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Experiência no Lyon, perfil de liderança e planejamento: ex-capitão Marcelo Djian fala sobre volta ao Cruzeiro, agora como diretor

Porta-voz desde os tempos de zagueiro celeste, entre 1997 e 2001, Djian comenta responsabilidades que terá na direção do clube. Leia a entrevista

postado em 03/11/2017 06:00 / atualizado em 03/11/2017 08:22

Reprodução/Instagram
Dezesseis anos depois de encerrar a passagem como jogador pelo Cruzeiro, Marcelo Djian retorna ao clube em função administrativa. Ele será o diretor de futebol da gestão do presidente eleito Wagner Pires de Sá e trabalhará ao lado de Itair Machado na busca por reforços.

Zagueiro de bom posicionamento e qualidade técnica, Marcelo Djian chegou ao Cruzeiro em 1997, quando tinha 30 anos, e permaneceu no clube até 2001. Em 181 partidas, marcou cinco gols e conquistou seis títulos: Campeonato Mineiro (1998), Recopa Sul-Americana (1998), Copa dos Campeões Mineiros (1999), Copa Centro-Oeste (2009), Copa do Brasil (2000) e Copa Sul-Minas (2001).

O ex-camisa 3 – que teve entre vários companheiros de zaga atletas como Gottardo, João Carlos, Cris, Cléber e Luisão – sempre exerceu perfil de liderança, sendo uma espécie de porta-voz do grupo. Talvez essa condição tenha o levado a seguir a carreira nos bastidores do futebol após pendurar as chuteiras. Djian trabalhou como representante do Lyon da França no Brasil por mais de 10 anos e participou, entre várias negociações, das contratações dos ex-cruzeirenses Cris, Fred e Fábio Santos.

A experiência adquirida na parte administrativa deixa Marcelo confiante num bom trabalho à frente do Cruzeiro. Em entrevista ao Superesportes, ele comentou as semelhanças nas funções. “Não é muito diferente. Eu analisava jogadores e via os jogos. Hoje, na minha função, tenho que fazer isso também e prestar atenção até mesmo nos adversários, quem tem qualidade, quem futuramente poderá ser contratado. Fui capitão nos clubes que joguei: no próprio Cruzeiro, no Corinthians, no Lyon, no Atlético. Sempre fiz parte das lideranças do grupo. Você tem que ter a tranquilidade para analisar cada pedido e resolver os problemas que têm. Nas contratações, é errar o mínimo possível. Às vezes o sucesso do jogador depende de detalhes, como a mudança de cidade, de posição, de ambiente, de um clube com estrutura. E o Cruzeiro tem uma base muito boa, tanto que ganhou a Copa do Brasil e está bem no Brasileiro”.

Marcelo Djian ainda está em sua residência, na cidade de São Paulo. Na próxima semana, ele viajará a Belo Horizonte, onde ficará por quatro dias para iniciar a transição - substituirá Klauss Câmara. Adiante, quando Wagner Pires de Sá for empossado presidente - a cerimônia ocorrerá em dezembro -, o novo gestor se estabelecerá definitivamente na capital mineira para continuar os trabalhos. À reportagem, Djian falou sobre o acerto com o Cruzeiro, a experiência no Lyon, o perfil de liderança e o desafio de, junto de Mano Menezes e Itair Machado, montar o projeto que vislumbra o título da Copa Libertadores de 2018.

ACERTO COM O CRUZEIRO E EXPERIÊNCIA NO LYON


Como foi o acerto com o Cruzeiro?

“Nos últimos anos, sempre que havia a saída de um diretor, o pessoal colocava meu nome, me convidava, mas nunca tinha vindo um convite diretamente do presidente. Dessa vez veio o convite por meio do Itair Machado, que me ligou uns quatro dias antes da eleição e disse: ‘estamos concorrendo, temos boas chances de ganhar. Quero saber se você gostaria de ser diretor’. Disse a ele para aguardar a eleição, que não daria para conversar nada mais avançado, mas que me interessava sim. Se o presidente ganhasse, a gente voltava a se falar. Foi isso que aconteceu. Nós conversamos e nos acertamos. Só aguardamos a transição definitiva com o presidente, pois o Klauss e o Tinga estão no cargo, são profissionais e precisam ser respeitados. O próprio Klauss se colocou à disposição para me ajudar no que for necessário para essa transição. O ano de 2018 será muito corrido. Terá a Copa Libertadores, vamos ver quem fica, quem sai, quem será contratado. Agora sim podemos conversar mais abertamente sobre essas contratações”.

Qual será o cargo exato no clube?

“Conversamos pouco sobre isso. A princípio, devo abranger as duas funções (diretor e gerente de futebol). Isso vai depender do dia a dia. Se o clube achar necessário a contratação de uma outra pessoa, vai ser visto quando começarmos a trabalhar. Mas a princípio seria o de diretor de futebol, mas fazendo o que o Tinga faz também”.

Arquivo/ EM D.A Press

O que há de semelhante entre a experiência como representante do Lyon e o trabalho futuro no Cruzeiro?

“Não é muito diferente. Eu analisava jogadores e via os jogos. Hoje, na minha função, tenho que fazer isso também e prestar atenção até mesmo nos adversários, quem tem qualidade, quem futuramente poderá ser contratado. Fui capitão nos clubes que joguei: no próprio Cruzeiro, no Corinthians, no Lyon, no Atlético. Sempre fiz parte das lideranças do grupo. Você tem que ter a tranquilidade para analisar cada pedido e resolver os problemas que têm. Nas contratações, é errar o mínimo possível. Às vezes o sucesso do jogador depende de detalhes, como a mudança de cidade, de posição, de ambiente, de um clube com estrutura. E o Cruzeiro tem uma base muito boa, tanto que ganhou a Copa do Brasil e está bem no Brasileiro”.

Em recente entrevista ao Superesportes, o novo vice-presidente de futebol Itair Machado teceu elogios ao seu trabalho. Ele lembrou um episódio em que você havia prestado assistência a um jogador do Ipatinga que se machucou seriamente num jogo contra o Cruzeiro pelo Campeonato Mineiro. Se recorda dessa ocasião?

“Foi um lance bobo. A bola ficou no meio das pernas dele, então eu dei um toque para tirar, de leve. Escutei um barulho e pensei que a caneleira dele tinha quebrado. Ai olhei e vi que quebrou a perna. Fiquei tão preocupado que pedi para sair do jogo. E fui para o vestiário ver como estava a situação. O Marlon era um menino da base que ficou conosco no Cruzeiro por dois anos. Procurei ajudá-lo nessa recuperação”.

Nota: O Cruzeiro ganhou do Ipatinga por 1 a 0, no Ipatingão, em 19 de março de 2000, pelo Campeonato Mineiro. O time era treinado por Paulo Autuori, e Djian pediu substituição. Cris entrou em seu lugar.

Você, enquanto representante do Lyon, indicou vários atletas do Cruzeiro ao clube. A venda do Fred, pelas cifras envolvidas, foi a de maior destaque?
 
“Foi um valor alto. O Lyon estava com dinheiro, pois havia acabado de vender o Essien para o Chelsea (as cifras chegaram a 50 milhões de dólares). No fim de cada temporada, existe uma prestação de contas, em que os clubes pagam impostos em cima dos valores arrecadados. Para não ficar com o dinheiro parado, o Lyon aumentou a oferta pelo Fred, que acabou tendo a sorte de ter sido o escolhido. Deu muito certo, pois ganhou vários títulos no clube”.

Nota: Fred foi vendido pelo Cruzeiro ao Lyon por 14,9 milhões de euros, cerca de R$ 44 milhões. A operação foi finalizada em agosto de 2005. Pelo clube francês, o atacante marcou 43 gols em 125 jogos e conquistou três edições da Ligue 1 e uma da Copa da França. O bom desempenho lhe rendeu convocação à Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2006.

AFP PHOTO FRED DUFOUR


Quais jogadores indicados por você que deram mais certo na França?

“Dois que foram muito bem no Lyon foram o Juninho Pernambucano e o Cris. O Cris jogou comigo no Cruzeiro, conhecia ele bem. Ficou oito anos lá, assim como o Juninho. O Juninho fez 100 gols lá, ganhou sete títulos nacionais e a Copa da França. Ele, inclusive, já foi chamado para ser diretor do Lyon. O Cris atualmente treina a equipe sub-23, que disputa a CFA (Campeonato da França Amador, equivalente à quarta divisão)”.

Nota 1: Juninho Pernambucano marcou 100 gols em 344 jogos pelo Lyon. Considerado o melhor cobrador de falta do mundo, o ex-camisa 8 ganhou sete edições do Campeonato Francês (Ligue 1), seis da Supercopa e uma da Copa da França. O jogador acertou com o clube em 2001 após deixar o Vasco por meio de ação judicial.

Nota 2: Cris foi adquirido pelo Lyon em agosto de 2004 por 3 milhões de euros (cerca de R$ 11 milhões) e ficou na agremiação durante oito anos (2004 a 2012). Curiosamente, ele marcou pelo clube francês o mesmo número de gols a serviço do Cruzeiro: 25. A diferença é que na Europa o zagueiro disputou mais partidas: 301, contra 260 pela Raposa.

Com a sua chegada ao Cruzeiro, a função de agente esportivo deixará de ser exercida?

“Cancelei minha licença. Tive que fazê-la em 2003 a pedido do presidente do Lyon. Primeiramente fiz a licença por causa disso. Fiz algumas negociações com outros clubes da França, mas principalmente com o Lyon. Mas quando recebi o convite, cancelei o registro por meio de uma carta enviada à Confederação Brasileira de Futebol. Trabalho para o Cruzeiro, não me sentiria bem em conciliar as duas coisas”.

MONTAGEM DO ELENCO, PLANEJAMENTO E CONTATO COM MANO MENEZES


O quão foi importante manter o técnico Mano Menezes no Cruzeiro?

“Foi muito importante a renovação de contrato com o técnico Mano Menezes. Ele conhece todo o elenco, já sabe os detalhes de cada jogador. Um novo treinador poderia trazer um atraso, sobretudo na forma de jogar”.

Como será a montagem do grupo para a Copa Libertadores de 2018?

“O Cruzeiro tem um elenco bom. Tem uma base muito boa. Vamos conversar com o Mano e ver o que ele acha, pois ele está no dia a dia e sabe o que é melhor para a equipe. A conversa com a comissão técnica é essencial. Depois que está com o grupo formado, é saber que a Libertadores tem um nível de dificuldade mais alto que o Brasileiro. Os clubes argentinos, equatorianos e colombianos vão bem principalmente contra os brasileiros. Quando ainda disputavam a competição, os mexicanos também criavam dificuldades. A Libertadores tem um ritmo forte também na parte de arbitragem. Não é qualquer falta que os árbitros marcam, deixam o jogo correr. Temos que olhar tudo isso para fazer o planejamento”.

Há alguma carência já detectada no elenco?
 
“Não sentei para conversar com o Mano ainda. Quando estive em Belo Horizonte, o Mano estava se recuperando do tratamento de pele que fez em São Paulo. Só tenho conversado com o Itair. Vou a Belo Horizonte na semana que vem para fazer a transição. Aí vamos discutir quais as posições que o Mano quer reforçar o time para o ano que vem”.

Sobre Bruno Silva, do Botafogo, o que há de concreto?

“O Bruno Silva é um jogador que o Mano Menezes gosta. Ele havia pedido há algum tempo para a atual diretoria. Agora há as conversas para conseguir a contratação do jogador. Nada mais que isso foi me passado”.

Nota: Vinculado ao Botafogo até dezembro de 2018, Bruno Silva é considerado pela comissão técnica do Cruzeiro um jogador com as caracterísitcas de Robinho: de bom poder defensivo e com habilidade para sair jogando. Em 53 jogos em 2017, o versátil meio-campista marcou oito gols. Mineiro de Nova Lima, o próprio atleta afirmou publicamente que gostaria de defender o clube celeste, mas ressaltou o compromisso que tem com o alvinegro carioca.

AFP / Apu Gomes

E Rafinha, lateral-direito do Bayern de Munique? Acha que seria viável uma rescisão na Alemanha?

“Você não fica num clube tão grande que nem o Bayern de Munique se não for profissional. Mas, pela experiência que tenho, se ele comunicar à diretoria do Bayern e dizer que quer retornar ao Brasil, não haverá problema. Se for uma pessoa correta – e eu acredito que ele é –, as chances de ele ser liberado antes do encerramento do contrato são grandes. Os casos que conheço na França, nos times europeus, são assim. Pesa muito se o jogador fizer esse pedido”.

Nota: Rafinha tem contrato com o Bayern de Munique até junho de 2018. O ex-jogador do Coritiba já foi pretendido pelo Grêmio à época em que Mano Menezes era técnico (2005 a 2007). Mano, aliás, o convocou para a Seleção Brasileira. Com a camisa do Bayern, Rafinha já disputou mais de 200 partidas. Ele atua no clube bávaro desde 2011.

A folha salarial de R$ 13 milhões mensais - valor revelado pelo vice de futebol Itair Machado em entrevista ao Superesportes - é considerada alta para os padrões do futebol brasileiro?

“Não posso dizer que não seja alta. Mas isso vai ser conversado ainda. É tentar equalizar os valores e ver o que é melhor. Se tem que diminuir num lado, arrecadar no outro. Vamos falar sobre isso também”.

Além do Fábio, que jogou contigo em 2000, quais outras pessoas reencontrará no Cruzeiro?

“A gente se fala sempre. Brinco com ele que ele é ‘gato’, pois quase todo mundo daquela época já parou e ele ainda está jogando. Convivemos no Cruzeiro em 1999 e 2000. O Fábio ainda estava começando, era reserva do time. Há outros funcionários da minha época: o Benecy (Queiroz, superintendente administrativo), o Charlinho (Charles Costa, fisioterapeuta), o Geraldo roupeiro, o Otávio (Coutinho, administrador da Toca da Raposa II)”. 

Nota: Marcelo Djian e Fábio eram reservas do time campeão da Copa do Brasil de 2000. O zagueiro tinha 32 anos, enquanto o goleiro estava com apenas 18.

Assista a um dos gols de Marcelo Djian pelo Cruzeiro, em jogo contra o Palmeiras, pelo Brasileiro de 1998 (vitória por 2 a 1)

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