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Frustração, técnico 'antiético', gana para voltar ao Galo e reencontro com Oswaldo: Hyuri e a temporada de 'dois jogos' na Ásia

Em entrevista exclusiva ao Superesportes, atacante conta tudo sobre passagem frustrante na China e as expectativas para o próximo ano no Atlético

postado em 07/10/2017 06:30 / atualizado em 06/10/2017 12:27

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

O ano de 2017 não foi bom para o atacante Hyuri. Após começar a temporada com expectativas de ser aproveitado pelo Atlético, o jogador foi emprestado para o Chongqing Lifan, da China. A esperança de demonstrar o potencial no futebol asiático foi se transformando em frustração a cada partida em que ele não foi relacionado pelo técnico sul-coreano Chang Woe-Ryong, o grande algoz de sua segunda passagem no futebol chinês. O tempo no Oriente serviu para o jogador refletir sobre o futuro de sua carreira, se preparar para voltar ao Galo no próximo ano e mostrar que tem condições de fazer parte do grupo principal. Para isso, contará com um velho conhecido: Oswaldo de Oliveira, responsável por dar a ele chance de aparecer no cenário nacional com a camisa do Botafogo.

Após jogar apenas 14 minutos da estreia do Atlético neste ano, Hyuri foi emprestado para o clube chinês. Como as regras do futebol no país mudaram, apenas três estrangeiros podem entrar em campo por partida. O ex-atleticano chegou como quarta opção - atrás dos atacantes brasileiros Alan Kardec e Fernandinho e do zagueiro croata Goran Milovic - e nesta posição se estagnou. De acordo com o atacante, o técnico Chang Woe-Ryong, em momento algum, tentou qualquer conversa para mostrar o que faltava ao jogador para que ele ganhasse uma chance de atuar na Superliga Chinesa.

As oportunidades foram escassas: dois jogos com o time principal do Lifan e um gol, de pênalti, marcado na derrota fora de casa para o Shanghai SIPG, por 3 a 2. Com o pouco tempo em campo, Hyuri pediu ao treinador para jogar pela equipe B. De acordo com ele, marcou 14 gols em 18 partidas, mas mesmo assim não convenceu o sul-coreano de que merecia uma oportunidade.

“Essa experiência aqui no futebol chinês em 2017 tem sido bem complicada. Vim para cá com um objetivo, sabendo o que iria encontrar, mas infelizmente eu fui atrapalhado. Vim muito animado. Saí do Atlético numa forma física e técnica muito boa, e precisava colocar isso para fora. O treinador aqui, infelizmente, foi muito antiético comigo em relação às oportunidades”, disse o jogador, em entrevista exclusiva ao Superesportes (confira a íntegra no fim).

Reprodução/Instagram
Apesar de todos os contratempos, Hyuri não vê 2017 como um ano perdido. O jogador aproveitou a temporada de treinos para aperfeiçoar sua técnica e estar mais preparado para ajudar o Atlético a partir do próximo ano. Ele até criou um canal no YouTube (Hyuri TV) para mostrar lances pela equipe B e momentos dos treinamentos. Com mais três anos de contrato com o Galo, o atacante espera ser aproveitado já na próxima temporada.

“Eu descobri muita coisa que, num momento de dificuldade, muita gente não descobre. Pode ter o sentimento de ano perdido, mas não foi. Aprendi muita coisa. Infelizmente tive o desprazer de trabalhar com esse treinador coreano, mas não vou levar comigo. Vai ficar para trás. Ano que vem volto para o Atlético com outra cabeça, com outra gana, para buscar outros objetivos. Só quero terminar a temporada aqui e voltar para o Atlético, para dar continuidade a esse trabalho. Vim trabalhando muito com a cabeça sobre essa situação que venho passando. Ao invés de ficar reclamando, estou buscando trabalhar mais para nunca deixar a desejar. Independentemente de estar jogando pouco ou não, o meu trabalho sempre teve um nível muito elevado. Continuo fazendo meu trabalho à parte de academia, trabalhos extras no campo, como finalização de perna esquerda, que deixei a desejar ano passado pelo Galo num jogo contra o Corinthians. Não quero isso de novo para mim e venho fazendo isso constantemente”.

E Hyuri tem um grande aliado para o retorno ao Atlético na próxima temporada. O técnico Oswaldo de Oliveira deu ao jogador a chance de jogar pelo Botafogo. Com o treinador, o atacante diz que aprendeu a cabecear na semana em que marcou seu primeiro gol pelo clube carioca, justamente de cabeça. O jogador acredita que não terá privilégios por já ter a confiança do comandante, que tem contrato com o Galo até o fim do ano que vem, mas promete trabalhar para demonstrar o mesmo futebol de seu início no Rio de Janeiro.

“Em relação ao professor Oswaldo, quando eu fiquei sabendo da contratação dele, fiquei muito feliz, porque sei o que ele é capaz de fazer para resgatar um jogador e também um grupo. Sobre ter mais oportunidades, vou ter chances se eu fizer e apresentar o que for pedido. Eu não vou ter nenhuma regalia por ter trabalhado com ele. Se não apresentar o que for pedido e necessário para o momento, esse passado não vale de nada. O passado vale por ele saber o que posso render. A partir do momento que eu não render o que ele precisa, as oportunidades vão ser dadas para outros jogadores”.

Confira, na íntegra, a entrevista de Hyuri ao Superesportes

A experiência na China em 2017


Essa experiência aqui no futebol chinês em 2017 tem sido bem complicada. Vim para cá com um objetivo, sabendo o que iria encontrar, mas infelizmente eu fui atrapalhado. Vim muito animado. Saí do Atlético numa forma física e técnica muito boa, e precisava colocar isso para fora. Isso foi um dos pontos que me fez querer aproveitar a oportunidade. Eu queria ter minutos de jogo. Julgava minha forma técnica e física muito boas e precisava colocar para fora. O treinador aqui, infelizmente, foi muito antiético comigo em relação às oportunidades. Eu tento sempre expor nas redes sociais para terem conhecimento que venho fazendo meus gols. Pedi para jogar pela equipe B e tenho 14 gols em 18 jogos. O trabalho vem sendo feito. Infelizmente eu fui atrapalhado, mas tenho tirado muito proveito neste ano em relação ao trabalho. Venho trabalhando muito alguns pontos que faltavam no Atlético. São pontos que eu poderia ter feito por mim mesmo no Atlético, mas acabou que eu não fiz. Hoje, vejo que se eu tivesse feito ou fizer no ano que vem será de muita ajuda para mim.
 
Técnico antiético
 
Tenho me esforçado. Vim para cá sabendo que eles já tinham três estrangeiros no clube. Quando eu aceitei, até falei para o empresário que fez a negociação que eu iria aceitar o desafio e passar por cima de todo mundo para conquistar minha vaga com merecimento. E eu fiz por merecimento. Mas o treinador não quis que eu ajudasse. Sempre fui um excelente profissional aqui, nunca reclamei, nunca exigi uma resposta, apenas trabalhei, fiz trabalhos extras, coisas que não eram necessárias, para que não ficasse um peso na minha consciência que eu deixei a desejar. Venho postando em minhas redes sociais, para que seja de conhecimento de todos, o que venho fazendo. Tenho 14 gols em 18 jogos pelo time B. No time principal, fiz apenas duas partidas e um gol, e já estamos em outubro. As duas atuações foram muito boas, fiquei satisfeito com o que eu apresentei. Em relação aos meus números, não faltou nada. Acho que se o treinador realmente quisesse contar comigo ele teria me aproveitado mais e me ajudado a ajudá-lo. Só quero terminar a temporada aqui e voltar para o Atlético, para dar continuidade a esse trabalho. Vim trabalhando muito com a cabeça sobre essa situação que venho passando. Ao invés de ficar reclamando, estou buscando trabalhar mais para nunca deixar a desejar. Independentemente de estar jogando pouco ou não, o meu trabalho sempre teve um nível muito elevado. Continuo fazendo meu trabalho à parte de academia, trabalhos extras no campo, como finalização de perna esquerda, que deixei a desejar ano passado pelo Galo num jogo contra o Corinthians. Não quero isso de novo para mim e venho fazendo isso constantemente.


 
Ano perdido?
 
Não digo que foi um ano perdido. Eu descobri muita coisa que, num momento de dificuldade, muita gente não descobre. Quando a situação está boa é fácil fazer qualquer coisa. Mas no momento difícil a gente tem que procurar saídas e tentar dar a volta por cima. Tentei fazer isso o ano inteiro e descobri muita coisa que sou capaz de fazer, mesmo longe de família, amigos, uma boa relação de vestiário, coisa que aqui não tem. Digo isso porque no Atlético, por mais que um jogador ou outro esteja numa fase ruim, sempre vai ter um companheiro que vai te ajudar a levantar e dar a volta por cima no dia seguinte. Aqui, infelizmente isso não acontece. Pode ter o sentimento de ano perdido, mas não foi. Aprendi muita coisa. Infelizmente tive o desprazer de trabalhar com esse treinador coreano, mas não vou levar comigo. Vai ficar para trás. Ano que vem volto para o Atlético com outra cabeça, com outra gana, para buscar outros objetivos. Estava pensando aqui, porque preciso me acostumar a jogar o Campeonato Brasileiro. Passei três anos na China. Só joguei no Brasil em 2013 e 2016. Preciso me acostumar a jogar no Campeonato Brasileiro para dar bons resultados e adquirir mais confiança.
 
Oswaldo no Galo
 
Em relação ao professor Oswaldo, quando eu fiquei sabendo da contratação dele, eu fiquei muito feliz, porque sei o que ele é capaz de fazer para resgatar um jogador e também um grupo. Além de ser treinador, ele é um educador também. Isso é muito importante na função de treinador, porque você lida com homens, seres humanos, que você não sabe o que se passa na cabeça deles do lado de fora do campo. Ele sempre deu essa abertura para o jogador. Lembro que, quando cheguei ao Botafogo, seis dias depois eu estreei como titular. Ele estava treinando bola parada defensiva e perguntou se eu sabia cabecear. Eu fui sincero e disse que não sabia. Ele me colocou no rebote e, depois do treino, ele me mandou ficar ajoelhado para cabecear 50 bolas para o lado direito, 50 para o lado esquerdo e 50 para a frente. Ele disse que, se eu fizesse isso toda semana, eu melhoraria meu cabeceio. E no jogo contra o Coritiba não deu outra. Uma bola cruzada e eu fiz o gol de cabeça, o primeiro com a camisa do Botafogo. Por menor que tenha sido o gesto dele, foi enorme para minha vida e minha carreira. Foi o meu primeiro gol, na minha estreia, realizando o sonho de jogar no Maracanã. Essa parte de ser educador é um diferencial dele, poucos têm isso.
 
Mais chances em 2018?
 
Sobre ter mais oportunidades, vou ter chances se eu fizer e apresentar o que for pedido. Eu não vou ter nenhuma regalia por ter trabalhado com ele. Se não apresentar o que for pedido e necessário para o momento, esse passado não vale de nada. O passado vale por ele saber o que posso render. A partir do momento que eu não render o que ele precisa, as oportunidades vão ser dadas para outros jogadores. Não enxergo como a chance da minha vida. A chance da minha vida será se eu render o esperado pelo grupo e pelo treinador.
 
Já conversou com Oswaldo?
 
Eu não entrei em contato com ele por ética. É um momento muito mais dele com o clube, com jogadores que estão com ele. Não seria nada ético aparecer agora. Eu confio que ele vai fazer um bom trabalho e permanecer no ano que vem. Oportunidade não vai faltar. Já vai terminar a temporada aqui e vou visitar meus companheiros no Atlético e, consequentemente, poder falar com ele. Esse momento é dele com os jogadores, é um trabalho difícil lá. Não posso voltar ainda, não posso jogar o Brasileiro e não tem porque voltar agora. Quero deixar esse momento para eles. Assim que eu voltar a gente troca uma ideia. Confio muito que ele vai permanecer e a gente possa começar um trabalho do zero em 2018.
 
Foi procurado no período de baixa no Galo?
 
No momento de baixa no Atlético, eu não tive nenhuma proposta de nenhum clube. Eu vi rumores que eu poderia jogar no América, mas eu recusaria porque eu tinha o que melhorar no Atlético. Infelizmente aconteceu um momento de baixa comigo. Isso pode acontecer com qualquer jogador. A gente vê o que aconteceu com o Robinho neste ano. A gente sabe do que ele é capaz, mas o futebol tem dessas coisas. No meu momento de baixa eu busquei trabalhar. No fim do ano eu dei uma mudada, marquei um gol contra o Santa Cruz, entrei contra o Grêmio na final da Copa do Brasil, depois fiz um gol contra o São Paulo. Nos últimos suspiros, eu vi que as coisas mudaram. Tem que passar por cima dos momentos de dificuldades e encará-los. Não se pode abater por um momento ruim. O futebol gira muito. Sobre propostas, foram coisas apenas da imprensa. Eu queria permanecer no Atlético, recusaria qualquer proposta porque tenho ainda a oferecer ao clube.
 
O que faltou no Atlético?
 
No primeiro semestre de 2016 eu atuei bastante. O Diego Aguirre meu deu oportunidades, fiz bons jogos, vinha me adaptando bem ao clube. Não foi aquele gol contra o Colo Colo que me deixou adaptado. Joguei mais fora do que no Brasil. Aquilo era novo para mim. Não sabia as proporções de vitórias, derrotas, boas e más atuações. No segundo semestre, com o Marcelo Oliveira, acho que faltou confiança dele no meu trabalho. Ele não tinha confiança necessária no meu trabalho. Tive um momento de baixa sim. Eu treinava bem, estava elevando minha confiança. Mas faltou da parte dele. Talvez não passasse confiança suficiente para ele. Para mim, isso foi o sinônimo de poucas oportunidades. Não o culpo. Se ele não viu confiança em mim para ajudá-lo, eu respeito. Se fosse nos dias de hoje, eu continuaria buscando a confiança. É uma pessoa que tenho um respeito muito grande. Eu vivi uma situação aqui com o treinador coreano na China, que foi muito antiético, coisa que o Marcelo não foi. O Marcelo conversou comigo, os auxiliares também, todos querendo que eu melhorasse. Eles avisaram que a oportunidade iria aparecer. Ela surgiu no fim do ano e eu correspondi. Fatalmente ele foi demitido logo depois. Mas a oportunidade chegou. Julgo que ele não tinha confiança necessária no meu trabalho para contar comigo.

Vídeos de gols de Hyuri pelo time B do Chongqing Lifan





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