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Refugiados e imigrantes de 27 países se emocionam com visita ao Mineirão em jogo do Cruzeiro

Iniciativa de dois torcedores levou ao Mineirão 112 estrangeiros

postado em 08/06/2019 21:03 / atualizado em 08/06/2019 22:43

<i>(Foto: Renan Damasceno/Superesportes)</i>
O Mineirão não se coloriu neste sábado apenas com as cores de Cruzeiro e Corinhians, que se enfrentaram pela oitava rodada do Campeonato Brasileiro. Em um ponto do anel superior do estádio, 112 imigrantes, entre adultos e crianças, fizeram tremular bandeiras de 27 países. Muitos tiveram a oportunidade de ver uma partida de futebol pela primeira vez. A iniciativa partiu dos cruzeirenses Fábio Militão e Christiano Rocco e contou com a contribuição de outros torcedores por meio de uma 'vaquinha' virtual, de empresários e do Cruzeiro, com a doação de ingressos.

Vários desses visitantes ilustres são refugiados e escolheram o Brasil para começar uma nova vida longe de guerras, ditaduras e outras situações extremas. A ideia de reuni-los em um jogo do Cruzeiro teve relação direta com a história do clube, fundado em 2 de janeiro de 1921 por imigrantes italianos no período após Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918.

Com brilho nos olhos, representantes de quase todos os continentes do planeta assistiram ao jogo com uma camisa azul que carregava os dizeres  “O mundo é azul, o mundo é Cruzeiro”.

O colombiano Jhonny Garcia chegou a Minas Gerais com a mãe, Carmen, há cinco anos. Graças à iniciativa, ele pôde levar o filho cruzeirense Alexis ao Mineirão. Eles viviam em Puerto Ordaz, na Venezuela, e decidiram deixar o país vizinho devido ao caos político-econômico. “A situação lá foi o motivo para buscarmos novas fronteiras e tentar fazer uma nova vida. Meu filho nasceu na Venezuela, mas é cruzeirense e ficou feliz”.

<i>(Foto: Renan Damasceno/Superesportes)</i>


Ao lado, uma família síria curtia cada momento da primeira visita a um estádio palco de Copa do Mundo. Aymam Wuhbah fugiu da guerra e chegou ao Brasil sozinho, há cinco anos. Em seguida, trouxe a esposa Shadia Alshalish e o filho Al Hassan. Em Minas Gerais, nasceram as meninas Iman e Mariam, fruto desse recomeço no país.

<i>(Foto: Renan Damasceno/Superesportes)</i>


“Eu vim primeiro porque eu não conhecia ninguém no Brasil e não falava nenhuma palavra em português. Não podia trazer minha família comigo no começo. Tinha que arrumar casa, serviço, dinheiro, e depois trouxe minha esposa e meu filho para Minas. Nós moramos agora em Nova Serrana. Tinha um filho já. Depois, tivemos duas meninas brasileiras”, contou o pai, empolgado com a oportunidade de assistir a um jogo do Cruzeiro no Mineirão. “Já conhecia o Cruzeiro. Não Síria, acho que fui a dois jogos. Mas não foco 100% no futebol. Se tem jogo, vejo. Se não tem, tudo bem”, contou Aymam.

Missionária metodista do Togo, Josiane Soukou chegou ao Brasil há um ano e seis meses e trabalha em um projeto de conscientização do uso da água. Emocionada, ela lembrou estar no palco do 7 a 1, goleada histórica da Alemanha sobre o Brasil na semifinal da Copa de 2014. “Minas é um estado maravilhoso. Achei fácil aprender português. É a minha primeira vez em um jogo do Cruzeiro. Eu já tinha visto o estádio Mineirão pela televisão no jogo do 7 a 1. Interessante conhecer pessoalmente”.

<i>(Foto: Renan Damasceno/Superesportes)</i>


Todos os imigrantes que visitaram o Mineirão neste sábado são alunos do Curso de português como língua de acolhimento, ministrado no Cefet-MG desde 2016. O professor Eric Costa valorizou a iniciativa dos cruzeirenses de proporcionar um dia especial ao grupo. 

“Esse curso pretende oferecer aos imigrantes, refugiados, portadores de visto humanitário, apátridas e solicitantes de asilo uma oportunidade de estudar português e que essa oportunidade seja uma maneira de ele ter uma emancipação social, coesão social, empoderar. Hoje, nós temos 27 nacionalidades e 135 alunos, e 12 crianças que também fazem o curso separado. Vieram 112 deles ao Mineirão. Essa iniciativa nasceu dos cruzeirenses Rocco e Militão, eles entraram em contato com a gente, por meio da Patrícia, que trabalha com a gente, porque o Cruzeiro é um clube que tem uma história de imigrantes. Eles se identificaram com o nosso projeto e nos convidaram para vir aqui e viemos com muito amor e carinho. É emocionante para muita gente porque é a primeira vez em um estádio na vida de muitos deles. Nem nos países de origem tiveram essa chance”, destacou Costa, doutorando da área de Relações Internacionais.

Mais que a chance de levar os imigrantes a um jogo do Cruzeiro, clube do seu coração, Christiano Rocco valorizou o dia de felicidade proporcionado a essas pessoas. “Estou muito emocionado. Hoje faz exatamente 30 dias que eu perdi a minha mãe, uma italiana que um dia foi imigrante e que era professora de português. Hoje, esses refugiados imigrantes se formaram no curso de português para que pudessem conquistar um posto mais digno aqui no nosso país. E eu vim ao estádio com minha esposa, meus filhos e meu pai para sentir essa emoção. É um dia de muita alegria pra mim”.

Outro idealizador do projeto, Fábio Militão destacou o poder do esporte de unir tanta gente. “A gente só consegue mudar o mundo a partir do momento que pessoas de classes mais baixas têm acesso ao esporte, ao lazer e à cultura. E o Mineirão é um espaço totalmente democrático, onde pessoas de todas as classes assistem a um jogo. É a oportunidade de todos estarem juntos no mesmo lugar. Descobri que muitos não conheciam um estádio nos países deles de origem. O Mineirão é primeiro. Foi um dos projetos mais bacanas que fiz na minha vida. Isso não tem preço”.

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