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Ao fim do Brasileiro, Zezé Perrella promete revelar dados financeiros do Cruzeiro à torcida

Dirigente não informou se detalhará dívidas ou se falará do orçamento de 2020

postado em 30/11/2019 08:00 / atualizado em 29/11/2019 22:56

(Foto: Juarez Rodrigues/EM/D. A Press)
Qualquer que seja o desfecho do Cruzeiro no Campeonato Brasileiro, o gestor do futebol Zezé Perrella promete revelar dados das finanças do clube para a torcida em dezembro. O dirigente não informou se detalhará só dívidas ou se falará do orçamento para 2020.

“No dia 8, quanto terminar o campeonato, vou fazer um balanço e quero que toda imprensa e toda torcida do Cruzeiro saiba da real situação do Cruzeiro. Mas, no momento, é sair dessa coisa aí, deixar o Cruzeiro na primeira divisão, que é o que importa”, declarou nessa sexta-feira, em entrevista coletiva.

De antemão, Perrella contou que quitará até este sábado o salário de setembro. Ficarão pendentes os vencimentos de outubro e novembro.

“Estavam dizendo que eu entrei, dizendo que ia arrumar dinheiro, que ia fazer isso, você nunca viu uma declaração minha nesse sentido. O que eu consegui, em apenas 30 e poucos dias que aqui estamos, acho que menos de 60 dias, foi levantar quase R$ 30 milhões com o patrocínio que eu consegui arrumar. Com algumas ações que tomamos, consegui levantar R$ 30 milhões. E poderia estar muito pior a situação. O Cruzeiro está com dois meses e meio de salário atrasado. Meio eu já paguei. Vou colocar em dia esse meio que falta. Na verdade, ia vencer três meses e nós pagamos 50% de um mês. Vou colocar os outros 50% em dia essa semana”, detalhou Perrella.

Austeridade

O que o dirigente já projeta, seja na Série A ou na Série B, é um ano de investimentos mais modestos, sem grandes expectativas de títulos. “Tem que fazer muita coisa ano que vem. E a torcida pode esperar: se entrar um dirigente ano que vem aqui, com responsabilidade, não precisa ficar contando com título não. Se acontecer vai ser porque deu sorte ou fez um trabalho legal. A primeira preocupação agora é colocar o clube em dia”.

Rebaixamento pode comprometer receitas

As receitas de televisão cairiam drasticamente em caso de queda à Série B. A cota fixa do campeonato é de R$ 6 milhões líquidos, mais R$ 2 milhões em logística. Conforme matéria publicada pelo jornalista Rodrigo Mattos, do portal UOL, sobre um eventual rebaixamento do Fluminense, o contrato prevê uma saída: o clube pode abrir mão dos R$ 6 milhões em troca de manter os direitos de pay-per-view. Nesse caso, o Cruzeiro teria direito a R$ 19,5 milhões (cerca de 3% do montante destinado aos clubes pela Globo).

Em 2019, o dinheiro proveniente de direitos de transmissão foi dividido em três partes: 40% de forma igualitária (R$ 22 milhões para cada clube), 30% por exibição de jogo na TV aberta e 30% por posição no campeonato. O problema é que times rebaixados não arrecadam um real sequer, já que, pelo contrato, a Globo só paga do campeão (R$ 33 milhões) ao 16º (R$ 11 milhões).

Se porventura escapar do rebaixamento e terminar o Brasileiro em 16º, o Cruzeiro fechará o ano com a cota fixa de R$ 22 milhões, a premiação de R$ 11 milhões pela posição na tabela, uma quantia referente à transmissão de partidas na TV aberta (atualmente em R$ 10 milhões, mas podendo aumentar na reta final do campeonato) e os R$ 19,5 milhões em pay-per-view. A soma seria de pelo menos R$ 62,5 milhões. Em caso de descenso, o clube provavelmente optaria pela manutenção da receita de pay-per-view na segunda divisão em 2020 e teria prejuízo de, no mínimo, R$ 43 milhões.

Antecipação

Vale lembrar que o Cruzeiro comprometeu cerca de R$ 70 milhões em receita de TV com o Polo Clubes Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, empresa criada em 2012 pela Polo Capital com o objetivo de antecipar aos clubes brasileiros parte do que a Globo paga pela transmissão do campeonato nacional em TV aberta e fechada.

Em agosto, o Superesportes revelou que o Cruzeiro antecipou cotas de julho de 2019 a outubro de 2022. Para receber à vista, o clube precisou abrir mão de R$ 12 milhões (17% do total), tendo adiantado, na prática, R$ 58 milhões.

Durante as negociações, o presidente Wagner Pires de Sá foi avisado por pessoas próximas que a antecipação de cotas relativas a 2022 – depois de seu mandato – poderia ferir exigências impostas pelo Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidades Fiscal do Futebol Brasileiro, o Profut (lei de agosto de 2015).

Em seu Artigo 4º, parágrafo IV, a lei diz que é 'proibido antecipação ou comprometimento de receitas referentes a períodos posteriores ao término da gestão ou do mandato'. Salvo em duas ocasiões: a) o percentual de até 30% (trinta por cento) das receitas referentes ao 1º (primeiro) ano do mandato subsequente; b) em substituição a passivos onerosos, desde que implique redução do nível de endividamento.

Diante disso, dois meses depois de fechar o acordo e preocupado com possíveis consequências, Wagner assinou documento oficial, mantido em sigilo e também obtido pela reportagem, justificando que o contrato assinado não fere o Profut, uma vez que, segundo ele, o dinheiro seria utilizado em “substituição a passivos onerosos do Cruzeiro EC, implicando na redução do seu nível de endividamento”. Não há detalhes, no entanto, sobre onde o dinheiro foi utilizado.

Assim, desde julho de 2019, a Globo tem depositado na conta do fundo Polo Clubes, em vez de pagar ao Cruzeiro, parcelas mensais que variam de R$ 2 milhões a R$ 2,5 milhões até outubro de 2022.

Outras receitas

Em 2020, o Cruzeiro sentirá os impactos de não disputar a Copa Libertadores, torneio que lhe proporcionou, somente com premiação, R$ 13 milhões em 2018 e cerca de R$ 16 milhões em 2019. Uma possível queda para a Série B dificultaria na montagem de um time competitivo que pudesse brigar até mesmo para vencer a Copa do Brasil, que rendeu R$ 64,35 milhões ao Athletico-PR, campeão em 2019. A própria Raposa já teve oportunidade de lucrar alto na disputa eliminatória: R$ 61,9 milhões pela conquista de 2018.

Em seu balanço financeiro de 2018, o Cruzeiro apresentou arrecadação recorde, de R$ 383 milhões, porém aumentou sua dívida geral, de R$ 386 milhões (2017) para R$ 520 milhões. O Conselho Deliberativo chegou a aprovar a captação de um empréstimo de R$ 300 milhões junto a um fundo internacional que pagaria os débitos em curto prazo, mas as investigações de casos de corrupção da diretoria inviabilizaram a operação.

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