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Palmeirense na infância, Marques embala no "eu acredito" por virada do Atlético no Brasileiro

Ex-atacante foi revelado pelo Corinthians e encantou-se com o Galo

postado em 30/10/2015 08:30 / atualizado em 29/10/2015 15:57

Jorge Gontijo/EM/D.A Press.

Ídolo do Atlético, Marques foi um dos destaques do Campeonato Brasileiro de 1999, que terminou com o Corinthians campeão logo contra o Galo. Curiosamente, o ex-atacante foi revelado pelo Timão, mas fez história mesmo no Alvinegro de Minas Gerais. Sua ligação com o clube é tão forte que ele hoje reside em Belo Horizonte, embora seja natural de Guarulhos, onde ainda vive a sua família palmeirense. Em entrevista à Gazeta Esportiva, o ex-jogador revelou o passado alviverde e ainda reforçou a torcida pela equipe de Levir Culpi na atual decisão nacional.

“Meu pai torcia pelo Palmeiras. Então, enquanto menino, fui palmeirense. Quando entrei no Corinthians, com 12 para 13 anos, eu me transformei em corintiano. Não é demagogia, não sei se estava naquela fase de poder mudar de time, porque criança tem essas coisas. Assim que entrei no clube, comecei a me identificar com os amigos. Depois de treinar, ia assistir ao time profissional. Adorava ficar uma meia horinha lá. Tinha o sonho de um dia estar ali. Então, fui corintiano com muito amor enquanto vesti a camisa”, garantiu.

Marques não virou a casaca apenas uma vez. “Hoje, torço muito pelo Atlético. É o Galo que preenche a minha paixão pelo futebol. A torcida tem um carinho inimaginável por mim. É muito legal esse reconhecimento. Fui ídolo do time em um momento difícil, sem estrutura adequada, lugar para treinar, saindo pela cidade procurando um campinho, e os salários eram atrasados. Conseguir trazer um jogador de ponta para o clube era quase impossível”, recordou.

Antes de chegar ao Atlético, Marques ainda defendeu o Flamengo a contragosto, em 1996, e acabou emprestado ao São Paulo no ano seguinte a pedido do então iniciante técnico Muricy Ramalho. O atacante sofreu com lesões e não conseguiu se firmar no Tricolor. “Aí, veio o convite do Galo em um momento em que buscava alavancar minha carreira. Diria que foi um tiro no escuro, mas queria enfrentar. Tinha tudo para não dar certo. O time foi formado faltando dois dias para o início da competição. Estranhamente, o negócio fluiu. A partir do primeiro ano, recebi muito carinho da torcida no Mineirão. Criaram até música. Foi um amor à primeira vista”, brincou.

Laços com o Atlético

O segundo amor – o primeiro foi o Palmeiras – de Marques, no entanto, era outro. O ídolo atleticano chegou a dizer que desejava se aposentar pelo Corinthians quando despontou no Terrão. Entretanto, em um dia bastante emotivo, pendurou as chuteiras pelo Galo em 2010. “Com a camisa do Atlético-MG, fiz 386 jogos. Sou muito grato por toda a base que o Corinthians me forneceu, por ter me criado como atleta profissional e me mostrado os caminhos. Mas a minha carreira evoluiu de uma forma positiva em outro lugar. Fiquei muito feliz de ter me aposentado no Galo. Tive três passagens (1997-2002, 2005-06, 2008-10), e sempre foi o meu porto seguro, a minha casa, tanto é que fiquei em Belo Horizonte. Meus laços foram criados aqui”, discursou o ex-atacante.

Marques já começara a pensar assim em dezembro de 1999. Agora se dizendo “calejado” porque havia enfrentado o Corinthians anteriormente, por Flamengo e São Paulo, o principal jogador do Atlético naquela final de Campeonato Brasileiro foi instigado pelo jornal A Gazeta Esportiva a enaltecer a sua ligação com o Timão. “Falei isso em 94?”, perguntou à reportagem, rindo, quando questionado sobre os planos de encerrar a carreira no clube do Parque São Jorge.

Aquele confronto com o Corinthians pelo Atlético, contudo, foi mais breve do que ele esperava. O jogador sofreu uma lesão muscular na coxa esquerda no início da primeira das três partidas da final de 1999, vencida pelo Galo por 3 a 2, no Mineirão. O baque foi tamanho que Humberto Ramos, técnico atleticano na época, comparou Marques a Messi e a Neymar em uma conversa com a Gazeta Esportiva.

“Imagine o Barcelona na Champions League. Eles têm um jogo importante contra o Bayern de Munique, e o Messi não joga e entra o Pedro. Para nós, foi mais ou menos isso. Ele era uma referência no elenco. A ausência foi um dos fatores fundamentais para não termos conseguido a vitória no último jogo. Nunca vai dar para saber, mas tenho a convicção de que, se o Marques estivesse em campo, não perderíamos aquele título. Todos dependíamos dele, e não havia substituto à altura. Sinceramente, ele era muito mais essencial para nós do que o Neymar é para a Seleção”, alardeou Humberto, criticado por apostar em Curê como substituto no segundo jogo com o Corinthians (2 a 0 para o adversário). No terceiro (0 a 0), o escolhido foi Lincoln.

Marques até hoje se lamenta. “Era um campeonato muito massacrante, com jogos difíceis a toda hora. Infelizmente, a perna falhou no momento decisivo. Já sabia que não poderia disputar as outras partidas. Embora tivesse feito tudo o que era possível, era uma lesão muscular muito forte, no posterior da coxa. Tentamos até algumas novidades médicas, tomei infiltração, fiz loucuras para poder jogar. Mas tive que respeitar o músculo, que se curaria com o tempo”, resignou-se, dizendo que sentiu “uma mistura de frustração, tristeza e raiva” em 1999. “Era o momento mais importante da história do clube até então, e eu tinha uma importância considerável na equipe, sabia que ela sentiria. No dia da última partida, fiz um teste para ver se dava, mas a perna estava arrebentada. Esse foi o grande drama da minha carreira.”

O drama se tornou maior porque o Atlético amargou o vice-campeonato. Na segunda partida da decisão, Marques foi flagrado pelo jornal A Gazeta Esportiva na segunda fileira de uma cabine do Morumbi, ao lado de dirigentes e torcedores do Galo. “Parecia mais um garoto, com o boné virado para trás. A tensão aumentou quando Luizão fez o primeiro gol. Aí, a cada ataque, ele se levantava da cadeira, como para empurrar o grupo”, descreveu o periódico, para quem o atleta falou com saudosismo sobre o Corinthians após olhar para as arquibancadas do estádio. “A torcida empurra o time.”

Dezesseis anos depois, Marques também quer empurrar um Alvinegro para o título nacional. “É difícil, mas a história do Atlético se confunde com essas nuances ‘impossíveis’. A turma não costuma jogar a toalha até que, matematicamente, não tenha mais chances”, acreditou, antes de desassociar a “final” de 2015 àquela de 1999. “Hoje, os times são muito parelhos. Em 99, a disparidade era muito grande. Éramos um time de 12, 13 atletas que podiam manter o nível. O Corinthians tinha um esquadrão. Aquele foi um momento único, conseguimos jogar a final mesmo com todas as dificuldades, mas o futebol brasileiro é muito ingrato, prioriza só o primeiro lugar. Mesmo sem o título, deixamos 18 concorrentes para trás”, ressaltou.

Marques fala com a propriedade de quem já trabalha como comentarista esportivo. Após a sua aposentadoria, ele chegou a ingressar na política, como deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com a segunda votação mais expressiva de Minas Gerais. Nas últimas eleições, não conseguiu se eleger. E parece já não contar com votos de corintianos pelo País caso retome a carreira de parlamentar. “Se o Campeonato Brasileiro acabar assim, vou ficar muito triste pelo Galo. Tenho todo um carinho pelo que o Corinthians fez na minha vida, mas gosto muito do Atlético. Não ficaria com a alma lavada se o Corinthians ganhasse”, avisou o ex-palmeirense, às vésperas do jogo decisivo de domingo, no Independência.

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