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Cruzeiro tem ano atípico nas vendas e prevê dificuldade financeira até dezembro

Clube fecha janela de agosto sem vendas para o exterior, algo raro em seu histórico

postado em 01/09/2010 09:00 / atualizado em 01/09/2010 09:12

Bruno Furtado /Superesportes

AFP PHOTO /VANDERLEI ALMEIDA

A fonte de euros parece ter secado. Um dos campeões de vendas nos últimos anos, o Cruzeiro fechou a janela de transferências para o exterior, nesta terça-feira, dia 31 de agosto, sem negociar sequer um jogador no meio da temporada. Sem contar com essa receita salvadora, antes dada como certa, o clube admite que terá dificuldades para manter as contas em dia até dezembro.

Desde a década passada, o Cruzeiro sempre conseguiu fazer bons negócios em junho, julho e agosto, trimestre em que os europeus montam seus elencos. Basta voltar ao mesmo período do ano passado, quando o clube vendeu Ramires (Benfica), Maicon (Porto), Gérson Magrão (Dínamo), Wagner (Lokomotiv) e Zé Eduardo (Ajax).

Este ano, o Cruzeiro só emprestou Leo Fortunato ao Sporting Braga, sem custos, e trocou o zagueiro Maicon com o Porto pelo atacante Ernesto Farías. O dinheiro que entrou nos cofres veio do mercado interno. Primeiro, com a venda de Kléber ao Palmeiras por 3 milhões de euros (50%). Depois, com a transferência dos direitos de Thiago Heleno para o grupo HAZ (valores não revelados).

O diretor de futebol Dimas Fonseca atribui as poucas vendas à crise econômica na Europa. “O que está acontecendo não é problema no Cruzeiro, é o pouco investimento em cima de jogadores brasileiros. Essa redução se deve a uma crise que o mercado europeu atravessa no futebol. Não há investimento. É uma preocupação de todos nós que somos dirigentes de clubes no Brasil. Temos hoje um alto custo e não vendemos ninguém. Um clube como o Cruzeiro, com essa estrutura, essa folha alta, precisaria vender pelo menos um jogador por 5 ou 6 milhões de euros para ficar tranquilo”.

Marcelo Sant'Anna/EM/D.A Press
Dimas lembrou que poucos clubes brasileiros conseguiram fechar negócios vultosos nessa janela e essa é a prova da crise no futebol europeu. “Se formos comparar com os anos anteriores, talvez o Cruzeiro seja o clube que tenha tido agora o maior prejuízo ao não vender. Hoje custamos a lembrar das vendas do Hernanes (São Paulo para o Lazio), do Sandro (do Inter para o Tottenham) e do Kléber (Cruzeiro para o Palmeiras), além dos dois jogadores do Santos: o André (Dínamo) e o Wesley (Benfica). Falamos de cinco, seis nomes, num universo de 20 clubes da Série A”.

Folha de R$ 1,7 milhão e empréstimos bancários

Hoje, a folha salarial do elenco profissional do Cruzeiro é de R$ 1,7 milhão/mês e, segundo Dimas, sustentá-la até dezembro sem atrasos exigirá medidas drásticas. “Certamente vamos fechar o ano no vermelho, na expectativa de vender alguém em janeiro. O que vai aumentar nossa dívida são os juros bancários, porque vamos ter que recorrer aos empréstimos. O Cruzeiro nunca atrasou sua folha, sempre pagou em dia, e vai continuar pagando. Mas teremos que recorrer aos bancos e usar o crédito que temos no mercado”.

Como se não bastasse a escassez de negócios, o fim de ano cruzeirense será prejudicado pela queda drástica da receita com rendas, devido aos jogos no interior, e com o sócio do futebol, que perdeu milhares de associados devido às obras no Mineirão e no Independência.

Além dos empréstimos, o Cruzeiro já estuda antecipar as receitas de 2011 relativas aos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. “Essa é uma das alternativas. O Cruzeiro nunca faz essa antecipação, mas talvez tenhamos que fazer agora. Nosso prejuízo é enorme jogando no interior. Tivemos rendas líquidas de R$ 120 mil em Ipatinga e de menos de R$ 100 mil em Sete Lagoas. Para um clube como o Cruzeiro, isso é muito pouco, é absurdo”.

Ajuda do estado

Justamente por isso, Dimas confirma que o governo de Minas admite ajudar Cruzeiro e Atlético com uma cota de R$ 150 mil para cada partida disputada em Sete Lagoas, na Arena do Jacaré. “O estado está apresentando essa sugestão para tentar ajudar os clubes. Há essa pretensão do estado de nos pagar R$ 150 mil por jogo em Sete Lagoas, onde nossa despesa de transporte é menor. Em contrapartida, conseguimos uma boa renda em Uberlândia, contra o Corinthians, e ela deve ser maior contra o Flamengo. Alguns grandes jogos no Parque do Sabiá podem nos ajudar financeiramente. O estado está preocupado com os clubes e essa ajuda, esse subsídio, seria sim muito bem vindo”.

As vendas do Cruzeiro no mercado de agosto, ano a ano:
Não estão relacionados negócios fechados em dezembro, janeiro e fevereiro

1999
Alex Alves (Hertha Berlim) – US$ 9 milhões
Evanílson (Borussia Dortmund) - US$ 7 milhões

2001
Maxwell (Ajax) - US$ 3 milhões
Geovanni (Barcelona) – US$ 18 milhões


2002
Sorín (Lazio) – US$ 9 milhões
*Equipe italiana entrou em falência e só pagou US$ 1 milhão, que valeu como empréstimo

2003
Sorín (Paris Saint-Germain) - US$ 350 mil (empréstimo)
Luisão (Benfica) - US$ 2,5 milhões
Deivid (Bordeaux) - US$ 1 milhão


2004
Cris (Lyon) - 3,5 milhões de euros
Maicon (Mônaco) - 2,3 milhões de euros
Leandro (Porto) - US$ 2,45 milhões
Gomes (PSV Eindhoven) - US$ 1,5 milhão
Rodrigo Defendi (Tottenham) - 600 mil libras esterlinas
Sorín (Villarreal) - US$ 1,9 milhão


2005
Fred (Lyon) – 15 milhões de euros
Athirson (Bayer Leverkusen) - US$ 1 milhão
Kelly (Al-Ain) - US$ 500 mil
Gladstone (Juventus) - 150 mil euros (empréstimo)
Weldon (Sochaux) - 350 mil euros (empréstimo)
Adriano Louzada (Porto) - 200 mil euros (empréstimo)


2006
Adriano Louzada (Porto) - 1,2 milhão de euros
Irineu (Sporting Braga) - US$ 50 mil (empréstimo)
Weldon (Troyes) – 350 mil euros (empréstimo)
Edu Dracena (Fenerbahçe) - 5,7 milhões de euros
Alecsandro (Sporting de Lisboa) – 500 mil euros (empréstimo)
Gil (Nástic de Tarragona) - 800 mil euros


2007
Gladstone (Sporting de Lisboa) - 250 mil euros
Luizão (Locarno) - 2 milhões de euros
Rômulo (Beitar Jerusalém) – US$ 500 mil
Araújo (Al-Gharafa) – US$ 3,4 milhões
Weldon (Belenenses) - 200 mil euros
Marcelo Tavares (Al-Hilal) – US$ 350 mil


2008
Marcelo Moreno (Shakhtar Donetsk) - 9 milhões de euros
Gladstone (Palmeiras) - R$ 250 mil (empréstimo)
Marcinho (Kashima Antlers) - US$ 400 mil
Nenê (Nacional da Ilha da Madeira) - 200 mil euros
Lauro (Internacional) – R$ 700 mil
Charles (Lokomotiv) – 5 milhões de euros
Kerlon (empresário Mino Raiola) – 1,3 milhão de euros
Jonathas (AZ) – 600 mil euros


2009
Ramires (Benfica) – 7,5 milhões de euros
Maicon (Porto) – 1,1 milhão de euros
Gérson Magrão (Dínamo de Kiev) - 2,2 milhões de euros
Wagner (Lokomotiv) – 6 milhões de euros
Zé Eduardo (Ajax) – 500 mil euros


2010
Kléber (Palmeiras) – 3 milhões de euros
Leo Fortunato (Sporting Braga) – sem custos (empréstimo)
Maicon (Porto) – trocado por Ernesto Farías
Thiago Heleno (HAZ Sport Agency) – valor não revelado

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