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Sobrou até para Dilma

Com salários e direito de imagem atrasados e dinheiro da venda de Bernard bloqueado, Kalil faz apelo por renegociação de dívida e vê risco de inviabilidade administrativa

postado em 05/12/2013 09:08

Roger Dias /Estado de Minas

Juarez Rodrigues/EM/D.A Press

O discurso do presidente Alexandre Kalil, várias vezes marcado por frases polêmicas, provocativas e de efeito, ontem foi em tom de apelo e humildade. Com parte dos salários e direitos de imagem dos jogadores do Atlético atrasados, o dirigente implorou, em entrevista coletiva, pela liberação do dinheiro da venda do atacante Bernard para o Shakhtar Donetsk, em agosto, por 25 milhões de euros, cerca de R$ 74 milhões. Do valor, a Fazenda Nacional bloqueou R$ 54,4 milhões devido a dívidas fiscais do alvinegro.

São quatro processos: de R$ 14 milhões, de R$ 11.917.262,97, de R$ 4.506.562,68 e um terceiro de R$ 24.002.694,27. O clube mineiro entrou com recurso no Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília, deu imóveis como garantia de pagamento e se propôs a quitar tudo de forma parcelada, mas não obteve êxito. O Atlético ofereceu como garantia um imóvel localizado na Região da Pampulha, cujo valor estimou em R$ 40 milhões. No entanto, de acordo com o documento emitido pelo TRF, um oficial de Justiça avaliou a propriedade em R$ 20 milhões.

Segundo Kalil, foram promovidas três reuniões na capital federal, mas o caso não foi solucionado. O departamento jurídico alvinegro também fez tentativas de desbloquear os recursos. Via Twitter, o presidente anunciou em 15 de outubro que o dinheiro seria liberado até, no máximo, novembro. “A Fazenda Nacional não cumpriu o acordo”, afirmou. Dono de 80% dos direitos econômicos de Bernard, o Galo ficaria com R$ 59,2 milhões – o restante seria divido entre o jogador e seu representante.

Dos apelos de ontem o primeiro foi à presidente Dilma Rousseff. Em seguida, ao ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. “Vim pedir pelo amor de Deus à nossa presidente Dilma Rousseff que nos trate como mineiros, como ela é. Estou pedindo socorro para a presidente, para o ministro Fernando Pimentel, que vai precisar do voto do povo mineiro, que nos ajudem. Estão nos tomando uma receita de R$ 54 milhões”. Por fim, à bancada mineira na Câmara dos Deputados. “Não temos o patrocínio da Caixa, da Eletrobrás e da Eletrosul. Não tivemos ajuda federal para construir estádio. O Atlético e Minas precisam ser observados. Não temos representatividade em Brasília hoje. Dilma não precisa ser atleticana para nos ajudar, e sim mineira, pois questões como essa atingem o Cruzeiro também”.

De acordo com Kalil, os salários dos funcionários do clube e o 13º foram quitados totalmente na segunda-feira, mas parte do grupo ainda não recebeu os vencimentos. O dirigente afirmou que se valerá da “boa relação” com parceiros para pagar os valores até a estreia no Mundial de Clubes, dia 18, em Marrakesh. Ele teria se reunido duas vezes com os atletas e pediu compreensão.

Com a negociação de Bernard o Atlético esperava solucionar o aperto financeiro para continuar investindo em contratações na próxima temporada. Kalil avisa que o orçamento de R$ 254 milhões, aprovado pelo conselho deliberativo na semana passada, depende da solução do caso: “Não temos a menor condição (de sobreviver sem a receita). Estamos falando de R$ 75 milhões dentro de um planejamento de mais de R$ 200 milhões. Não podemos deixar o Atlético descambar depois de cinco anos”.

CRISE Kalil foi dramático a ponto de declarar que, sem acordo, terá dificuldade de seguir no comando até o fim de 2014. “Se continuarem fazendo o que estão fazendo com o Atlético, eu não termino meu mandato. Quero compartilhar com a torcida que tem uma semana que não durmo direito, estou extremamente preocupado. Houve um período de reconstrução do clube, que liquidou as dívidas trabalhistas, fiscais (no estado e no município), cerca de R$ 2 milhões nos Correios e R$ 2 milhões na Copasa, além de 200 títulos em cartório e ações civis. Há uma crise, mas estamos tocando o barco. É só não deixarmos puxar o tapete que caminharemos direito”.


PALAVRA DE ESPECIALISTA

 Janir Adir Moreira, advogado especializado em direito tributário

“Não vejo viabilidade jurídica em relação ao exercício de influência dos poderes Executivo e Legislativo no Judiciário, como é o caso do pedido de ajuda do Atlético. A questão é meramente processual. A Fazenda Nacional procura retirar os bens em caso de débitos, mas o devedor tem o direito de exercer o direito de defesa, evitando o bloqueio. A jurisprudência aconselha não utilizar por enquanto os métodos mais drásticos, pois o devedor ainda pode apelar a outras instâncias.”

FILME EM PRETO E BRANCO

O lançamento dos documentários Contra o vento e R49, o meteoro atleticano reuniu uma multidão de torcedores no restaurante Porcão na noite de ontem. Ronaldinho estava entre as maiores atrações, mas Tardelli, Gilberto Silva e Josué também foram bastante festejados. Produtor e diretor, o baiano Diego Lisboa comemorava: “O resultado foi sensacional. Ao ver as imagens, me sinto também um torcedor do clube. Esse trabalho é um marco na história do Atlético.” Ex-atletas, como Reinaldo, Dario e Paulo Roberto Prestes, participaram do evento.