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100 dias de Sérgio Coelho: o balanço do início de mandato no Atlético

Escolhido para unificar Conselho Deliberativo, presidente fez alterações significativas em cargos de confiança e tem como desafio equacionar dívida bilionária

postado em 14/04/2021 04:00 / atualizado em 14/04/2021 09:08

(Foto: Bruno Cantini/Atlético)
Eleito em 11 de dezembro de 2020 como o nome escolhido para pacificar a política do Atlético, Sérgio Coelho assumiu oficialmente a presidência quase um mês depois, em 4 de janeiro. Passados 100 dias desde a posse, o dirigente tem como principal marca neste início de mandato as mudanças significativas feitas em cargos diretivos e no comando técnico do time. Para os dois anos e quase nove meses que restam, o maior desafio é evidente: equacionar a dívida bilionária do clube.

Perfil apaziguador


Sérgio Coelho foi indicado à eleição pelo grupo que lançou como candidato o ex-presidente Sérgio Sette Câmara, no fim de 2017. Apesar da suposta “continuidade”, o perfil de governança do atual mandatário é muito diferente do antecessor.

Em meio às turbulências que afetavam o Conselho Deliberativo atleticano, Coelho despontou como um nome de consenso. Não à toa, foi candidato único no pleito de dezembro passado.

O trabalho para apaziguar os ânimos nos bastidores do clube começou ainda durante a campanha, período em que Sérgio Coelho se reuniu com dezenas de conselheiros. Os encontros não se limitaram à política interna: o então candidato também ouviu representantes da torcida organizada Galoucura.

Desde o início do mandato, Sérgio Coelho tenta colocar em prática a promessa de aproximar o Conselho do processo decisório. A medida mais clara nesse sentido foi a instituição do órgão colegiado, composto com os empresários - e conselheiros - Rafael Menin, Rubens Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador.

No modelo de gestão atual, o presidente e o vice José Murilo Procópio não são os únicos que mandam. A dupla precisa da aprovação do grupo de mecenas em todas as decisões importantes.

Outra ação de Sérgio Coelho foi integrar o também conselheiro Fred Couto às atividades das categorias de base alvinegras. O empresário era um potencial adversário da atual gestão, já que havia se lançado como pré-candidato à presidência para a votação que elegeu Coelho. Tempos antes do pleito, desistiu da ideia.

Existe, ainda, a expectativa pela presença mais forte de ao menos um conselheiro na gestão da equipe feminina do Atlético. A administração da equipe é da coordenadora Nina de Abreu.

Mudanças


(Foto: Pedro Souza/Atlético)
As ações para se aproximar do Conselho Deliberativo podem ser simbolizadas num episódio: a contratação do técnico Cuca, no início de março. Sérgio Coelho perguntou a dezenas de conselheiros se deveria ou não se acertar com o treinador.

Os questionamentos surgiram por conta da rejeição de parte da torcida e da imprensa por conta do envolvimento de Cuca num episódio conhecido como “Escândalo de Berna”. No fim dos anos 1980, o treinador - que à época era jogador - foi condenado por violência sexual contra uma garota de 13 anos, na Suíça.

Coelho escutou os conselheiros (muitos deles advogados) e decidiu dar um voto de confiança para Cuca, que quebrou o silêncio e se disse inocente no episódio. Dias depois, foi anunciado oficialmente como treinador atleticano.

A troca no comando técnico da equipe (sai Jorge Sampaoli, chega Cuca) foi apenas uma das mudanças em cargos de confiança executadas por Sérgio Coelho, sempre com a anuência do órgão colegiado. A ideia era ter em determinadas posições nomes indicados pela atual gestão, que não tivessem vínculo com a anterior.

No departamento de futebol, o diretor Alexandre Mattos - amigo de Sérgio Sette Câmara - foi substituído por Rodrigo Caetano. Nas categorias de base, Júnior Chávare deu lugar a Erasmo Damiani.

Outro profissional muito ligado a Sette Câmara, o jornalista Domênico Bhering, que dirigia o departamento de comunicação, deixou o clube após 20 anos. A vaga passou a ser ocupada por André Lamounier, que se licenciou do cargo de conselheiro.

Houve mudanças também em outras áreas do clube, como no departamento jurídico (muito em função do pedido de saída do ex-vice-presidente Lásaro Cândido da Cunha). No marketing, novos profissionais foram contratados.

Apesar da ideia de apaziguar os ânimos do Conselho e liderar um processo de pacificação, o recado de Sérgio Coelho e do órgão colegiado é claro: a nova gestão deve ter “caras” diferentes da anterior.

Em campo


Esportivamente, o Atlético tem metas ousadas. Há pouco mais de um ano, o clube passou a investir mais na contratação de jogadores, quase sempre adquiridos com empréstimos advindos da família Menin. Para que o plano dê certo, é necessário que esses atletas se valorizem com boas atuações e títulos para que possam ser vendidos (e os valores recebidos possam, então, ser devolvidos aos credores).

No último ano da gestão anterior, o Atlético contratou 19 jogadores. Nesta temporada, a ideia é manter a base do elenco e reduzir a quantidade de reforços. Até aqui, foram quatro aquisições para a temporada 2021: o lateral-esquerdo Dodô, o volante Tchê Tchê, o meia Nacho Fernández e o atacante Hulk. Existe a expectativa pela chegada de um zagueiro. 

“Desde que cheguei aqui, com a filosofia que foi implantada, nós trabalhamos sempre com reforços pontuais. Eu já afirmei que, obrigatoriamente, pelo tamanho do Galo, vamos estar sempre em busca de qualificar o elenco e não quantificar”, frisou o diretor de futebol Rodrigo Caetano, nessa terça-feira.

O investimento aumentou significativamente a pressão sobre jogadores, comissão técnica e diretoria. Na semana em que completa 100 dias à frente do clube, Sérgio Coelho tem sido cobrado por parte da torcida pela demissão do técnico Cuca, após a derrota por 1 a 0 no clássico contra o Cruzeiro. Neste momento, a saída do treinador não é cogitada.

A diretoria entende que é preciso dar a Cuca mais tempo de trabalho. O próprio técnico afirmou que o time estará “pronto” para a estreia na Copa Libertadores. O Atlético inicia a competição contra o Deportivo La Guaira-VEN, no próximo dia 21. Com o começo dos principais torneios do ano, a pressão deve aumentar.

Desafios


(Foto: Divulgação/Arena MRV)
Nos pouco mais de três meses na presidência, Sérgio Coelho tem repetido o desejo de tornar o clube uma referência continental. “Com todo esse trabalho sendo implementado, nós temos certeza que o Clube Atlético Mineiro, num futuro muito próximo, será reconhecido como um dos maiores clubes em gestão na América Latina”, disse, ao Superesportes, no último dia 25.

O projeto passa, sim, pelo sucesso esportivo, mas não se limita a isso. O discurso da cúpula alvinegra é que, para alçar o Atlético ao topo e mantê-lo por lá, será necessário realizar uma drástica mudança no panorama financeiro do clube. Nos próximos dias, a diretoria vai confirmar oficialmente que a dívida total ultrapassou R$ 1 bilhão. Há um planejamento para reduzir significativamente o valor nos próximos cinco anos.

Uma das alternativas é vender os 49,9% que pertencem ao Atlético do Diamond Mall, shopping localizado no bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A ideia tem ganhado força no Conselho Deliberativo, mas não é bem vista pelo presidente Sérgio Coelho, que prefere pensar em outras alternativas. A principal delas: lucrar com a Arena MRV.

E esse é mais um desafio para a atual administração. Ao longo da campanha, Sérgio Coelho repetiu seguidas vezes a necessidade de cumprir os prazos e inaugurar o estádio no segundo semestre de 2022. Mas, mais do que isso, utilizar a nova casa atleticana como um sustento esportivo e financeiro no restante do mandato e nas décadas que vêm por aí.

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