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AMÉRICA

Salto tecnológico: como a análise de desempenho ajudou o América no título da Série B e na volta à elite nacional

América investiu em equipamentos e profissionais de qualidade desde 2016 e conta hoje com um Centro de Análise e Mercado dos mais modernos do Brasil

Bruno Furtado/Superesportes
Antes mesmo do título da Série B e da volta à primeira divisão, o América já fazia parte de uma elite nacional pouco conhecida por torcedores e até mesmo funcionários que trabalham diariamente no CT Lanna Drumond. Desde 2016, o clube passou a investir pesado em equipamentos, softwares e profissionais para transformar seu Centro de Análise de Desempenho e Mercado em um dos mais modernos do país. Graças a esse empenho, o trabalho de campo deu um salto de qualidade, o que contribuiu para que o técnico Enderson Moreira e jogadores se transformassem nos grandes personagens da conquista.

Na semana que antecedeu a ‘decisão’ contra o CRB-AL, no Independência, o América abriu suas portas para o Superesportes conhecer o funcionamento desse departamento estratégico. Com autorização de Enderson Moreira, a reportagem teve acesso a todas as informações que foram usadas no jogo do título, incluindo preleções, vídeos, estatísticas e orientações acerca de pontos fortes e fracos do adversário. Vivida essa experiência, a conclusão é que o segundo acesso seguido do América à Série A não foi obra do acaso. 

Hoje, em termos de análise de desempenho, o América tem estrutura igual ou superior aos clubes que vai enfrentar no Brasileiro de 2018. Curiosamente, o marco desse avanço tecnológico foi a chegada do técnico Sérgio Vieira, em 4 de junho de 2016. Embora ele tenha ficado no Coelho apenas 43 dias, um dos integrantes de sua equipe, o também português Rui Sousa, acabou sendo contratado para tocar o projeto no Lanna Drummond.

Desde então, o América investiu quase R$ 40 mil na compra de equipamentos, gasta R$ 55 mil por ano com licenças de três softwares de análise e tem um orçamento de R$ 400 mil para o departamento, composto por Rui e outros dois analistas: Frederico Fortes, dedicado ao estudo dos adversários, e Juan Gomes, focado também nas categorias de base.

Bruno Furtado/Superesportes
Formado na escola europeia, que faz uso da análise de desempenho há muitos anos, Rui Sousa foi o grande responsável por colocar o América na vanguarda. Embora seja engenheiro por formação, a paixão pelo futebol o direcionou para o estudo desse esporte. Desde que fez pós-graduação em ‘Análise do jogo’, pela Universidade do Porto, jamais deixou a área. Além de experiências em Portugal, ele estagiou no Flamengo e passou como efetivo por Sport, Atlético-PR, Guaratinguetá-SP e Ferroviária-SP. Mesmo tendo a licença de técnico da Uefa, sua pretensão é seguir nos bastidores, como uma espécie de ‘anjo da guarda’ de Enderson Moreira e de jogadores, tamanha a riqueza dos dados que fornece.

Rui, por sinal, não poupa elogios a Enderson. A “cabeça aberta” do técnico para essa nova área revolucionou o América. Até a ‘era’ Givanildo Oliveira, a análise de desempenho não era explorada. “O Enderson tem total participação nisso. Em momento algum o treinador deixaria eu fazer algo se ele não tivesse confiança e se não soubesse da qualidade do profissional que está ao lado dele. Tudo tem a ver com a confiança do treinador, com a competência dos profissionais que estão ao lado. Se nós não tivéssemos qualidade, o Enderson não iria nos chamar para ajudá-lo e não nos incluiria no processo”, conta Rui.



Enderson Moreira não se vê mais sem os números e os vídeos do departamento de análise. “Acho um trabalho fundamental hoje no futebol. Você ter conhecimento dos seus adversários e, ao mesmo tempo, ter também conhecimento do que executa dentro de campo. Ter suas ideias avaliadas e analisadas para ver se aquilo que está sendo passado no dia a dia de trabalho está sendo executado de maneira correta pelos atletas dentro de campo”.

ACEITAÇÃO DO GRUPO

O passo mais difícil da implantação, segundo Rui Sousa, foi convencer os jogadores sobre a importância do vídeo e da análise para corrigir deficiências coletivas e individuais. “Tudo isso passa por uma conquista por parte de todo o departamento. É importante você ter um poder de convencimento de que aquele material que você passa é importante para o rendimento da equipe. No América há alguns jogadores que buscam as informações. Eles vêm até nossa sala sem o treinador pedir. Já pedem algumas informações, alguns lances deles e de outras equipes. Acho que o Brasil vive um processo de formação. Eu acredito que em seis ou sete anos esse processo [análise de desempenho] vai se tornar uma rotina".

A título de comparação, na Europa, técnicos como Pep Guardiola são entusiastas desses recursos. Gabriel Jesus, atacante do Manchester City, disse recentemente ao canal ESPN que o treinador espanhol dá palestras antes de cada treinamento. Além disso, as preleções com vídeos antes das partidas duram em torno de 40 minutos. Rui Sousa considera que esse contexto ainda é impossível de ser aplicado no Brasil.

A ANÁLISE NO DIA A DIA

O trabalho do analista demanda horas dedicadas à coleta e principalmente à interpretação dos dados da própria equipe e do time adversário. Os três profissionais do clube assistem a todos os jogos do América e aos três últimos duelos daquele que será o próximo oponente.

A partir daí, Enderson Moreira utiliza o levantamento para orientar treinos, fazer o time evoluir taticamente e tentar neutralizar os pontos fortes dos rivais.



O conteúdo é utilizado não só antes, mas também durante e depois das partidas. Rui Sousa filma todos os jogos diretamente do estádio, em câmera aberta, para facilitar a observação de eventuais erros de posicionamento que o enquadramento da imagem da televisão não permitiria ver. A correção dos erros é feita ainda no intervalo dos jogos (assista ao exemplo no vídeo abaixo).



Na reapresentação do grupo, no dia seguinte às partidas, também são feitas correções no CT Lanna Drumond a partir de vídeos previamente editados pela equipe de análise.

”Em todo intervalo temos uma pequena reunião antes de falar com os atletas. Damos esse tempo para que eles possam entrar no vestiário, fazer os atendimentos necessários, hidratar, relaxar e descansar. Durante esse período, fazemos essa pequena reunião. Eu, os auxiliares, o Rui Sousa, o Ricardo Drubscky (diretor de futebol), e a gente vê o que está acontecendo, tomamos algumas decisões e eu tenho o trabalho de passar para os atletas de maneira simples, rápida e direta. Para tentar acertar algum detalhe ou explorar no adversário alguma questão. Nós temos o auxílio dessa imagens. Durante a semana fazemos uma análise muito mais detalhada. Sempre temos um vídeo do nosso último jogo. Passamos as coisas que foram boas e as que não foram tão boas assim. Temos o adversário. São vários os momentos em que temos a avaliação do que está sendo executado”, conta Enderson.

NADA SE PERDE

Todo o material produzido e editado pelo departamento é armazenado em uma plataforma definitiva de trabalho. Com isso, mesmo que os atuais analistas deixem o América, os sucessores terão acesso aos conteúdos. Nada se perde.

"Para analisar nosso time, temos uma base com todos os dados de cada jogador. Esses dados são municiados com imagem da TV. Temos numeradas todas as ações ofensivas e defensivas ao longo da temporada. O bom disso é que eu posso dizer e mostrar automaticamente os momentos, com imagem em ótima resolução", explica Rui Sousa.

O América dispõe hoje de três sistemas pagos: Wyscout (espécie de big brother da bola, com vídeos de jogos e atletas de qualquer campeonato do mundo, acompanhado de estatísticas diversas), Instat (base de dados) e Sportscode (editor que permite sincronizar uma filmagem de uma partida com dados estatísticos de atletas, como finalizações). 

No Brasil, além do América, apenas 13 clubes utilizam o Sportscode: Cruzeiro, São Paulo, Palmeiras, Santos, Corinthians, Flamengo, Vasco, Grêmio, Internacional, Atlético-PR, Coritiba, Bahia e Vitória. A informação é do representante desse sistema.

Desde que os protocolos de trabalho foram implantados no profissional, o América estendeu o uso da análise para as categorias de base. Todos os jogos dos times sub-15, sub-17 e sub-20 passaram a ser filmados. Com a ajuda de plataformas modernas, como a  Sportscode, os lances de cada atleta são catalogados para eventual correção.

LAPIDAÇÃO DE TALENTOS

O analista também têm a função de ajudar individualmente cada jogador. Rui Sousa cita como exemplo o trabalho feito com o zagueiro Messias, um dos destaques do América na conquista do bicampeonato da Série B. "Nós chamamos o jogador e mostramos os erros individualmente. Fizemos isso várias vezes com o Messias e, curiosamente, foi o período em que ele mais evoluiu. O que a gente pretende que o Messias faça? A gente mostra não só lances dele, mas também de outros jogadores que são referência na posição. Mostramos imagens daquilo que nós achamos que um zagueiro de alto nível deve fazer".

"A gente busca comportamentos do Mascherano, por exemplo, sobre o que é dar uma linha de passe para o goleiro, daquilo que é atrair um espaço, construir um espaço... Foi uma forma de o Messias perceber o que o Enderson quer e de perceber também que é possível fazer em alto nível", agregou Rui.



IMPORTÂNCIA NO MERCADO

O América também tira proveito da análise de desempenho em suas ações no mercado, seja para contratar ou recolocar atletas que estão sendo pouco utilizados eu seu elenco. 

No caso de aquisições, os nomes chegam à diretoria de futebol por diversos meios, como indicação de empresários, do treinador e até mesmo do próprio departamento de análise. Daí em diante, o setor realiza um levantamento profundo com informações dos jogadores.



"Tudo é informação: naturalidade, idade, pé preferencial, posições em que atua, número de jogos que fez na temporada anterior, na atual temporada e durante toda a carreira, além de colocarmos os clubes que defendeu. Há também outras informações importantes, como notícias sobre o comportamento, por exemplo. Buscamos, também, notícias sobre lesões e condutas antidesportiva nos últimos tempos", explica Rui Sousa.

Feito o trabalho de pesquisa, a decisão de fechar ou não o negócio fica exclusivamente a cargo da direção. "Nós complementamos uma informação sobre o que vem de fora, dizendo se é bom ou não é, e passamos para a tomada de decisão para a diretoria. Nós nunca dizemos se o clube vai contratar ou não. Essa decisão é da diretoria. Dizemos apenas se ele é interessante e se o atleta nos seria útil para ser titular, reserva, etc".

Por outro lado, se um jogador está sendo subaproveitado, todo o conteúdo catalogado também auxilia o clube na recolocação do profissional. "Nós podemos, por exemplo, criar um vídeo do Tony para tentar encontrar um clube para ele, já que ele não estava sendo útil aqui. Isso ocorreu com o Marion também. Essas situações são pedidas muitas vezes do dia para a noite pela diretoria, porque determinado empresário ou clube está pedindo".

Colaborou Rodrigo Melo

Bruno Furtado/Superesportes
EQUIPE DO AMÉRICA

Rui Sousa
Formação: Engenharia eletrotécnica e de telecomunicações
Mestrado: Pedagogia
Pós-gradução: Análise do jogo
Curso Uefa: licença C
Outros clubes: Flamengo (2014), Sport (2014), Atlético-PR (2015), Guaratinguetá (2016), Ferroviária (2016)

Frederico Fortes
Formação: Administração
Pós-graduação: MBA em futebol e negócios (Football industries, em Liverpool-ING)
Cursos diversos de análise de desempenho e scouting
Outros clubes: Juventude-RS

Juan Gomes
Formação: Educação física (UFMG)
Fez curso de gestão do futebol pela Universidade do Futebol
Possui licença C de técnico no curso da CBF

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