Atlético

ATLÉTICO

Como parar contra-ataques? Conheça estratégias que inspiram de Guardiola a Sampaoli e podem ajudar Atlético a corrigir erro

Técnicos compartilham ideias e estilo de jogo e, por isso, possuem trabalhos com algumas similaridades; preocupação com contragolpes é uma delas

postado em 23/10/2020 06:00 / atualizado em 22/10/2020 18:41

(Foto: Reprodução/Twitter)
Quando aceitou o desafio de trabalhar como treinador fora da Espanha pela primeira vez, Pep Guardiola sabia que precisaria se adaptar a uma escola de futebol bastante diferente daquela à qual estava acostumado.

Na Alemanha, deparou-se com os times que, nas palavras do próprio catalão, “são os melhores no uso do contra-ataque” no mundo. E, apesar dos títulos conquistados, viu seu dominante Bayern de Munique sofrer com equipes que cumpriam com maestria a proposta de ter rápidas e eficientes transições ofensivas.

No Brasil, o argentino Jorge Sampaoli vive dilema parecido - embora sempre seja necessário frisar as evidentes diferenças de qualidade e investimento entre o futebol daqui e das grandes ligas europeias.

'Discípulo' de Marcelo Bielsa assim como Guardiola, o treinador do Atlético conseguiu, em pouco tempo de trabalho, montar um time ofensivo, dominante e agressivo, mas que tem como “calcanhar de Aquiles” justamente a dificuldade de parar os contragolpes adversários.

Afinal, como os técnicos dessa vertente de jogo pensam em formas de combater as investidas em velocidade?

Costumeiramente, a imprensa não pode acompanhar os treinamentos desses profissionais e, por isso, a forma de responder a essa pergunta fica restrita à observação de partidas oficiais. Mas há quem pôde presenciar o trabalho diário de Guardiola e relatar essas estratégias, que são similares ao que Sampaoli deseja aperfeiçoar no Atlético.

As quatro estratégias de Guardiola


No livro Guardiola Confidencial (2014), o jornalista Martí Perarnau se propôs a “decifrar” a mente do treinador e, a partir de entrevistas e do convívio quase diário nos bastidores do Bayern de Munique, revelou algumas das propostas para evitar os temidos contra-ataques.

Ao falar do tema com o biógrafo, o técnico fez um paralelo com o basquete: “Se você quer ganhar os jogos mantendo a bola em seu domínio, deve proteger suas costas e cuidar dos rivais que atuam livres, que no basquete costumam ser os pivôs, jogadores que ficam posicionados no garrafão rival para marcar pontos com facilidade”.

Em seguida, Perarnau relata que a preocupação do treinador se concentra principalmente em dois jogadores adversários: o atacante de velocidade, que geralmente fica aberto nas pontas à espera de um passe longo nas costas dos laterais rivais para conduzir a bola; e o finalizador, que ataca o espaço e, mais centralizado, aguarda a bola vinda do extremo.

Por isso, o catalão estabeleceu quatro pontos para impedir os contragolpes, como escreveu o jornalista no capítulo “Três dos conceitos fundamentais de Guardiola”:

“Como se defender de uma ação dessas? Basicamente, adotando quatro medidas

  1. Evitar perder a bola nas zonas centrais do campo, que permitem ao rival iniciar essa manobra;
  2. Conseguir, através dos 15 passes de preparação, que seus jogadores estejam muito próximos do ponto de perda da bola e possam recuperá-la imediatamente;
  3. Fazer pressão sobre o primeiro atleta a receber a bola roubada, ou seja, o jogador que está livre na lateral;
  4. Antecipar-se ao último dos adversários que recebe a bola. Nesse caso, será crucial o papel do zagueiro que o acompanha: ‘Em um time que pretende ser protagonista com a bola, o cuidado com os rivais que jogam livres é o principal objetivo defensivo’, pontua Guardiola”.

Como isso pode ajudar o Atlético?


(Foto: Bruno Cantini/Atlético)
Embora sejam aplicadas em contexto bastante diferente, as ideias de Guardiola são, em parte, compartilhadas por Jorge Sampaoli. Para o argentino - que orienta os dez jogadores de linha a ocuparem o campo rival no momento ofensivo -, o momento seguinte à perda da posse deve ser marcado por uma pressão automática e intensa para recuperar a bola. Se executada com sucesso, a estratégia não apenas evita o contragolpe rival, mas também possibilita que o Atlético esteja bem perto do gol.

O chamado “perde-pressiona” também é importante mesmo se não houver a retomada da bola, já que pode retardar a saída de bola adversária e, com isso, fazer com que o time ganhe tempo para que a recompor as linhas defensivas.

Outra possibilidade recorrente nas equipes de Sampaoli é, em determinadas situações, parar os contra-ataques com falta. Não à toa, o Santos, comandado pelo argentino, terminou o Campeonato Brasileiro de 2019 como uma das equipes mais faltosas.

Mesmo com tantas estratégias e possibilidades, o Atlético de Sampaoli tem sofrido de forma recorrente contra times que se fecham e aproveitam a vulnerabilidade defensiva alvinegra para sair em velocidade. Foi o caso, por exemplo, da derrota de virada por 3 a 1 para o Bahia, no último domingo, em Pituaçu, pela 17ª rodada da Série A.

Isso também ficou evidente nas derrotas para Botafogo (2 a 1), Santos (3 a 1) e Fortaleza (2 a 1) e mesmo em partidas que o time não perdeu, como contra Fluminense (1 a 1) e Corinthians (3 a 2).

Há uma semana, após o empate com os cariocas no Mineirão, Sampaoli foi questionado sobre os motivos de o Atlético sofrer tanto com contra-ataques.

"(Sofre) Porque é a única equipe que se planta totalmente no campo rival. Então, tem que parar transições o tempo todo. Em meio a esse desejo de atacar, quando estamos em inferioridade posicional, os rivais aproveitam no que vêm fazer: jogar por uma bola só, contragolpear rapidamente se aproveitando de um erro ou um ataque mal-sucedido", pontuou.

Ao longo desta semana, o treinador intensificou o trabalho para diminuir o número de gols sofridos pelo Atlético, que tem a defesa mais vazada entre os dez melhores colocados do Campeonato. "A gente tem que manter o equilíbrio. E estamos trabalhando em cima disso para não tomarmos tantos gols”, destacou o lateral-esquerdo Guilherme Arana.

E o próximo desafio será no sábado, às 21h, contra o Sport, no Mineirão. Será a chance de colocar em prática tantos conceitos e, quem sabe, retomar a liderança do Campeonato Brasileiro.

Tags: galo guardiola atleticomg interiormg futnacional sampaoli seriea