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Da lanterna ao sonho de acesso: diretor do América revela ações que fizeram time reagir na Série B

Paulo Bracks elogiou trabalho de Felipe Conceição à frente do elenco

postado em 05/10/2019 06:00 / atualizado em 05/10/2019 14:56

<i>(Foto: Daniel Hott/América)</i>
A recuperação do América na Série B do Campeonato Brasileiro passou pela confiança no trabalho de Felipe Conceição, que tirou o time da última posição, na 10ª rodada (7 pontos), e conduziu até a briga pelo acesso (5º, com 38 pontos em 26 jogos). Um dos principais apoiadores do treinador, o diretor executivo de futebol Paulo Bracks deu detalhes de como ocorreu o resgate da confiança do grupo.

“A gente identificou os problemas que existiam internamente no clube. Um dos problemas principais e que mereciam pronta intervenção da diretoria era o resgate da confiança dos atletas. Não se tratava de trocar de jogador, não se tratava de contratar ou dispensar, fazer barca, contratar nomes novos. Era resgatar a confiança do elenco que ali estava”, afirmou, em entrevista ao Superesportes.
 
 

Então coordenador técnico do América, Conceição foi efetivado treinador em 15 de julho, pouco depois da demissão Maurício Barbieri. Na ocasião, a equipe vinha de derrota por 4 a 0 para o Figueirense, no Independência, pela nona rodada da Série B.

O começo da trajetória não foi fácil em termos de resultados. Na estreia, o empate por 1 a 1 com o Vila Nova-GO, no Serra Dourada, em Goiânia, fez o Coelho cair para a lanterna, com apenas seis pontos. Na sequência, o time ficou no 0 a 0 com o Oeste e perdeu por 1 a 0 para o Atlético-GO, no Independência. Passadas 12 rodadas, o América havia somado apenas sete pontos. Apesar das cobranças externas, a direção deu respaldo a Felipe Conceição, conforme explicou Bracks, por causa da evolução no rendimento.

“Tanto no jogo contra o Vila, em que tivemos comportamento muito bom, quanto no jogo contra o Oeste, que não ganhamos em casa por detalhes. E o jogo contra o Atlético-GO talvez tenha sido, até então, o nosso melhor jogo na competição. Só que no fim do jogo tomamos um gol por detalhe. Ali foi o momento de juntar e unir cada vez mais, pois acreditávamos no trabalho. Era muito cedo para avaliar, mas o que tinha sido mostrado nos fazia crer que era positivo, como de fato foi”.

<i>(Foto: Mourão Panda/América)</i>

Na 13ª rodada, o América venceu a Ponte Preta por 1 a 0, no Moisés Lucarelli, em Campinas. A partir dali, começou a disparada. O empate por 0 a 0 com o Vitória, na 17ª rodada, fez o time sair da zona de rebaixamento e assumir o 16º lugar, com 18 pontos. Na 23ª rodada, com o triunfo por 2 a 0 sobre o Sport, o Coelho alcançou 32 pontos, abriu oito de vantagem sobre o Vila Nova (17º) e ficou a quatro do CRB (4º).

Por fim, a vitória de quinta-feira sobre o CRB, por 1 a 0, no Independência, pela 26ª rodada, deixou o América com 38 pontos. Desde a arrancada inicial ante a Ponte Preta, o time de Felipe Conceição disputou 14 partidas, com nove vitórias, quatro empates e apenas um revés - 73,8% de aproveitamento. Mérito do conhecimento do treinador, que, na visão de Paulo Bracks, será no futuro um dos mais renomados do Brasil.

“O Felipe Conceição será, em pouco tempo, um treinador de ponta no futebol brasileiro. Não tenho dúvidas em relação a isso. Tem conhecimento técnico muito grande. Ele foi escolhido por conhecer estritamente o elenco nosso, por saber as características dos nossos jogadores, saber o comportamento, o caráter. Ele conhece os atletas. A escolha dele, na verdade, não foi uma escolha, e sim ele pedindo passagem por conhecer o elenco. Precisávamos naquele momento de alguém que acreditasse nos jogadores com os quais estávamos trabalhando. A partir daquele momento, foi um trabalho feito diariamente para sairmos dessa situação e nós saímos”.

Paulo Bracks, de 38 anos, assumiu a diretoria de futebol do América em maio de 2019. Antes, foi o responsável pela gestão das categorias de base, cargo que ocupava desde janeiro de 2018. O executivo é graduado em Direito pela Faculdade Milton Campos e tem especialização em Direito Desportivo e Negócios do Esporte pelo Centro de Estudos em Direitos e Negócios (CEDIN). Também estudou Gestão em Futebol e Análise de desempenho, pela Confederação Brasileira de Futebol, e fez cursos na Premier League (Inglaterra) e La Liga (Espanha).

À reportagem, Bracks comentou outros temas de relevância, como a passagem do técnico Maurício Barbieri (antecessor de Felipe Conceição) pelo Lanna Drumond, o processo de contratações e renovações e a meta de potencializar a formação de jovens jogadores no clube.
<i>(Foto: Jair Amaral/EM/ D.A Press)</i>

ENTREVISTA COM PAULO BRACKS

 
Você assumiu em maio a diretoria de futebol do América, cargo vago desde a saída do Ricardo Drubscky, no fim de 2018. Na ocasião, o clube estava na zona de rebaixamento e ainda tinha o Maurício Barbieri como técnico. Depois, houve a troca de comando, com a efetivação do Felipe Conceição, e a reação a ponto de se distanciar do Z4 e, incrivelmente, sonhar com o retorno à elite do Campeonato Brasileiro. Como foi feito esse trabalho de recuperação?

“A gente identificou os problemas que existiam internamente no clube. Um dos problemas principais e que mereciam pronta intervenção da diretoria era o resgate da confiança dos atletas. Não se tratava de trocar de jogador, não se tratava de contratar ou dispensar, fazer barca, contratar nomes novos. Era resgatar a confiança do elenco que ali estava. Acredito que essa medida foi identificada como necessária e foi a primeira que a gente começou a efetivamente ser forte nela.

Como fizemos isso? Primeiramente, com uma conversa com os atletas. Passar essa confiança da diretoria aos atletas com a comissão nova, que, na verdade, não era tão nova assim - e um dos motivos para ele (Felipe Conceição) ser escolhido foi o conhecimento (do elenco). Passamos para eles que acreditávamos neles, que o elenco estava mantido num primeiro momento até sair da situação, que não faríamos nenhum tipo de mudança drástica. Eles assimilaram, entenderam e se sentiram seguros para buscar essa estabilidade. É muito difícil passar segurança no futebol brasileiro com um time que está na 20ª colocação da Série B. Ou seja, as portas da Série C estavam mais próximas. Então, procuramos dar confiança, levantar os astral dos atletas e dizer: ‘a gente confia em vocês’. Quem vai tirar o América dessa situação são vocês. Essa foi a primeira medida. A partir dela, exteriorizamos. Você passa para o grupo, o grupo acredita, você dá publicidade a essa confiança no elenco.

A partir dali, é muito trabalho. E um trabalho diferente. Até acredito que você vá me perguntar o porquê do Felipe. E eu te adianto: o Felipe Conceição será, em pouco tempo, um treinador de ponta no futebol brasileiro. Não tenho dúvidas em relação a isso. Tem conhecimento técnico muito grande. Ele foi escolhido por conhecer estritamente o elenco nosso, por saber as características dos nossos jogadores, saber o comportamento, o caráter. Ele conhece os atletas. A escolha dele, na verdade, não foi uma escolha, e sim ele pedindo passagem por conhecer o elenco. Precisávamos naquele momento de alguém que acreditasse nos jogadores com os quais estávamos trabalhando. A partir daquele momento, foi um trabalho feito diariamente para sairmos dessa situação e nós saímos”.
 
 

O Maurício Barbieri já estava no América quando você foi efetivado diretor executivo de futebol profissional. Mesmo assim, acho que seja possível uma avaliação do trabalho. Por que os resultados não apareceram?

“Não participei da contratação do Barbieri, mas é um treinador moderno, jovem, que teve experiências boas no Flamengo e no Goiás. Então, justificou-se a contratação dele pelo América. Mas, não deu certo dentro de campo. Acredito que, quando não há total sintonia entre comissão e elenco, o resultado não é o esperado. Não foi por falta de trabalho ou dedicação, mas, como dizem na gíria do futebol, não deu liga.

A gente entendia internamente que o período de intertemporada seria essencial para que essa sintonia viesse, mas não veio. Por mais que tenhamos tido bons testes, nosso retorno à Série B, que foi no jogo contra o Figueirense, escancarou que faltava uma sintonia entre elenco e comissão - não por falta de trabalho. A gente entendeu que era o momento de trocar, de fazer uma mudança mais drástica e decidimos fazer a troca da comissão.

Muita coisa mudou desde aquele jogo contra o Figueirense, que posso dizer que foi um marco, um divisor de águas para o América. Se eu pudesse voltar ao tempo hoje, acho que manteria o resultado daquele jogo. Nos fez tomar decisões que talvez não tomaríamos se o resultado fosse outro - vitória, empate ou até mesmo derrota por um placar menor. De lá para cá, por exemplo, o Figueirense não ganhou mais nenhum jogo. E o América tomou outro rumo na competição. Desejo muito sucesso ao Barbieri e sua comissão, de quem ficamos muito próximos, mas temos que entender que o trabalho está à frente e ali era o momento de trocar”.

Quando o Felipe Conceição assumiu o América, o começo dele não foi bom. Houve dois empates e uma derrota. A diretoria chegou a cogitar nova mudança ou confiou plenamente no trabalho do treinador?

“O resultado não veio nos três primeiros jogos, mas o desempenho melhorou muito. O comportamento dos atletas melhorou muito, dentro e fora de campo. Isso fez a diferença. No jogo contra o Vila Nova-GO, tivemos um domínio avassalador de 20 a 30 minutos. Avassalador é um termo que quem usou foi o Guto Ferreira, depois do jogo contra o Sport, na Ilha do Retiro, onde ganhamos por 2 a 0 com propriedade. Ele (Guto) usou esse termo, que o América foi avassalador.

Esse período do jogo (contra o Vila Nova) nos mostrou que o time tinha outro comportamento e estava com desempenho diferente. Nos fez acreditar que estávamos certos e o time iria para outra rota. Tanto no jogo contra o Vila, em que tivemos comportamento muito bom, quanto no jogo contra o Oeste, que não ganhamos em casa por detalhes. E o jogo contra o Atlético-GO talvez tenha sido, até então, o nosso melhor jogo na competição. Só que no fim do jogo tomamos um gol por detalhe. Ali foi o momento de juntar e unir cada vez mais, pois acreditávamos no trabalho. Era muito cedo para avaliar, mas o que tinha sido mostrado nos fazia crer que era positivo, como de fato foi”.

O bom trabalho atual do Felipe pelo América despertou assédio de outros clubes?

“O América não recebeu nenhuma proposta em relação ao Felipe. A cabeça do Felipe está 100% no América. O Felipe tem um projeto no América, e o América tem um projeto para o Felipe. Não há nenhum tipo de desvio de foco ou assédio que possa atrapalhar o trabalho. Vejo como natural esse holofote em cima dele e do América como um todo, pois o América tem uma camisa muito forte na Série B e que estava na 20ª colocação.

A gente nunca pode esquecer que estávamos no fundo poço, em último lugar, e vários jornalistas, até com propriedade, disseram que era o pior América que eles haviam visto jogar nos últimos tempos, que o América estava para cair à Série C e não voltaria nunca mais. Existia um fantasma muito grande, e ele foi o capitão dessa nau. A gente saiu dessa situação. Saímos da lanterna, da zona de rebaixamento, da parte de baixo da classificação e estamos mirando coisas maiores lá em cima. Vejo como algo natural esse holofote e como algo muito positivo. O Felipe tem trabalhado em sintonia com todos, com apoio da presidência, da diretoria, dos atletas e de funcionários. Merece esse holofote, não cai nada no colo, é muito trabalho”.
 
 
 
O América mudou o perfil dos contratados, passando a apostar também em jovens valores de clubes de ponta em vez de focar exclusivamente nos medalhões. Como ocorreu essa mudança de mentalidade?

“Eu vim da base. Os nortes do trabalho são a formação e a carreira do atleta desde o sub-17 ou sub-20 até a transição para o profissional. Foi um dos nossos objetivos reduzir a média de idade do elenco. Posso afirmar que diretoria e comissão técnica têm a meta de reduzir a média de idade. Medalhões de um lado, eficiência e produtividade do outro. Ninguém joga mais com nome. Joga com eficiência e produção no dia a dia. Isso foi nítido no elenco do América.

Nós estreamos na Série B contra o Operário com os onze iniciais com média de idade de 30 anos. No jogo contra o Sport, na nossa última vitória na Ilha do Retiro, nossa média era de 24. Isso é uma mudança absurda, de 30 para 24. Acho que é uma tendência de trabalho, que deve ser observada pelos clubes, que tem dado certo.

O Athletico-PR campeão da Copa do Brasil tinha média de idade de 24 para 25 anos. Acredito nessa redução de idade como fator de trabalho a ser observado e que tem total respaldo dessa comissão técnica, vide a utilização de vários jogadores da base, que o Felipe conhecia como coordenador técnico e auxiliar e que têm a linha da filosofia do América, que é de DNA formador. Acredito que seja um caminho natural.

Quanto à contratação ou vinda de atletas igualmente jovens de outros clubes, passa também por essa meta de redução de idade, de oportunidades a jogadores com outro tipo de perfil e também pela captação do América, que é muito forte. Passa ainda pelo cérebro da diretoria de futebol, que é o núcleo de mercado e análise de desempenho. Todos esses atletas foram monitorados. Há um monitoramento de mais de 500 jogadores, que, evidentemente, não são todos que o América tem poder de chegar. Mas alguns que a gente entende que, pelas características, poderia acrescentar ao elenco, foram trazidos meticulosamente por conta da idade, do perfil e das parcerias que começamos a fazer com os clubes.

Exemplos do São Paulo e do próprio Athletico-PR. Do São Paulo vieram o Geovane e o Lucas Kal. O Lucas Kal chegou e com uma semana já teve a oportunidade de ser titular. Foi bem. Geovane chegou a ser titular, está voltando agora de lesão, foi bem. São jogadores que a gente monitorou e trouxe nessas condições. O América tem a vitrine desses atletas, não está desprotegido em relação ao contrato, e todos têm possibilidade de ficar aqui no ano que vem, sim. Passa muito por essa filosofia.

Se você me perguntar: o que gostaria de fazer no América? Eu digo que talvez seja resgatar a essência do clube. A essência do América é essa, tem o DNA formador, é uma escola de formação que não pode ser desprestigiada. O resgate desse DNA é essencial”.

Ao mesmo tempo em que a média de idade do elenco diminui, jogadores experientes como João Paulo e Juninho - este de grande identificação com o clube - têm se destacado. Como o clube vê isso?

“Reduzir a média de idade não significa que abriremos mão de atletas experientes. Mas serão pontuais e com características que buscamos, sobretudo físicas. Atleta que não consegue sustentar maior a maior parte do jogo em alta intensidade terá mais dificuldades de se encaixar no nosso sistema hoje. Esses dois que você citou, somado a outros com minutagem grande este ano (posso citar ao menos dois: Leandro Silva e Felipe Azevedo), vão ajudar demais o América demais em 2020. Se depender só da vontade da diretoria, não escondo, estarão na pauta para o ano que vem. Poderão ser nossas referências no elenco, dentro e fora de campo”.

Dois casos chamaram muita atenção no grupo principal. Primeiro, o do Júnior Viçosa, que aparentemente estava fora dos planos, mas voltou e fez gols importantes na Série B. Depois, o do Paulão, titular absoluto até receber um terceiro cartão amarelo e, posteriormente, negociado por razões nas quais o técnico Felipe Conceição preferiu não se aprofundar. Poderia explicar os episódios?

“Um dos papéis da diretoria de futebol é mediar soluções entre elenco e comissão técnica. Quando um treinador chega a um clube e não participa 100% da montagem do elenco, é natural que um jogador ou outro não lhe agrade. Eu não digo de lado pessoal, e sim técnico, esportivo, de característica, de forma de jogar.

O que aconteceu com o Júnior Viçosa foi exatamente isso. A comissão técnica não via nele as características que gostaria de ter naquela posição. Esse conflito tivemos de mediar, pois é um ativo do clube. Por outro lado, o treinador não prestigia tanto o jogador, isso acontece o tempo inteiro. Futebol é isso, você tem 30 jogadores: onze estão satisfeitos por jogar, os demais não estão. De positivo, a gente conseguiu manter o Júnior Viçosa próximo de nós. Aí veio um papel muito bem desempenhado pelo Felipe Conceição como coordenador técnico, pelo Luiz Kriwat gerente de futebol e por mim - além, evidentemente, da superintendência e da presidência - de dar uma atenção constante e diária para um atleta que não estava nos planos da comissão técnica, mas era um ativo do clube.

Evidentemente, quando um atleta desse nível está desprestigiado pela comissão, ele recebe propostas. Mas tivemos o discernimento de não aceitar algumas propostas por esse atleta e fomos premiados com a reintegração dele por uma comissão nova, que explora suas características de forma diferente da comissão anterior. Esse atleta é o nosso artilheiro da competição e também do ano. O caso do Júnior Viçosa nós ficamos muito satisfeitos de ter esse comportamento de não alijar o atleta do nosso planejamento. Ele hoje dá resultado”.

Paulão, não aconteceu nada. Não houve nada que pudesse ser exteriorizado ao público ou para a imprensa. O Paulão é um jogador com currículo muito bom. É um atleta que nos ajudou demais em nossa arrancada na Série B, sob o comando do Felipe. É um atleta que tem mercado. O Paulão tem contrato com o Internacional, estava emprestado ao América e acontece muito isso no futebol. Quando estamos em baixa, não há tanta procura como quando você dá uma arrancada. É um trabalho da diretoria tentar blindar para que esses atletas, em ascensão, não saiam do clube.

O Paulão recebeu uma proposta boa, de Série A. A gente se sentou com o Paulão e, com muita transparência e harmonia, acertou a saída dele. Ele saiu do CT pela porta da frente, abraçando e se despedindo de todos. Eu mesmo conversei muito tempo com ele, agradeci por ter trabalhado com ele e desejei sucesso”.

O América foi compensado financeiramente com a transferência do Paulão para o Fortaleza?

“Não, o América não tinha vínculo do Paulão. É jogador do Internacional. A proposta que veio passou pelo Internacional e depois pelo América. Como o atleta foi novamente emprestado, não recebemos. Se tivesse sido vendido, aí sim haveria (compensação)”.

Teve também o caso do Michel Bastos, que só fez um jogo pelo time. Por que, na sua avaliação, não rendeu?

“Não contratei o Michel. Cheguei ao profissional, e o Michel já estava contratado. Até apresentei o Michel ao lado do Willian Maranhão, mas não participei das contratações ativamente. Não deu certo. Foi um relacionamento entre clube e jogador que não teve o resultado esperado. O Michel queria jogar. E o América queria que ele jogasse. Não faltou trabalho, empenho, dedicação. Nem dele e muito menos da comissão técnica, sobretudo da atual, que dá atenção a todos os atletas, alguns até mais que os outros pelas necessidades que têm.

Não chegou ao nível que a gente queria, e o Michel também entendeu que não chegaria ao nível que queria quando assinou contrato com o clube. A rescisão foi amigável, os dois entenderam que não tinha futuro. O Michel é muito lúcido, tem uma carreira brilhante e entendeu que não está no nível que queria estar. Ficamos só com lembranças do Michel por tudo que ele fez na carreira, só com imagens positivas”.

Hoje, como funciona o processo de contratação de jogadores no América?

“Todas as contratações passam pelo núcleo de análise de mercado e desempenho. A gente ouve muito nos outros clubes sobre centro de inteligência. O América já tem há muito tempo. Não foi a minha subida na diretoria que trouxe esse núcleo. Esse núcleo já existia e está sendo potencializado para o ano que vem. Todas as contratações, mesmo de jogadores de nome e com desempenho notório, passam por esse núcleo de análise. São colhidas informações atuais do atleta, desde peso até número de jogos e como foram os jogos. É uma análise completa e rápida de uma equipe que hoje tem oito analistas de mercado e desempenho. A gente fica mais seguro nessa contratação por saber como esse jogador vai chegar.

Às vezes assumimos o risco que foi apresentado pelo núcleo, mas temos ciência, não somos surpreendidos por nada. Um empresário evidentemente oferece jogadores de manhã, à tarde e à noite, não só jogadores, como treinadores. Na demissão do Barbieri, eu mesmo recebi nomes de 32 treinadores. Mas a gente busca perfil de treinador e atleta. Esse monitoramento é colocado em voga sempre que a gente pensa em um nome. Isso tem acontecido com alguns nomes recentes que foram citados aqui na minha gestão, como Geovane, Lucas Kal, Juan Boselli, e outros, que começaram o ano no clube e foram frutos da observação desse núcleo de análise de mercado, como o Airton. O América contratou no interior do Rio Grande do Sul, longe dos holofotes do mercado, mas tínhamos segurança de quem era o Airton e como era esse atleta. Ele precisava de um tempo, não chegou pronto para jogar. Foi feita uma análise e um trabalho diário da preparação de goleiros, da preparação física e da fisiologia para que a comissão técnica pudesse contar com o jogador.

Isso tem acontecido no América e é a tendência toda no ano que vem. Não somos surpreendidos com o jogador que chega. Se ele chega, é porque passou por várias mãos e cabeças antes de vir para o clube. Essa é a nossa linha hoje: diretoria, comissão e presidência, respaldadas pelo núcleo de análise de mercado”.

Antes, o América optava por aguardar o fim do ano para renovar contratos com os jogadores. Isso aparentemente tem mudado. Já há alguma conversa em andamento?

“O elenco já está sendo montado para 2020. Já estão na pauta e em andamento várias renovações. Não começaram agora nessa sequência positiva não. Começaram há cerca de um mês e meio a dois meses, com atletas que têm o perfil e a gente já sabe que nós vamos contar com características semelhantes no ano que vem. E atletas que são adaptados ao clube e dentro do nosso orçamento, já temos planejado e rascunhado esse elenco para 2020. Os jogadores com contrato até o fim do ano, mas que estão no planejamento para 2020, todos já foram procurados. Sem criticar gestões diferentes da nossa ou até de anos anteriores, não se procura atleta no fim do ano para discutir renovação.

Podemos ter, obviamente, orçamento diferente do ano que vem, que seria com acesso. Mas tenho que trabalhar com orçamento da Série B. E o orçamento da Série B já me permite renovar alguns contratos, seja por um salário até maior, e fazer o planejamento, que também passa pela comissão técnica. Não tem sido feito nada visando 2020 sem a comissão técnica. Presidência, diretoria e comissão técnica: existe uma sintonia amplia desses três setores para poder sentar e definir nomes.

Nosso planejamento já começou em eventuais contratações - evidentemente feito de maneira correta, que é nossa linha de ética - e também no aproveitamento de atletas da base. Hoje temos um treinador que prestigia a base muito mais do que treinadores que vejo nas Séries A e B. Tem conhecimento muito grande dos nossos elencos sub-20 e sub-17, isso facilita muito. O América tem a transição da base para o profissional de modo que a gente coloque esses atletas já com projeção para o ano que vem. Por mais que tenhamos jogo atrás de jogo, viagens, treinamentos, a pauta da diretoria de futebol profissional já faz planejamento e não quer deixar nada para o fim do ano”.

A diretoria tem sido procurada para negociar seus principais jogadores?

"Reitero, o futebol de hoje tem sido polarizado em clube vendedor e comprador. Qual clube seremos? O América vem de um histórico recente de dificuldade para negociar atletas. Poucas foram as transações, as grandes vendas, mas esse quadro já está mudando. O mercado já está identificando, e estamos vendo isso com as recentes sondagens que recebemos pelos jovens que despontam no time principal. O mercado tem uma postura reativa quando nós temos de ser proativos.

Um dos trabalhos para o fim da temporada é este. Negociar atletas é essencial e continuará sendo cíclico. Um sai, o outro já está pronto para substituir, a roda gira rápido. Mas tem que ser de forma eficaz, sem atropelos. O DNA formador tem que funcionar assim: antes de vender um promissor, já tem que ter outro na base. É o trabalho que todos no clube estão fazendo. O Cauan (Almeida) me auxiliar bastante nesse filtro e a sua ascensão para o profissional, vindo da base, tem também esse objetivo. A transição é a engrenagem do clube”.

Qual o nível da estrutura dos demais departamentos que atuam no futebol (médico, físico, fisiologia, nutrição, etc.)?

"São cinco núcleos que funcionam muito bem no América. O resultado de campo também é consequência desses cinco: fisiologia, preparação física, nutrição, fisioterapia e departamento médico. Trabalham demais e de uma forma que permite performar como está performando. Vide final de jogo contra o Sport, um repórter local questionou nossa preparação física, dizendo que era inimaginável o América conseguir correr 90 minutos como estava correndo. É inimaginável para quem não acompanha o trabalho diário desses cinco. Principalmente preparação física, fisiologia e nutrição fazem com que o clube tenha um desempenho em alto nível. Nossa estrutura é muito boa.

A gente conta com profissionais de alto gabarito dentro do América, e os números mostram isso. Número baixo de lesões e recuperação rápida de atletas. A gente teve uma lesão no ombro do Matheusinho, quase que ligamentar, e o Matheusinho, com menos da metade do tempo, voltou a treinar e jogar. Isso é o trabalho desses cinco setores, que só temos elogios para fazer. É trabalhar cada vez mais para que eles tenham estrutura.

* DNA formador: América investe na base para ter retorno técnico e financeiro no futuro - leia neste domingo a segunda parte da entrevista de Paulo Bracks ao Superesportes

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