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Análise: diretoria do Atlético é salva por torcida no 'caso' Thiago Neves, mas transforma momento positivo em turbulência

'Povo' atleticano tomou as rédeas e, ainda que por linhas tortas, se impôs ante um erro dos donos do terno, da gravata e da caneta (mas não do clube)

postado em 15/09/2020 17:51 / atualizado em 15/09/2020 18:04

(Foto: Reprodução/Twitter Sérgio Sette Câmara)
Não foi preciso mais de uma hora e meia de críticas, protestos e até ameaças para que um iminente negócio retomasse o status de inimaginável, adjetivo que jamais deveria tê-lo deixado de caracterizar. O episódio Thiago Neves - que ferveu uma segunda-feira um tanto enfadonha na cobertura alvinegra - pode ser visto quase como um símbolo de resistência contra um processo que afasta, à força, a torcida das instâncias decisórias de um futebol elitizado. Desta vez, o “povo” atleticano tomou as rédeas e, ainda que por linhas tortas, se impôs contra um projeto equivocado dos donos do terno, da gravata e da caneta (mas não do Atlético).

Ainda que o pior tenha sido evitado, a simples hipótese de contratar um jogador que acumula mais cartões que gols nos últimos 12 meses deixa rastros no ambiente interno e escancara desavenças na alta cúpula alvinegra. Externamente, a má condução do caso gerou revolta - na pior das instâncias, aflorou a inconsequência de mais de 300 torcedores, que se aglomeraram em protesto contra diretoria e atleta em meio a uma pandemia que matou mais de 930 mil pessoas pelo mundo. Sim, o vírus ainda está entre nós.


Em pouco tempo, uma sucessão de erros transformou o cenário positivo, motivado pela vice-liderança e o melhor aproveitamento do Campeonato Brasileiro, em um ambiente, no mínimo, tenso. Os equívocos começam no idealizador do projeto: Jorge Sampaoli, responsável principal por comandar a transformação tática que coloca o Atlético na lista dos candidatos ao título nacional. O argentino, porém, é falível. Não é preciso conhecer a fundo a história alvinegra para identificar que o ex-cruzeirense encontraria adversidades na Cidade do Galo - tanto pelas constantes provocações em anos anteriores, quanto pelo retrospecto recente em campo.

Diante do pedido do comandante técnico, cabia aos seus superiores dissipar qualquer possibilidade de negócio. O diretor de futebol Alexandre Mattos, com 15 anos de experiência e outros clubes grandes no currículo, e o presidente Sérgio Sette Câmara, torcedor do Atlético e declaradamente ávido frequentador de arquibancadas na infância e juventude, tinham poder de veto. Convencidos - talvez pela redução significativa na pedida financeira do jogador -, apostaram na suposta capacidade de Sampaoli transformar tudo o que toca em ouro, mas esqueceram a óbvia repercussão negativa que o acordo teria antes mesmo de ‘Midas’ entrar em ação.

(Foto: Lucas Uebel/Grêmio)

A proximidade do acordo com o ex-ídolo cruzeirense, de passagem melancólica pelo Grêmio, causou insônia em torcedores e dirigentes. Mais do que isso, expôs a existência de vozes dissonantes na própria diretoria alvinegra, que já vive ambiente eleitoral, a três meses do pleito presidencial. O vice Lásaro Cândido da Cunha foi às redes sociais responder um torcedor que o provocara: “Se estiver escrevendo mesmo um livro, tem que ter um capítulo especial só para essa noite". O dirigente, então, deixou clara a discordância em relação a seus pares: “Não escreverei jamais sobre assunto que não participei! E que não aprovo!”.

Não são prejudiciais as divergências ou a existência de diferentes opiniões em instâncias decisórias de clubes de futebol. Pelo contrário. Porém, num ambiente como o do Atlético - que conta com presidente, vice, treinador, diretor de futebol, gerente e patrocinadores participativos -, espera-se que mais de um deles tenha voz ativa para impedir instauração de uma crise, ainda que pequena, em especial durante um momento promissor e esperançoso dentro das quatro linhas. Qualquer passo em falso pode ter reverberações sérias na eleição que definirá, em dezembro, os componentes da gestão do clube para o próximo triênio.

Alexandre Mattos se desculpou publicamente. Jorge Sampaoli compreendeu a revolta da torcida, aceitou a desistência do negócio e voltou a cobrar a chegada de um camisa 10. Sérgio Sette Câmara silenciou. Ao presidente, além de dar à torcida explicações sobre o caso e aparar as arestas com Alexandre Kalil visando à reeleição, resta o dever de encontrar meios para quitar salários (recorrer novamente aos Menin?) e evitar o que seria ainda pior que a contratação de Thiago Neves: a saída precoce do treinador.

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