecido como Carb Day, é o pretexto para uma festa na área interna, próximo à Pagoda, a torre principal: a atração desta vez é a banda Lynyrd Skynyrd.

A 96ª edição das 500 Milhas será marcada pelas novidades e por uma ausência sentida: a do último vencedor, Dan Wheldon, que perdeu a vida num dramático acidente no GP de Las Vegas do ano passado e receberá homenagens no fim de semana. O ronco dos motores muda completamente: depois de 16 anos, está de volta o assobio característico dos propulsores turbo. Com eles, a rivalidade entre fabricantes que andava distante da Indy. A pole Chevrolet (com Ryan Briscoe) e a Honda confiam na máxima do “win on sunday, sell on monday” (vença domingo e venda na segunda-feira), com os dois carros da Lotus condenados a figuração.

Com a adoção dos novos chassis Dallara DW12, ainda mais seguros depois das lições aprendidas com a morte de Wheldon, que fez os primeiros testes com o modelo, as equipes foram obrigadas a um investimento considerável, o que explica o número de inscritos mais baixo este ano. Foi possível garantir ocupantes para os 33 postos disponíveis no grid, mas não houve o tradicional bump day, em que os últimos colocados têm as vagas ameaçadas por quem não se classificou. A chance de um novo rosto gravado no troféu Borg & Warner é grande, já que apenas três vencedores alinham domingo: Hélio Castroneves (três), Dario Franchitti (duas) e Scott Dixon.